domingo, 18 de dezembro de 2011

Imprecisões

(ou déjá vu)
Acordava bem cedo, fazia café e tomava uma xícara.
Depois voltava a dormir e sonhava. Sonhava que acordara cedo, fizera café e que tomara uma xícara. Acordava com o café pronto e uma xícara fumegante sobre a mesa e pensava como aquilo seria possível. Não o fato de acordar e encontrar o café já pronto e servido à mesa, e nem porque sonhara com ele próprio coando o café na luz morna da cozinha ou porque olhara pela janela o mundo ainda dormindo enquanto tomava um café, mas porque não havia sentido na disposição dos objetos e mesmo dos quadros nas paredes, porque não fazia ideia daqueles cômodos, porque não entendia como pudera comprar um tapete tão feio, porque não sabia aonde viera parar desde que acordara direto de um sonho no qual acordara cedo e encontrara a casa de sempre, com os objetos cuidadosamente escolhidos mundo afora e dispostos de modo a contarem uma estória, a sua, ou a estória de imprecisões colecionadas, sensações de tudo outra vez. Porque não sabia aonde viera parar desde que acordara direto de um sonho no qual acordara cedo, fizera café como fazia todas as manhãs, duas colheres rasas de pó, duas colheres rasas de açúcar, pouco mais de 300 ml de água fervida, algumas idas à janela enquanto a água não fervia e olhar um lado e outro da rua ainda às escuras. Porque não sabia aonde viera parar desde que acordara direto de um sonho no qual acordara cedo, fizera café e tomara uma xícara como em todas as manhãs e como em todas as manhãs olhara os objetos comprados por aí, por mundos coloridos que se faziam em costuras perfeitas e arremates que só as mãos de uma fada, olhara os quadros nas paredes sem entender o que faziam ali justamente sobre a impressão de outros quadros que não se ajustavam às sombras de um dia ainda por amanhecer, ainda por escapar do sonho, ainda por transformar-se em aroma de café.

Pintura de Lucas Mucarzel

domingo, 4 de dezembro de 2011

A vida, um dia

A sorte ao norte derivou sensatez e bocados doces de algodão nos céus
Volvi ao sul, às paginas insertas de sangue nas bancas
(vi que ao fundo, no fundo daquilo que procurei tatear, mas que tão longe me restou olhar como se olham as fotografais, vi que também procuravas por algo, alguma maçã mais vermelha, meias para o inverno, um inferno revoando a queima-roupa, vi que as datas se corrompiam e que não havia mais armários nem guarida, e vi que procuravas aflita a sensatez de um norte - à deriva)
E pedi um jornal de qualquer dia, pois não interessavam as notícias, mas o quanto de tinta, papel e preguiça um do outro guardaríamos.


Foto de Giuseppe Savini encontrada em Illustratus 
 
Agora vejam e ouçam...porque o tempo é um.


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