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domingo, 23 de setembro de 2012



Atalaia
(ou, para não dizer que não falei de Aracaju)

Há entre o azul e o outro tom que ondula mais abaixo um muro e só
Um muro erguido de água, sal e visão
Um salto de olhar que longe vê ilusões de mar alto
Sobressalto anoitecendo luas
Clareando olhares admirados de mar entre as cores que abismam paredões
No olhar requebros escorrem pelo canto da boca entre uma e outra loira
São morenas, brancas, pretas em desfile e desvario de banhos, moças roliças suando sabores de gestos multicores entre o azul e o outro som dos pássaros que espiam e tudo o que há é olhar e solidão contra o fundo de areia que pisas no mesmo instante em que brumas róseas te surpreendem desenhando verões
E dentro do outro tom de ondas caleidoscópicas guardam-se peixes, baleias e sereias de eras pretendidas pelo tato de quem se perde feliz num tempo de imensidão aquista às vistas de quem se enovela à tarde erguida de água e olhar
De tanto olhar torno-me elemento na tela
Na tela de tanto mar.

domingo, 17 de junho de 2012

Aprendiz

(deitar-me e ler-te, então)
Quero teu corpo como a um livro que eu escreva não com as palavras que nasçam em mim, mas com as súplicas dos anos em que deixamos de sonhar; talvez não queira escrevê-lo, mas lê-lo em segredo de criança, ouvir-lhe as entrelinhas sussurradas, desvendar-lhe os versos nas pontas dos meus dedos literatos e pacientemente participar de uma ode a dois na qual tu gemas versos de indelicadezas sensuais e meus ais pronunciem o desejo de mais uma página. Quero escrever-te como a um jornal diário dizendo-te além do amor todas as paixões em seções inesperadas, paixões escritas e inscritas na imensidão que olhas perdida quando a pontuação evidencia pausas e respirações, quando os parágrafos altercarem não ideias, mas a cidadela sitiada entre os montes da minha inspiração. Também preciso que me escrevas no vão retido tênue da alma-ave migratória que fazes voar todo mês, nave-mãe de sóis criados à sorte dos dizeres descabidos, poema em si despido de palavras exatas, incontida senhora das horas em que me amarras à sombra de tuas coxas poderosas e me sufoca com teus sufixos sulcados às minhas costas. Então o recuo ante o final; mais um capítulo ao tantra, mais um paraíso de algodão amarfanhado pelas mãos, mais um tremor espalhando letras pelo chão.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A voz da solidão

Duvidei e pouco depois a distância se acabou contra a parede, sombra acachapada no silêncio turvo, quase distração de olhos cansados de madrugada e inquietação.
Virar-me e compreendê-la ao toque, percorrê-la quase sem forças tal qual um mensageiro de longe, um visionário de vistas vazadas de luz e despenhadeiros abertos, custou-me um fim de tarde perdido pela janela da frente, a mesma na qual debruçastes tantas vezes a ver o revoo brilhante das andorinhas e o murmurinho distante da solidão.
Ater-me às conjunções astrais, ao desvario dos bólidos que se julgam capazes de galopar tais corcéis de zombaria, fez-me compreender que amar é mais como um beija-flor que na sua pequenez aventura-se solar, espraia-se alado bico amante aconchegado ao gineceu da tua descoberta, como eu, de ti aprendiz.






domingo, 18 de dezembro de 2011

Imprecisões

(ou déjá vu)
Acordava bem cedo, fazia café e tomava uma xícara.
Depois voltava a dormir e sonhava. Sonhava que acordara cedo, fizera café e que tomara uma xícara. Acordava com o café pronto e uma xícara fumegante sobre a mesa e pensava como aquilo seria possível. Não o fato de acordar e encontrar o café já pronto e servido à mesa, e nem porque sonhara com ele próprio coando o café na luz morna da cozinha ou porque olhara pela janela o mundo ainda dormindo enquanto tomava um café, mas porque não havia sentido na disposição dos objetos e mesmo dos quadros nas paredes, porque não fazia ideia daqueles cômodos, porque não entendia como pudera comprar um tapete tão feio, porque não sabia aonde viera parar desde que acordara direto de um sonho no qual acordara cedo e encontrara a casa de sempre, com os objetos cuidadosamente escolhidos mundo afora e dispostos de modo a contarem uma estória, a sua, ou a estória de imprecisões colecionadas, sensações de tudo outra vez. Porque não sabia aonde viera parar desde que acordara direto de um sonho no qual acordara cedo, fizera café como fazia todas as manhãs, duas colheres rasas de pó, duas colheres rasas de açúcar, pouco mais de 300 ml de água fervida, algumas idas à janela enquanto a água não fervia e olhar um lado e outro da rua ainda às escuras. Porque não sabia aonde viera parar desde que acordara direto de um sonho no qual acordara cedo, fizera café e tomara uma xícara como em todas as manhãs e como em todas as manhãs olhara os objetos comprados por aí, por mundos coloridos que se faziam em costuras perfeitas e arremates que só as mãos de uma fada, olhara os quadros nas paredes sem entender o que faziam ali justamente sobre a impressão de outros quadros que não se ajustavam às sombras de um dia ainda por amanhecer, ainda por escapar do sonho, ainda por transformar-se em aroma de café.

Pintura de Lucas Mucarzel

domingo, 23 de outubro de 2011

Inquietações

Preciso acordar antes que sonhe outra vez. Não que os sonhos mintam ou façam de mim um animal sem faro, ao contrário, preciso acordar antes que estas sementes fecundem e outra vez me penitencie a beira de um amanhecer em queda livre; preciso muito desvencilhar-me dos hábitos antigos e deixar o habitat daquela criança desenhada em mim, soltar-me enfim sem brincadeiras a sério mentidas em cada canto de olho sorrateiro trazendo dos sonhos segredos que só aqueles que lá povoam sabem guardar.
Preciso, então, muito acordar antes que outro sonho prenhe de constelações ilumine para sempre o quarto que muito quero na escuridão das mãos que burilam caprichosas cada centímetro.
Todos os vãos.
Acordar a tempo de ver-te ainda preguiçosa caminhar descalça pela casa, vestir-se sem pressa enquanto finjo sonhar que te beijo para ser melhor ainda o beijo que te quero dar.
Mas é preciso acordar.
Tão precisamente eu possa, preciso te perguntar: foi sonho ou você já foi caminhar? Amei-te tão bem ou fingiste gozar? Brincamos de fazer versos ou acordei antes de sonhar?
Ficou decidido depois, que tudo até aquele momento era sonho e que só a partir daí, dessas inquietações de casa amanhecendo, cheirando de novo a novo café, gestos que procuram potes, bocas que provam ainda nas facas de manteiga requeijões e geleias, pés que se perfumam para calçados apertados pisarem as calçadas apertadas. Só então decidir-me pela realidade, mesmo que de fora não fosse assim nenhuma gravidade e nem apontasse indícios de que mais tarde tão cansados dormiríamos profundamente e nada nos livraria de um sonho que nos arremessasse contra o fundo de outro dia, mais um dia fingindo-me ali pelas seis só para ver-te caminhar descalça, vestir-se sem pressa acreditando que sonho beijar-te só para tornar ainda mais vertiginoso o beijo que te daria agora.




 

domingo, 9 de outubro de 2011

Fuga (ou, das tolices e contradições)

Sinto que não vivo em mim.

Não sinto meus pés caminharem estas vias, nem vejo as cores que se entregam à minha visão; só o desalinho dos seus cabelos contra um vento que não eriça minha pele, mas estranhamente aterroriza. Parece um beijo do inferno. Um suspiro pela porta entreaberta.
Corro abri-la quando batem, mas não é minha a mão direita que torce a maçaneta, tão pouco os olhos que se deparam com outra estória. Recebo, falo, oriento, explico, brigo, emudeço, despeço-me. Mas nunca sou eu quem fica só ou quem os recebe.
Eu me pareço com alguém que não conheço, me pareço com o vazio de uma expressão no escuro.
No espelho não vejo alguém com quem eu dividiria minhas amarguras e minhas alegrias, aliás, nem minhas as alegrias sequer seriam, pois não as vivo e nem minhas amarguras transgrido para socorrer-me um instante. Apenas vivo um dia de ausência, de um corre-corre osmótico, um dia de gestos tão exatamente mecânicos, tão piedosamente carinhosos, mas vivos sem mim, sem quem os vista ou manuseie, sem alguém que lhes deem humanidade plena ou a mais pura animalidade.
Sinto que vivo a vida de alguém sem vida; todos os dias. E sinto que todos os dias esse alguém procura por sua vida, mesmo que não viva em si, mas em mim, mesmo que a sua vida seja vazia, sinto que se inquieta e se aniquila a cada gesto meu, a cada palidez, a cada nova manhã de olheiras e futilidades, a cada segundo que vivo fora de mim desintegrando a vida de quem pensa haver vida nesse eu vazio.

(ouça depois, durante, quando quiser...)



domingo, 31 de julho de 2011

Eu, o outro

Sou alguém que se pensa como tal, mas pensado por outro sou diferente; aí sou o outro e eu não sou mais. Não ocupo no outro a mesma importância que me dou, nem apreendo do outro, especulações a meu próprio respeito. No outro sou outro alguém diferente daquele que me penso. Vejo-me a partir de mim; este que se vê é o outro. No outro apenas estou. Estar no outro é, obviamente, passageiro, no entanto, ser em si também o é, pois, somos no tempo. O tempo de um nos arremedos do outro, ou o próprio tempo um arremedo de todos? E apesar disso sou eu quem se diz o outro quando converso com alguém, quando caminho, lado a lado, quando amo e mesmo quando contrariado, eu e o outro nos percorremos distintos e enovelados. E sou eu, apenas e tão somente eu, diferente e tão igual porque outro.

domingo, 3 de julho de 2011

De tanto você

Não sei bem se foram os mesmos dias perdidos e as noites caminhadas sem rumo de tanto que você me perseguia, predadora sombra material, pesada e densa como uma sopa de imprecisões que eu tomasse de tanto frio e solidão, afinal li tantos livros, ouvi tantas músicas, quase consigo medir o tanto de chuva que caiu no último mês. Perdi um pouco o prumo e o rumo dos caminhos esqueci. De tanto você, parece mesmo é que esqueço o rumo da prosa e me acabo em poesia, uma poesia que mistura os sabores e se inquieta dentro de mim. De tanto você me perco porque desvaneço ardendo das febres que você inspira por dentro e das vodkas servidas às tantas e em chamas. De tanto você nada resolvo com a luz não me envolvo e não volvo para ver Almodóvar te colorir. Fico te assistindo alegórica, passista meteórica de cinta-liga que me desliga e me programa para quando quiser e bem entender. De tanto você me aprisiono, me rendo, me encanto, cedo meu canto aos seus arredores deito meu pranto e adormeço para te comer melhor. De tanto você espio revistas que habitualmente não perceberia fazendo de conta prá ficar mais perto e ter uma desculpa qualquer, não me pegar boquiaberto de tanto você passar em revista meu mundo e investir artista numa tela que amanhece sem me ver. De tanto você cego meus olhos num blues de céu atônito e remoo minha cômica pose démodé. De tanto você me esquecer nem mesmo sei quem sou, imagino que talvez um verme adubando seus quintais florais, talvez brisa na finita vastidão suspensa dos seus varais, mais ainda, pó repousado nos seus poros. De tanto você nem me ver não mais me reconheço, franzo o cenho frente ao espelho que não me olha e me toco para existir. Quando estremeço e procuro alguém ao meu lado não há quem me satisfaça de tanto você.

domingo, 19 de junho de 2011

Meio a meio

O que mais anoiteceu além da voz por detrás da porta foi a certeza da fome que fez correr ao telefone pedir qualquer coisa pizza quem sabe e nesse meio tempo esquecer o olhar lá fora procurando luas e sensações afagos destes que os bichos fazem sem que compreendamos por inteiro e só então perceber outra fome ainda mais profunda mais de dentro uma fome de saudades impossíveis à superfície essas saudades pontiagudas que nos roubam oxigênio e nossos melhores talentos.
Mais que as cinzas e as baganas nos cinzeiros dispostos pela casa o que ressequiu mais que a boca foi o esquecimento do gesto próximo ao queixo nem tanto o passo no corredor que por nada se inquietou ficou no aquém da reta e ameaçou pouco aquele que fartou a farra à beira do batente lembrando que o olhar pela janela desenhou um susto mais ou menos acidental e que não bastariam festas todas as noites e nem convites inesperados que nos levassem a mundos mais brilhantes e divertidos.
O que mais aconteceu foram horas chegadas de longe ontem antes talvez horas tórridas suadas sonâmbulas de braços à sorte de um ir e vir pelos mercados e sonhos pelos ermos de um bairro onde a casa tão mais anoitecida que o fim aguarda que rabisquem noutra página um pedido qualquer antes que desliguem antes que avivam todos os seus olhares pelo sem fim da janela que leva daqui lá prá fora mesmo sem partir e traga uma meio a meio; portuguesa e quatro queijos? Ou a certeza de que a fome é outra e que o meio é a ida, o meio é a volta?

domingo, 24 de abril de 2011

(Des)semelhanças

Bem-te-vi bem ligeiro que nem a vi por inteiro, um pouco do corpo alvo esguio sumindo na página destacada sem compromisso com o leitor a ver navios. Da decisão de voar entre os bólidos desajuizados até pegar-me, eu mesmo, sem juízo, tornou-se perfume, um frescor quase gélido deixado por onde andaste; um martírio doce penetrando-me as narinas, atirando-me longe quando ainda fazíamos amor e festa a qualquer hora. Tão ligeiro que ficou a dúvida se verdadeiro, mas o perfume quase corpóreo, a silhueta furtando-se da retina, os olhares que também viram e não souberam nada em absoluto, mas um fragmento de beleza indizível e então a nau zarpando deste ancoradouro, sombra veloz no nevoeiro. Ligar, insistir, deixar recados nos muros e nos guardanapos, olhar por todas as frestas e quem sabe encontrar um gesto, uma sugestão que fosse. Quem sabe descendo as mesmas ladeiras daquela adolescência colorida ou subindo no mesmo trem que nos levava para qualquer lado. Decidi voar por entre os bólidos desajuizados porque não fazia nenhum sentido preservar o senso e voando sem juízo vi que você se multiplicava. Bem podia ser aquela loira franzina que disfarçadamente me olhava enquanto não se decidia entre partir e ficar ali olhando as horas, bem podia ser alguma garotinha ruiva com sardas indefectíveis e seios pequenos, no entanto, tão autossuficientes e idade o bastante para compreender que, embora predadores, também somos meninos a maior parte do tempo. Bem podia ser qualquer uma, vai ver uma dessas que sumiu no exato instante em que resolvi me perder no seu encalço. Melhor voltar, esperar que escureça e que todas fiquem tão mais iguais, máscaras que se larguem por todos os cantos enquanto eu finja nem sabê-lo e me distraia com qualquer uma que me saia como você, que tenha um timbre vocal semelhante ou um jeito de mexer nos cabelos suspendendo-os no alto da cabeça deixando a nuca a descoberto e todo o resto por dizer.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Rascunho

Há uma preferência de sol aberto, um olhar de janela encortinada que obriga as mãos em voo calmo a acenarem breves e cautelosas. Há uma ave que não se aninha e que trila um verbo impreciso, uma estória que se agita contada sem muita retórica e quase nenhuma rima.
Quando chove, porém, há uma vida que se revela em ondas, o balé das plantas que na rega produz um alvoroço de bichos tímidos que correm avisar o tempo de outras preguiças; as abas do chapéu desfalecidas nas águas, o cochicho que nem é mais prece de madrugada, mas uma vontade de vozes trazendo café, leite e pão, também suspiros de imensidão desenhada depois das janelas.
Há um tempo acocorado junto à criação encorpando-se de morte; um tempo atento às passadas que madrugam certas de que não vamos semear olhares e nem despertar desejos secretos. O que se rompe, então, o que escancara a fissura do tempo é este olhar que escorrega desde aqui onde me intrigo e desmaio dentro de expectativas desbotadas, suspensas e plásticas, até a nostalgia que nada mais rascunha, tampouco abre as portas.
Há uma noite que se espaça na fenda, uma mulher triste que escreve versos felizes num faz-de-conta que aflito conta os segundos do bibelô sobre a mesa, a toalhinha de renda manchada na borda (um pingo de café tão quente), as notícias de que o sol já vem. Há um corpo a seu lado e ao meu lado também; há o desejo afoito de lhe estocar tão fundo e tão violentamente que chego a pensar que é morte o pensamento e que pensar é a ferida que apalpas na hora de coar o café e depois, sem querer, derramá-lo sobre a borda da toalhinha de renda.
Há por dentro destes vazios um ilusionismo que nos traz à claridade de um altar, como presas indefesas de uma crença que me faz sangrar. E é sangrando que estico as cercas, cuido de não criar motivos e esfrego nos olhos um vento de solidão infinda. À porta, o cheiro das coisas da manhã me impacienta, manhã de mais um dia, mais um dia de goles em seco, de apelos aos deuses moribundos esquecidos junto às relíquias dos baús, mais um dia de ir e vir pelos corredores, de abandoná-los às dores dos luzires que de fora lançam um querer incomum, um caminho que sai da porta e se joga contra o mundo, um caminho de quedas cansadas e de um gosto morto nos lábios, um beijo de anjo, uma insinuação escorrendo sobre o seio; a gota de café, a borra no coador, a adivinhação de um suspiro tão longe lembrando os cacos de um bibelô no chão.

sábado, 3 de julho de 2010

CONDICIONAIS

Precisaria mesmo de um corte mais profundo, um instante mais alucinado que trouxesse o alento de um antigo sentimento ou mesmo os odores daquela relação. Precisaria mesmo de um corpo em lumes, enlouquecido de porta em porta, espiando por entre a troca de luzes outras presenças imprecisas, cujos nomes inaudíveis se faziam sussurrar. Precisaria mesmo de outra morte mais definitiva, de um rio ainda mais enfurecido que me afogasse para sempre dentro das cenas escolhidas, que me mantivesse pétreo incapaz de gesto, vidente destas alucinações enquanto algum dia passasse lá fora e me acenasse um adeus técnico, calculadamente gelado. Quando não mais precisasse de nenhuma emoção, retribuiria o aceno e aguardaria da noite os primeiros bocejos e dormiria em paz, tão tranquilamente que não acordaria para estes dias infiltrados, úmidos, em cuja cabeceira tuas preces revolveriam meus pecados buscando-lhes uma salvação não desejada. Precisaria de um silêncio compacto e de tragadas lentas; gostaria que não me proibissem certos vícios e que me deixassem olhar, de relance que fosse, os trejeitos do teu corpo. Gostaria tanto de tantas coisas indelicadas e indizíveis, coisas como respirar de mais perto os ares de tão longe, viver dias sequer contados no calendário do seu tempo, coisas como sonhar os sonhos de um animal extinto ou acordar nas manhãs de outra civilização. Precisaria desaprender hábitos e enfiar-me de corpo e alma no vício da sua visão, gerar outras estórias e sorrir com dentes novos antigas aspirações; sim, seria tão mais necessário olhá-la por ângulos improváveis só para crê-la menos encantadora e então arrebatar-me esconjurando cada detalhe da tua silhueta. Precisaria tanto decidir-me se eu ou se outro além dessas insinuações, além dos sabores que trago vivos na saliva. Precisaria até encerrar-me em mar alto sob todos os sóis pretendidos pela vida e salgar os olhos com tanta imensidão. Até das saudades levadas em desatino como se acaso destino desta mesma improvisação que é amar-te todos os dias, eu precisaria. Precisaria concessões e finais escritos sob medida; fotografá-la de ímpeto e agressão invadindo teu quarto quando já descartado dizendo-te não as palavras que me inspiras, mas aquelas devidas. Precisaria, ao invés de uma cena qualquer, apenas pedir-te um beijo, e mesmo que eu ficasse pelo caminho, beijar-te simplesmente.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago

“[...] não sei como perceberão as crianças de agora, mas, naquelas épocas remotas, para as infâncias que fomos, o tempo aparecia-nos como feito de uma espécie particular de horas, todas lentas, arrastadas, intermináveis. Tiveram de passar alguns anos para que começássemos a compreender, já sem remédio, que cada uma tinha apenas sessenta minutos, e, mais tarde ainda, teríamos a certeza de que todos estes, sem exceção, acabavam ao fim de sessenta segundos [...]”.
As pequenas memórias (p. 59)


Saramago é um dos maiores escritores de todos os tempos e de qualquer língua. Sua pátria, sua militância, sua vida são os livros que escreveu e os escreveria com a mesma genialidade fosse o seu idioma qualquer outro. Falaria de outras realidades e, muito provavelmente, de outros recantos, mas o faria com a mesma intensidade. Sua pátria escrita é um sem tempo de humanidade.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

TODO RETRATO É O MESMO

...e por ser assim, não espanto as teias vivas e pressinto o tanto de tempo que se aproxima; retratos esmaecidos sob o pó vigilante testemunham a busca e quando tocados impregnam o ambiente não com o mofo, mas com a verdade dos seus traços. Uns sorriem quase piedosos, outros se escondem e procuram as portas, as mesmas que deste lado da vida se mantém entreabertas numa espera de dias e brisas. Quem por aqui deixou seus dizeres e seus gestos ensaiados, fixou-se nas sombras, no jogo de luzes de um lusco-fusco prenhe de invernos desbotados; fixou-se como em um sonho do qual não nos livramos pela manhã, impregnou-se como um adeus que é sempre outro se repetindo no retrato que antes era um sorriso seu. Depois de tudo, ainda uma sonata e uns poucos minutos entre a certeza dos seus olhos mais ou menos castanhos e a leveza dos nossos pecados certamente doces. Depois de tudo, as teias já não se comovem com meus gestos combalidos e escondem nossas passagens secretas, tudo então é distância, solidão e canções do Djavan, tudo é uma questão de burlar as leis da natureza e flutuar pelo sótão como quem procura suas pegadas ou chafurdar na embriaguez dos seus cheiros cheios de mim e de quem mais? Entre todos os retratos que não mais alcanço, o seu é o que mais se insinua, mesmo que dele reste apenas a moldura e os motivos que o arremessem contra a parede, mesmo que dele restem as teias e o tempo exato de contar-lhe a estória.

domingo, 18 de abril de 2010

Promessa

Juro que tu serias minha vida, déjà vu perpetuado por todos os meus poros e instantes e meu instante absoluto, cósmico, um instante diabólico tatuado no plexo, um instante divino em você e na criação, nos cuidados com as plantas, durante minhas expedições lunares ou minhas audições malucas de Creedence Clearwater Revival e mesmo que o desatino do fim da vida me levasse ao espelho e fosse um estranho que me olhasse, mesmo assim este estranho perguntaria de ti, e de ti falaria a noite toda, contaria nossas estórias, lembraria nossas andanças por ruas e becos e matas, nossos pés tão ágeis transpondo o limo das pedras e depois acarinhando um ao outro, e mesmo que de mim já não fizesse a mínima idéia, de ti lembraria todos os detalhes. Hoje e por tantas outras vidas, lembrar de ti não seria nenhuma ave sem rumo, mas uma revoada migrando para teus confins e teus confins estariam certamente brilhando no espelho quando eu me olhasse procurando por ti.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Todos os toques e toda a dor

Há um toque, mas não percebo. Não percebo porque em preto e branco e contra um fundo tão sem cor. Não é preto e branco, mas mesmo assim tão sem cor, desbotado. De tão desbotado me lembrei das tuas faces pela manhã depois de tanta madrugada. Tanta madrugada que o sol que tanto ardeu nos ombros nem parecia mais um sol, mas uma lâmpada sem brilho dessas de corredor de hospital antigo em cujas paredes, invariavelmente, a foto de uma enfermeira diz psiu para quem ainda continua vivo. E vida era tudo o que pedíamos antes de nos olharmos entre cautelosos e penalizados; você ainda com o corte no supercílio, eu ainda menstruada, louca pra chegar em casa e me esquecer debaixo do chuveiro. Sempre penso naquela cena do Hitchcock quando me esqueço no chuveiro. Quando o sangue escorre pelas pernas, então, nem se fala, só falta você aparecer de peruca estilo Norman Bates e faca nas mãos e acho que aí não faltaria mais nada, talvez eu devesse cortar o cabelo como o da atriz, talvez fosse melhor a gente se apressar, esse corte parece feio e pode infeccionar. Sempre que digo coisas assim você ri, você acha que tudo é porque não tem outro jeito, pergunto se tem a ver com destino e você diz que não, diz que tem a ver com as coisas que a gente faz e faz porque escolheu fazer não porque um controlador invisível mexeu os fios. Você diz que deus não existe e se existe você não gosta dele, diz que se existe é um déspota se divertindo com suas marionetes loucas. Estamos juntos há algum tempo. Tempo bastante para que saibamos dos nossos cheiros e sabores em qualquer situação, quer dizer, ainda não senti seu cheiro quando você está com medo, você sente medo, não sente? Todos nós temos medos. Eu tenho medo de barata e de cemitério a noite, também tenho medo de igrejas vazias, descobri outro dia, naquela manhã chuvosa, a gente voltava da balada e resolveu se proteger na igreja, de repente você sumiu e percebi a porta entreaberta, não tinha missa nem nada. Fiquei com medo e voltei pra chuva. Você apareceu e cantou com um resto de voz que eu vinha toda molhada e despenteada, que maravilha que coisa linda, eu o seu amor. Meu irmão tem medo de você e da maioria dos caras que saem comigo, meu pai tinha medo do vizinho, jurava que ele era maluco, ok, eu sei por quem ele era maluco. E você, tem medo do que? Notou que tudo está em preto e branco? Será que estamos sonhando? Eu sonhando com você e você sonhando comigo. Sonhamos juntos o mesmo sonho e nos cansamos tanto que é melhor a gente dar um tempo. Olha só, isso é um toque, agora sei que é. A gente espera clarear de vez e se enfia no primeiro trem. É um toque, tem alguma coisa errada, porra! Acredita. Acabei de descobrir que também tenho medo destes toques do além. Olha lá, aquela menina, que porra uma menininha tão novinha faria a essa hora no meio da rua me olhando e acenando, diz? Você não tem medo? Só pode ser um fantasma, assim sem cor e tão destacada com essas rosas tristes nas mãos e acenando e se aproximando, parece sorrir, mas chora, parece choro, mas é um sorriso tão lindo e tão feio, se aproximando tanto, e tão perto, moço, compra uma rosa prá moça, compra?

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Asas de mariposa

Fui buscá-la pela mão e o sorriso desferido golpeou-me o queixo como um gancho. Acho que tocava uma canção do Djavan e querer do espelho outro movimento que não os dos seus quadris de lá para cá e os braços suspensos na dança iluminada de um almoço adiado seria pedir demais, então pedi sua mão e a beijei. Outro dia, depois de tudo, pedi um café. Você estava de salto alto, quase da minha altura folheando alguma coisa sobre moda. Nem liguei. Havia um ar de descaso no gesto e no olhar caído sobre as páginas. Resolvi fazer poesia, mas não sei escrever poesia na maioria dos dias. Sei escrevê-la aos domingos, dia de festa e maresia, também nas madrugadas de sábado no aconchego das orgias, não sei brindar com vinho tinto nem morar longe demais, não sei rezar então minto e mentindo rezo um pouco, rezo aos santos ocos e barrocos, aos santos da Bahia e do Afeganistão, rezo pelos cotovelos, mas principalmente de solidão. Não sei rimar direito, não conheço palavras bonitas, por isso rimo sem vigor, em geral, às escondidas sob o cobertor, minhas poucas verdades caladas, rimadas de afeto e estupor Não sei escrever poesia, mas sei que nossos encontros se desfazem como asas de mariposa entre os dedos e talvez por isso façamos de conta tanta autossuficiência. Querer outro movimento que não o do seu respirar cauteloso por sob o tecido da manhã, sabendo-a pronta para o banho e depois uma laranjada na varanda, seria condenar-me à prontidão nas esquinas pelas quais você passasse tranquila dizendo coisas tão sensatas quanto efêmeras, tão dissonantes como afiadas. Nestes dias não seríamos flores sem rega e nem um torpor que se inclinasse sobre os mortos buscando-lhes ainda alguma vida. Quem sabe um sopro e nossos corpos acordassem prontos para outro encontro e nossa juventude imprecisa riscasse do calendário nossas marcas de expressão.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

(per)plexo

A porta range e o princípio da noite desfia a cena: jogado na velha poltrona não vejo você, apenas ouço o ranger de tanto tempo e que não significaria nada além de mais um entre tantos miseráveis entrando a cata de alguma porcaria que deixasse seu fim de tarde menos podre e descolorido. Mas é mesmo você; vejo quando você levanta a minha pálpebra direita entrando inteira no meu campo visual perguntando quantas eu havia tomado e se, por um acaso, fazia ideia da semana, dos riscos, das pessoas que se perguntavam onde, como, quando; arrasto-me até o banheiro e noto o quanto o registro do chuveiro é alto, tão alto Everest das minhas águas salvadoras que me deito sob os furinhos pensando que talvez uma dor aguda me eletrocute e recebo na cara um jato gelado avisando-me que tudo aquilo é a mais intensa realidade e que tanta realidade só é possível quando você chega trazendo alguma comida e cigarros comuns. Ouço sua voz dizendo que está separando uma roupa e que a toalha já está sobre o assento do vaso sanitário; empurro a cortina e o mundo parece menos fétido e mais compacto. Sento-me e deixo que a água gelada escorra mais alguns segundos, o bastante para sentir-me outra vez provido de pernas e alguma boa vontade.
(A cena)
Nada tão possível quanto assombrar-se no escuro da cena fechada é mesmo tatear as paredes de um sonho do qual se acorda tantas vezes quanto nos invada. É um vozerio que se trás de fora, através das páginas que folheias como se alguém fosse chegar e interromper, então melhor nem ler, só passar os olhos de mariposa inquieta. Estarei sempre em cena, mesmo que abandonado, sem falas e sem gestos, cenográfico.
Deixo o banheiro nu e atravesso o corredor arrastando a toalha amarela. Fica um rastro molhado que muito a irritaria, mas daquela vez você sorri e diz que a roupa está sobre a cama. Pergunta se estou com fome e rujo. O dia acaba quase lento, há uma dúvida no tempo que não sabe se ajustar, há velocidade num ponto e paralisia no outro e me deixo sorrir pela 1ª vez em muitos dias. Nu, vejo-me no espelho imenso que quase não conseguíamos carregar lá daquela loja de velharias na São João, ele está trincado (já estava quando o compramos e nem assim saiu mais barato) e a trinca provoca uma curva que habitualmente não tenho aqui na altura do plexo, você diz que o plexo solar é um canal para com a divindade e, em geral, gargalho com essa conversa. Mas não hoje. Hoje estou quase vivo outra vez, muito embora não consiga encontrar as roupas, onde elas estão mesmo? Ah, claro aqui em cima da cama; demoro um pouco olhando a cama e talvez por estar nu e você logo ali tão próxima preparando alguma coisa prá comer, penso em quantas vezes te comi nessa cama, e penso que talvez as paredes tenham registrado tudo, áudio e vídeo; paredes têm ouvidos, certamente têm olhos.
(Espelho)
Atravessei-o tantas vezes; uma espécie de Alice pouco contida e nem tão heróica, um ser transfigurado e trespassado das imagens que conspirei quando sorvido pelo abandono da cena. O espelho é mais profundo e sumo sem me refletir.
Ouço o barulho dos pratos e volto da última cena; estou bêbado e não consigo satisfazê-la, você faz de conta que compreende e vai fumar um cigarro junto à janela. Chovia muito daquela vez e você foi embora debaixo de chuva. Visto a roupa e ainda cambaleante chego à cozinha, suco de laranja e omelete. Agradeço e como feito um cavalo. Você pergunta o que acontecera e sorrio dizendo que nenhuma novidade o de sempre, enchi e cara, fumei que nem louco, enchi a cara de novo e posso jurar que estava muito longe de casa, não sei como cheguei aqui. Então você me olha do fundo da sua cena predileta, caminha até a porta, para e vira só a cabeça me mandando para o inferno, depois volta até a sala escolhe algum disco bem antigo dos Stones e o no último volume coloca um blues que me faz chorar como criança. Arrependo-me contra o azul indeciso do céu que se despede e dou de cara com acordes que me rasgam o tal plexo que não me deixa ver a cara de nenhuma divindade e mesmo assim volto até aqui e peço mais uma e desmaio de tanto você, de tanto que você bate a porta sem olhar para trás.
Hoje não. Hoje você me olha de tão perto, mesmo que a sua cena predileta insista em se repetir a nossa frente, hoje você não me detesta durante estes minutos em que você me encontra destruído, hoje você está tão bonita e esta omelete tão cheirosa, talvez eu a coma mais tarde, assim que eu consiga sair daqui, deste lado da porta que range; que range porque a janela está aberta e o vento que já é outro brinca com ela para lá e para cá; que range a noite toda sem que eu consiga sair daqui, do fundo desta velha e confortável poltrona de onde avisto estes monstrengos ávidos por alguma porcaria que os faça compreender a transição da tarde para a noite ou porque estão ali espiando meu corpo nu inerte na poltrona velha. Você não surge entre os mil rostos espantados plantados à minha porta que range. Não me arrasto até o chuveiro. Tão pouco me alimento. Peço um cigarro e que entrem, há lugar para todos, até mesmo prá você caso decida voltar.
(Janela)
Não houve um sequer que não tenha visto tua silhueta em destaque, e depois não me tenha culpado pelo silêncio de todos os outros dias.

domingo, 12 de abril de 2009

Crônica de um naufrágio anunciado

Atrai-me o drama de um adeus no convés; atrai-me mesmo se for às escuras, por sob os cobertores, um adeus contrito, quase prece, soluço de cores piscando na insistência dos olhos abertos dentro da cerração, quase do outro lado quando a manhã violentamente explode com todas as malas prontas e com todas as dúvidas ainda por serem dirimidas, algumas escondidas nas dobras dos lençóis, outras mais robustas afastando os móveis, criando situações desagradáveis, destemperando humores, asfixiando com palavras caladas, apressando os gestos e o elevador. É quando nos esbarrões pelo apartamento descobre-se que não há mais poesia quando nos tocamos, mas uma espécie de pudor epidérmico ressequido em nossos corpos velados, nada mais se revela além da abundância das despedidas em tantas manhãs minimalistas, nas quais um suco de laranja, fatias de pão integral, documentos sobre a peça que você insiste chamar de arca, as chaves do carro sempre no mesmo lugar, tudo exatamente a mão, tão pasteurizado e em comunhão com a mesmice dos sorrisos e dos sabores. Depois, o caos das ruas, o olhar maquinal que atravessa os minutos de um instante até o outro carregando um fotograma desfocado, uma mudez fixa e virtual entre as indecisões de um caminho tão familiar e, no entanto, tão desconhecido. Lembrar ainda, que dali a pouco nos veremos dentro das órbitas alheias transfigurando a mudez em monossílabos aquiescentes e prestações pouco vivas, sim porque tudo voa e se espatifa mais a frente quando nos dizemos adeus assim que nos encontramos nos conveses dessas nossas viagens e desaparições. Tudo me atrai e trai-me tão intensamente que sangro meus sonhos num último beijo antes de deitar, antes que o tempo me converta e eu morra hoje como ontem, acenando do convés de uma embarcação que quando parte já é tão tarde como nunca.

sábado, 21 de março de 2009

Um toque de leitura

Não quero que venhas depressa, mas nas pontas dos pés. Assim, feito bailarina. Quando chegares bem perto, quando enfim assumires as proporções de mulher recortada sobre um fundo disforme, não me furtarei ao toque na tua cintura num pax-de-deux que tanto me agrada e atemoriza. O livrinho que carrego, deixarei para que leias, mas não em momentos de silêncio, leia-o em meio à turba dos lotações, no momento do pênalti desperdiçado ou quando das execuções, leia-o em voz alta aos berros de bezerro desmamado, em meio às brigas de casais, nos terreiros de nossas áfricas domésticas, sob as goteiras das marquises enquanto o ônibus não vem, mas sim, me desculpe, onde estávamos mesmo antes do livrinho que carrego e que gostaria que lesses sem amargura mesmo quando à morte de alguém tão querido, mesmo que os teus homens gozem tão antes de te arrebentares contra a dor incomunicável de um prazer medonho e cego fora da cama, por entre as plantas, contra a porta, escorrendo melancólico feito um adeus. Há também um adeus em cada página do livrinho. Perceberás que são adeuses sem ressalvas, secos e dirigidos às mulheres que me abandonaram antes da minha felicidade provisória, aos idiotas que arvorados na história removeram minhas tripas mais açougueiros que clínicos deixando um vão, um talho daqui até o fim da nossa pouca sorte manquitola escorada em arrimos de pouca salubridade. Se estiveres levitando - minha doce bailarina - saiba que repousarei o livrinho como de costume, naquele banco de jardim (dizem que ali casais mascarados fizeram juras aflitas num carnaval cuja eternidade duraria até as cinzas, depois viriam outras páginas tingidas de uma morte tão natural que escrevê-las seria como esta dança que não canso de desejar). Se não o encontrares é porque alguém desavisado o terá levado junto ao peito, protegendo-o da chuva de projéteis perdidos que se acumulam no céu a espera de passantes sem nomes, mas de nada importará, pois não terá nome além de livro, nem feições além das suas, não terá sequer aspirações além daquelas comuns às páginas viradas, fixadas sobre um fundo de paisagens em movimento.

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