domingo, 1 de agosto de 2010

Um mar


Não era bem assim que o mar teria se apresentado;
tanta tralha na espuma e tantos pés calçados a lhe pisotear a alma.
De qualquer modo, foi assim que o vi pela primeira vez.
Também foi a última.
Alguns dias depois recuou para o fundo.
Para o fundo dos olhos.
Olhos de quem chora um mar.

sábado, 17 de julho de 2010

Terminações nervosas e a dor em prontidão

O cigarro queima entre os dedos da mão direita, enquanto tudo se perde no vazio que olhas.
Além do vazio, vago.
Lá os cantores são charmosos e leem Jack Kerouak e também se comovem com as putinhas tenras que vez ou outra pedem uma canção.
E se faço poesia vagas ou acotovelo o balcão
Na busca estúpida de farelos e inspiração
É porque o vazio é ainda a saída para encontrá-la de lá prá cá
Falando sozinha na vaga da minha poesia enamorada que puta alguma mereceria, não àquela hora.


De repente o copeiro invade o vazio (o que a irrita mais que surpreende) e pergunta se quer mais alguma coisa. Você o olha e aturdida diz alguma coisa no lugar da verdade e só depois descobre que pedira um conhaque. Deixa o cigarro no cinzeiro e apanha (com a mesma mão direita de tantos outros gestos, inclusive aquele de enfiar-se pelo cabelo jogando-o para trás) o copo de conhaque. Fica olhando para ele algum tempo como que procurando o vazio de antes, mas o que encontra são tipos miseráveis desfocados que te observam impunemente. Bebe o conhaque de um gole só, dá uma última tragada e pede a conta. Levanta tão lentamente quanto permita o equilíbrio desse gesto e dá o primeiro passo. Confusa, olhas ao redor, quer muito que as paredes se abram em caminhos bem iluminados, de preferência em meio à algazarra de colegiais adolescentes efervescendo ao sol de suas histerias, mas o caminho é outro, cheio de esbarrões e cantadas sujas. Já à rua, você nem percebe que traz o copo e que não há um gole possível ainda repousando no fundo. Volta-se e o atira contra a parede. Todos olham e todos sorriem carrancas podres. O copeiro diz alguma coisa que não te interessa e mais uma vez toma o rumo de um lugar que não existe. Os vazios são preenchidos como que numa alegoria que aos poucos se desenha; ganha algumas cores tímidas e poucos sons naturais. Ouves a notícia de que alguém quebrara um copo, de que alguém sozinha num bar sujo do centro da cidade quebrara um copo contra a parede e que por isso estava sendo ameaçada. Ao mesmo tempo você se desloca entre os tempos de tantos outros passantes sem tempo nenhum para te ver passar por eles; fantasmas de uma mesma caminhada. Você pergunta quanto custa o copo e o rapaz á sua frente não entende nada, desvia e some por um mundo de imprecisões. Você nota que não há nenhum bar ao seu redor e que as vozes que ouves anunciam toda a sorte de impropérios. Não se trata de alucinação, não bebera para tanto, mas te parece tão claro que os vazios agora pareçam monstros prontos a transformá-la num banquete. Tocam seu corpo e tentam puxá-la para dentro de um emaranhado de estórias que nunca ouvira antes, mas que agora são digitadas tão velozmente quanto o copeiro que te aparece com a conta do copo, a conta de um mísero copo. Pois que a vida transformada num copo que se espatifara contra a parede descascada de um bar imundo, pois que transformada em quase nada, pois que a verdade também é uma estória e então, minha cara, que tal atravessarmos juntos a porra dessa avenida e depois cada um tomar seu rumo; eu e as minhas investidas vazias, você e os seus horizontes cada vez mais em pedaços, pois cacos de um mundo pelo chão, que tal, hein?


sábado, 3 de julho de 2010

CONDICIONAIS

Precisaria mesmo de um corte mais profundo, um instante mais alucinado que trouxesse o alento de um antigo sentimento ou mesmo os odores daquela relação. Precisaria mesmo de um corpo em lumes, enlouquecido de porta em porta, espiando por entre a troca de luzes outras presenças imprecisas, cujos nomes inaudíveis se faziam sussurrar. Precisaria mesmo de outra morte mais definitiva, de um rio ainda mais enfurecido que me afogasse para sempre dentro das cenas escolhidas, que me mantivesse pétreo incapaz de gesto, vidente destas alucinações enquanto algum dia passasse lá fora e me acenasse um adeus técnico, calculadamente gelado. Quando não mais precisasse de nenhuma emoção, retribuiria o aceno e aguardaria da noite os primeiros bocejos e dormiria em paz, tão tranquilamente que não acordaria para estes dias infiltrados, úmidos, em cuja cabeceira tuas preces revolveriam meus pecados buscando-lhes uma salvação não desejada. Precisaria de um silêncio compacto e de tragadas lentas; gostaria que não me proibissem certos vícios e que me deixassem olhar, de relance que fosse, os trejeitos do teu corpo. Gostaria tanto de tantas coisas indelicadas e indizíveis, coisas como respirar de mais perto os ares de tão longe, viver dias sequer contados no calendário do seu tempo, coisas como sonhar os sonhos de um animal extinto ou acordar nas manhãs de outra civilização. Precisaria desaprender hábitos e enfiar-me de corpo e alma no vício da sua visão, gerar outras estórias e sorrir com dentes novos antigas aspirações; sim, seria tão mais necessário olhá-la por ângulos improváveis só para crê-la menos encantadora e então arrebatar-me esconjurando cada detalhe da tua silhueta. Precisaria tanto decidir-me se eu ou se outro além dessas insinuações, além dos sabores que trago vivos na saliva. Precisaria até encerrar-me em mar alto sob todos os sóis pretendidos pela vida e salgar os olhos com tanta imensidão. Até das saudades levadas em desatino como se acaso destino desta mesma improvisação que é amar-te todos os dias, eu precisaria. Precisaria concessões e finais escritos sob medida; fotografá-la de ímpeto e agressão invadindo teu quarto quando já descartado dizendo-te não as palavras que me inspiras, mas aquelas devidas. Precisaria, ao invés de uma cena qualquer, apenas pedir-te um beijo, e mesmo que eu ficasse pelo caminho, beijar-te simplesmente.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago

“[...] não sei como perceberão as crianças de agora, mas, naquelas épocas remotas, para as infâncias que fomos, o tempo aparecia-nos como feito de uma espécie particular de horas, todas lentas, arrastadas, intermináveis. Tiveram de passar alguns anos para que começássemos a compreender, já sem remédio, que cada uma tinha apenas sessenta minutos, e, mais tarde ainda, teríamos a certeza de que todos estes, sem exceção, acabavam ao fim de sessenta segundos [...]”.
As pequenas memórias (p. 59)


Saramago é um dos maiores escritores de todos os tempos e de qualquer língua. Sua pátria, sua militância, sua vida são os livros que escreveu e os escreveria com a mesma genialidade fosse o seu idioma qualquer outro. Falaria de outras realidades e, muito provavelmente, de outros recantos, mas o faria com a mesma intensidade. Sua pátria escrita é um sem tempo de humanidade.

terça-feira, 8 de junho de 2010

ENTRELACES

prá você

Quando no meu sonho encontrei as gavetas vazias foi porque no seu sonho você já tinha ido embora levando todas as roupas.

Enquanto desse lado do mundo eu remexia o escuro do quarto buscando alguma lanterna entre as memórias, do seu lado tudo vinha à tona entre espumas de esperança e longos caminhos pedregosos.

A circularidade da vida nos foi carregando cada vez para mais longe, mas nem ela própria foi capaz de perceber que quanto mais longínquo dentro do circulo mais próximos ficávamos. E tão próximos que nossos sonhos se confundiam; sonhávamos os sorrisos um do outro, sonhávamos as dores e os percalços e nem mais sabíamos quem se levantava pela manhã e lavava o rosto num desencontro de visões.

Completos e desiguais temíamos que as noites nos dragassem como restos. Não éramos restos, afinal. Mesmo que não soubéssemos, a cada dia ficávamos mais próximos e tão mais perto que os sonhos passaram a fazer parte do dia já claro, dos afazeres e de uma preguiça intensa que se instalava a cada novo fim de tarde.

Ainda não sabíamos, mas não amanhecíamos mais sozinhos, nem íamos à rua sem que o guarda-chuva de um protegesse da chuva o outro; não havia como atravessar as avenidas sem que não nos déssemos às mãos. E tudo sem fazer ideia de que já íamos tão perto.

Em certas madrugadas vagávamos pela casa um do outro com medo dos sonhos e até nos encontrávamos nos copos de chá morno sem saber que os lábios nas xícaras eram os nossos; sequer pressentíamos as cores do seu batom nas minhas toalhas ou as minhas secreções nos seus lençóis. E cada vez mais próximos.

A água de um banhando o corpo do outro, as colorações dos dias de um chamejando nos gestos do outro e um sem fim de interpenetrações loucas que derrubavam objetos quando não havia nada ou ninguém, mas insistiam em escapulir do sonho e bulir no círculo que continua em si mesmo para uma eternidade de desenhos sobrepostos e, do mesmo modo, bulir a vida, essa sequência de eventos que se adicionam e que se desmancham quando a ausência de um é a falta do outro.

Se na sua realidade o presente é um sonho, saiba que na minha vida o presente foi sempre você, não um presente qualquer que sonhamos depois de meia dúzia de cervejas, mas um presente que se conjuga amando.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

POEMA CRÔNICO

ou
Pequena crônica das cores do meu amor

Nos últimos tempos amou vazio.
Deitou-se sozinho quando lhe sussurraram tolices no ouvido; desabou-se em reentrâncias irrespiráveis e cegas, mas antes,
antes amara com tanta avidez que construíra um mundo de cores arrebatadoras.
Vermelhos tão violentos que era sangue qualquer beijo; amarelos magnânimos que sequer Van Gogh imaginaria; azuis só possíveis do espaço, pois azuis intermináveis; verdes frondosos, saborosos, embalados pelo branco de uma brisa fria.

Também amara de um jeito tão desconcertante que as horas se fizeram de uma brevidade cremosa para depois precipitar-se orvalhada no seu púbis contraído.
E amara descalço sobre brasas e tão alto que nenhum Everest bastaria;
amara tão nevralgicamente que se tornara crônica a dor de um bem-querer despetalado.

Amara convulsa e tristemente através de velhos poemas amarelecidos de tempo e lágrimas, mas amara, sobretudo, com os olhos bem abertos de tão profundo que fora o mistério.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

TODO RETRATO É O MESMO

...e por ser assim, não espanto as teias vivas e pressinto o tanto de tempo que se aproxima; retratos esmaecidos sob o pó vigilante testemunham a busca e quando tocados impregnam o ambiente não com o mofo, mas com a verdade dos seus traços. Uns sorriem quase piedosos, outros se escondem e procuram as portas, as mesmas que deste lado da vida se mantém entreabertas numa espera de dias e brisas. Quem por aqui deixou seus dizeres e seus gestos ensaiados, fixou-se nas sombras, no jogo de luzes de um lusco-fusco prenhe de invernos desbotados; fixou-se como em um sonho do qual não nos livramos pela manhã, impregnou-se como um adeus que é sempre outro se repetindo no retrato que antes era um sorriso seu. Depois de tudo, ainda uma sonata e uns poucos minutos entre a certeza dos seus olhos mais ou menos castanhos e a leveza dos nossos pecados certamente doces. Depois de tudo, as teias já não se comovem com meus gestos combalidos e escondem nossas passagens secretas, tudo então é distância, solidão e canções do Djavan, tudo é uma questão de burlar as leis da natureza e flutuar pelo sótão como quem procura suas pegadas ou chafurdar na embriaguez dos seus cheiros cheios de mim e de quem mais? Entre todos os retratos que não mais alcanço, o seu é o que mais se insinua, mesmo que dele reste apenas a moldura e os motivos que o arremessem contra a parede, mesmo que dele restem as teias e o tempo exato de contar-lhe a estória.

domingo, 18 de abril de 2010

Promessa

Juro que tu serias minha vida, déjà vu perpetuado por todos os meus poros e instantes e meu instante absoluto, cósmico, um instante diabólico tatuado no plexo, um instante divino em você e na criação, nos cuidados com as plantas, durante minhas expedições lunares ou minhas audições malucas de Creedence Clearwater Revival e mesmo que o desatino do fim da vida me levasse ao espelho e fosse um estranho que me olhasse, mesmo assim este estranho perguntaria de ti, e de ti falaria a noite toda, contaria nossas estórias, lembraria nossas andanças por ruas e becos e matas, nossos pés tão ágeis transpondo o limo das pedras e depois acarinhando um ao outro, e mesmo que de mim já não fizesse a mínima idéia, de ti lembraria todos os detalhes. Hoje e por tantas outras vidas, lembrar de ti não seria nenhuma ave sem rumo, mas uma revoada migrando para teus confins e teus confins estariam certamente brilhando no espelho quando eu me olhasse procurando por ti.

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