Mostrando postagens com marcador dito efeito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador dito efeito. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 28 de março de 2012

domingo, 19 de fevereiro de 2012

(Deso)lado

(Relatividade - Litografia de M. C. Escher, 1953)

Do outro lado não há um lado como em geral os lados são, quer dizer, não há um padrão, contudo, um lado é sempre um lado e, como tal, é reconhecido por qualquer pessoa, exceto por mim que do lado de cá (e deste lado sinto-me a vontade para por em dúvida a retidão do outro lado) vejo o outro lado mais como um acidente ou uma ausência, uma dor profunda semelhante à nostalgia. O lado que necessariamente não representa aquilo que considero o lado certo, embora seja correto considerar a minha opinião como pouco afeita às simpatias pelos lados, tem por sua vez, outros lados e esta sucessão de lados deixa qualquer um aturdido, mais ainda, deixa qualquer um completamente enlouquecido. Os lados dos lados internos quase sempre tentam o centro, na pior das hipóteses sobrepõem-se aos lados externos o que causa certo furor nas estruturas que permitem a tantos lados a manutenção de alguma lógica. Os lados externos se esforçam para não serem sobrepujados. Inimaginável a existência de um lado sem o outro. Os lados se amparam e mesmo que não o saibam se suportam. Muitas vezes são responsáveis diretos pela sobrevida do outro lado. Sem um lado, o lado deixa de ser aquilo que é e passa a ser alguma coisa entre a realidade de um varal e a necessidade de vigas.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Das muitas razões e de um adormecer

Depois volto para a mesma cena e te ajudo com o sutiã; acendo uma guimba marcada de batom e te ofereço mais uma vodka; espio o tempo pela janela baça e decido que tudo está cinza e perigoso; o chiado do pick-up diz que o disco terminou e que não haverá mais dança; você continua sentada na beira da cama mais confusa que cansada e até acha graça desse fim de mundo; o telefone chama às três da tarde e parece tarde para comprarmos flores e comida chinesa; melhor recomeçar.
Volto para o detalhe daquela cena: ajudá-la com o sutiã que não deixaste cair na hora certa; acender uma bagana melada de batom ao mesmo tempo em que tento pronunciar que tal mais uma Stolichnaya? Olhar a rua pela janela e decidir que não vou sair que prefiro esperar que decidas tirar a roupa e se oferecer lânguida e perfumada; cruzar o quarto devagar e colocar o braço do velho pick-up de volta na faixa At last e fazer fé que ouças os detalhes que só Etta sabe revelar; na revelação dançaremos nus na luz difusa das três da tarde; pedir flores e comida pelo telefone; tu se abres pouco depois. Outra vez, por favor.
A mesma cena. Tento tirar teu sutiã e você não deixa, chegamos até aqui e só me resta uma guimba no cinzeiro; nada de vodka e decido deixá-la bêbada de cachaça com mel, é só ter um pouco de paciência, cruzar o quarto e colocar o disco para tocar desde o início; imagino que sentiremos fome depois de nos amarmos e peço alguma coisa por telefone (flores também, para uma melhor impressão depois). Uma garrafa mais tarde e quase ao fim de tarde você se abre ao mesmo tempo em que adormece. Como sozinho olhando as flores (são vermelhas, brancas e amarelas, desabrochadas). Lá fora está nublado e decido não sair. Acendo a guimba marcada com o teu batom vermelho e puxo o lençol sobre o teu corpo alvo. Ouço a canção mais uma vez.

A música ao fundo...

 
(Post dedicado à Etta James)

domingo, 4 de dezembro de 2011

A vida, um dia

A sorte ao norte derivou sensatez e bocados doces de algodão nos céus
Volvi ao sul, às paginas insertas de sangue nas bancas
(vi que ao fundo, no fundo daquilo que procurei tatear, mas que tão longe me restou olhar como se olham as fotografais, vi que também procuravas por algo, alguma maçã mais vermelha, meias para o inverno, um inferno revoando a queima-roupa, vi que as datas se corrompiam e que não havia mais armários nem guarida, e vi que procuravas aflita a sensatez de um norte - à deriva)
E pedi um jornal de qualquer dia, pois não interessavam as notícias, mas o quanto de tinta, papel e preguiça um do outro guardaríamos.


Foto de Giuseppe Savini encontrada em Illustratus 
 
Agora vejam e ouçam...porque o tempo é um.


domingo, 6 de novembro de 2011

Cores, contornos e outros mundos

Title #0
De ontem, lembro de um chão recortado e dos rastros deixados sem intenção, lembro de alguma precisão em retalhos e caminhos quase desenhados sem ter para aonde ir. De ontem, lembro de uma profundidade cega, um tormento de cavalos à baia e garotos entrincheirados por sob saias frisadas e presenças quase tão frias quanto mortas e mesmo sem demora, a vida parecia um motim levado a cabo nas naus levadas por nossos sexos. De ontem, lembro de um sorriso calado por sob o abajur da sala, uma incipiência pouco abandonada e um minuto de garantias escancaradas. Lembro das canções de Marvin Gaye e quase saberia cantá-las, mas ontem mais saberia já que hoje sou velho demais. Ontem, todos os sonhos tinham cor e se revelavam à cabeceira, traziam corpos de uma doce agonia e manhãs retocadas de sol. Lembro que minhas aventuras tinham tons de ventania e que minhas romarias prescindiam de deus, já que sê-lo era um meio de prosseguir. De ontem também trago cartões das cercanias e ilusões nuas de quem não se vê; de ontem ainda um escuro de cravos, rosas e juras, e outros lados proibidos em cujo frescor habitavam as tardes e as ninfetas e a suspeita de que sob tão pouca vigilância era Janis e não Maria quem nos paria pelas bandas de uma sentença inaudita.
**
Texto originalmente publicado no blog "Muros de vento" em parceria com a ilustradora Vera Basile
...e por falar em Marvin Gaye...


domingo, 11 de setembro de 2011

10, 66...

Haverá um pai para perdoar a quem o tenha ofendido?
E um pai que o perdoe as ofensas?
10
66
Quantos anos depois?

domingo, 28 de agosto de 2011

Onde nascem as almas (?)

Ah! É só o sol que meio jazzístico adormece entrincheirado na profusão de concreto e deixa que o acorde se prolongue entre um remelexo de menina que se aproxima e a distância dos tons pastéis de um tempo mágico no qual não havia despedida. Fecho os olhos para que o ar serpenteie na varanda entre as rendas portuguesas e os lilases das malvas e ouço o outro lado do disco, uma canção que sempre me deixa em suspenso como a uma marionete que insiste em chamar para dançar quem tem olhos de retrós. Mais tarde, pouco depois dos minutos que precedem as almas, adormeço. São elas que nos levam pela aventura do sono e revolvem nossos sonhos como terra pronta para a semeadura. Deixo-me sonhar e reviro-me entranhado, acordo na imensidão do dia, viro o disco e deixo tudo recomeçar.  

domingo, 17 de julho de 2011

Dizeres e um querer dizer

Diga que há uma escada por onde se escape de volta à sensação de um rio que nos carregue; diga que há janelas abertas em corações de festa e farpa e que a franqueza dos gestos acena convites que a alma reconhece; diga que aos poucos divas e comensais aparecerão do nada OU quem sabe saiam dos armários e saltitem por entre as hortaliças como crianças levadas; diga que chove ao mesmo tempo em que nos cumprimentamos e que o vento faz bailar chapéus e lenços até que todos se tenham paramentado um do outro; diga que a confusão é a única brincadeira permitida antes de se lavar as mãos e que o almoço será servido sob as amendoeiras mesmo que aprisionemos um ou outro mago enlouquecido e não nos esqueçamos que é qualquer dia e não há outro jeito senão FAZER AMOR depois das tantas OU mesmo antes já que o vício é bom e nos garante vivos. Diga que ainda carregas no olhar aquela senha que poucos decifram, mas diga antes de olhar, pois não suportaria um olhar vazio; diga que ainda acenas para os bem-te-vis que dormem e sonham num canto depois dos quintais e que quando acordas o que mais desejas é um toque de leve sem pressa que te espreguices demoradamente como se o mundo estivesse em suspenso e todos os olhos, então voltados para o passado, esperassem tu vires ao presente na forma precisa e amada de um desejo em chamas. Diga que o abraço que me escapa me fere de pronto, mas devolve aos olhos tantos dias de amor. Diga que há razões e avenidas que nos tragam de volta, diga que estas distâncias não são poças profundas, mas nunca diga que tudo é descuido, um tombo de cuja profundidade sequer os sonhos consigam escapar.

domingo, 5 de junho de 2011

Geometricamente só

Quero crer na esquina e achá-la parecida com aquele dia só porque fui tão feliz ao vê-la sorrir ali pela primeira vez; nem era dia nem nada, nem escuro, nem claro, só uma esquina que lhe servia de moldura, cenário, fundo, partitura, uma esquina de luz incontida, um quadro de linhas em perspectiva que te levavam e traziam pela mão como se houvesse algum ponto de fuga escondido, uma vontade que resolvesse nossas ações e fizesse das suas e das nossas a pressa, a chuva fina, o tecido da bata tão fino molhado e o encanto dos bicos róseos na rosa tonalidade da esquina. Um altar que talvez reconstruído em outra dimensão só porque o tempo passou tão rápido pela esquina que não tivemos tempo de olhar o desenho que ali deixei, bobagem de quem se surpreende amando tanto mesmo que só um instante, o instante de virar a esquina e olhar-se só, muito embora no desenho um homem e uma mulher se dessem as mãos e resolvessem caminhar um pouco mais além da esquina e da possibilidade quase geométrica de sumirem um do outro.

domingo, 8 de maio de 2011

Passageiros (ou, desaparições e espirais)

Sei que logo depois nos encantaríamos com as ruas abertas às pressas já que os sonhos duram tão pouco e dos destroços assomariam sóis. Também rouxinóis feitos reis viriam e mais um devaneio antes de as luzes arrebentarem a mansidão. Sei que acordaríamos presos ao tempo e sem direito ao torpor de novas guinadas e estórias mal contadas que nos fizessem gargalhar mar adentro em espirais brumosas de baleias, golfos, piratas. Sei de tanta coisa estúpida e de tanta beleza escondida, sei de frases que nunca foram ditas e sei dos caminhos que só fizemos em desejo. Sei que sulcamos as vias com passos de fantasmas e que habitamos a vida, um do outro, como reflexos nos espelhos, como entidades cativas. Sei que as ruas movediças fariam lembrar acordes tão anos oitenta, tão agora e, no entanto, tão dentro de um silêncio quase espesso como o rumo que tomaríamos no bar da esquina. Alguém sempre apareceria como que escorado na estória ao lado e tão desejoso de nos dar as mãos e navegar mais um pouco além do sol, mais além da solidão e da cegueira, alguém que não fugiria de si nem dos outros, mas que perseguiria o mesmo silêncio do qual fugíamos. Sei que uns vêm e outros somem, sei que os vincos no meu rosto se multiplicam na medida em que sonho; sei que o sonho é um sol além dos seus olhos fechados e que seus olhos fechados sonham com ruas abertas às pressas para que possamos passar.

domingo, 10 de abril de 2011

É preciso descobrir se ainda estamos vivos


Hoje espero mais que uma rajada de vento. Espero logo a ventania e aquele mundo que acontece aqui ao lado. Espero que venha tão logo saia do banho, ainda orvalhada e apressada, ainda nua cheirando a alguma artificialidade e com os poros destacadamente à mostra. Talvez eu tenha uma vodka e nos encharquemos enquanto procuramos algum motivo que valha a pena, além do sexo e das conversas que, em geral, só nos levam até o outro dia.
Então sabemos de um mundo possível e projetamos algumas formas e até ensaiamos nossas surpresas para com aqueles que nos espiam ávidos; querem mais e esmurram a porta, querem tão mais que chegamos a ouvir seus corações em tormento. Mas preferimos ignorar e amornar mais um chá e folhear revistas velhas à cata de inspiração ou de uma dúvida que nos faça abrir as janelas e deixar o sol se largar pela sala.


domingo, 27 de março de 2011

Da fluidez ao pó


(A mesma estória sempre. A mesma sucessão de estereótipos. A mesma mesa de cartas marcadas. As mesmas situações. Tantas diferenças)


A vida flui em meio a acontecimentos tão comuns quanto imprevistos, tão densos quanto superficiais. A vida vai da expectativa de que alguém apareça logo ao nascimento (de preferência alguém que traga presentes) até a primeira e avassaladora paixão (é quando morremos pela primeira vez, nem todos, mas a maioria). A vida vai dos natais da infância (sim, porque depois se tornam mais um daqueles encontros obrigatórios nos quais nos comportamos tão bem até que o álcool faça efeito e resolvamos denunciar as mazelas do mundo e a hipocrisia dos presentes) ao primeiro e aterrorizante dia de aula quando somos entregues aos cuidados de um sádico em pele de cordeiro que nunca vimos mais sorridente e ainda esperam que não entremos em pânico; vai da classe cheia de meninos esquisitos à descoberta das meninas ainda mais esquisitas que sem mais nem menos denunciam nossos olhares aos bedéis e algum tempo depois nos arrastam para dentro de um torpor suarento e dolorido; vai do futebol na rua sob sol, chuva e reclamações à constatação de que nossa compleição física é mais indicada para carteados descompromissados; de um presente recebido em um daqueles natais ao primeiro beijo; de uma esperança boba de que a prova nem vai ser tão difícil à descoberta do sexo (e de que as provas, às vezes, são realmente fáceis, mas o sexo nem sempre é possível); vai de uma caminhada com os amigos até a outra rua à primeira balada invadindo a noite desconhecida; vai de uma canção ao redor da fogueira ao silêncio tão desejado depois dos quarenta; do vestibular ao primeiro chefe (não necessariamente nessa ordem); vai das minhas fraldas para as fraldas da minha filha e daí às fraldas do meu neto; vai da primeira demissão à última prestação que nunca chega; das conversas fiadas à dificuldade de fazer um convite ou ao temor de ser mal interpretado quando as mãos descobrem que por sob as roupas outro universo tão mais úmido e misterioso transforma as conversas num silêncio porque indizíveis; vai de uma surpresa física que lhe faz vibrar por inteiro à outras que tanto decepcionam - pés nem tão delicados, dentes nem tão alinhados e, finalmente, rugas, calvas e dores lombares -; vai das opções que a princípio são sugestões ou imposições às concretizações dos ideais que, na verdade, mais se consomem do que se consumam; da mulher à luz, da luz aos primeiros passos, dos primeiros passos aos tombos, gazes e esparadrapos; vai da castidade ao primeiro orgasmo solitário; da prece ao espaço povoado por dragões e românticos astronautas que teimam em afirmar que a terra é azul. A vida vai de muitos lugares para outros tantos e parece não chegar a lugar nenhum; vai da fluidez ao pó como um bólido que se espatifa na reentrada.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Assim, feito uma velha folha em branco

Algumas horas quarando ao sol, só o claro absoluto borrado por todos os lados e sentidos despejado em plena anestesia de sabores e visões. Há uma calmaria fingida ao fundo, uma espécie de torpor que emudece até a alma. Sinto-me atado aos destroços de um fim de semana laqueado, do qual desperto tantas vezes e tantas outras desvaneço. O sol nem é sol, é mais um arremedo sobrenatural amarelecido não de si, mas dos olhos que não o suportam; e o claro nem arrefece ou prostra como é próprio das luzes intensas, ao contrário arrebata, desmemoria toda sorte de quereres, aqueles que nos ferem o coração e o baixo ventre numa sucessão de beijos e arremates, golpes e estocadas, fugas e olhares, olhares impossíveis de sol, sol impossível de festa, pois, precisamente à uma hora dessas toda festa é um princípio de sol borrado por todos os lados.

domingo, 30 de janeiro de 2011

A perdição do seu olhar

Há um olhar perdido que se atira na contramão; é um olhar de longe, de um espaço sem domingos sem feiras e sem amigos, onde não se faz apropriado um aceno nem piscadelas de passagem muito menos que se deseje o corpo de alguém só porque esse alguém também pareça perdido quando enfrenta a espuma do mar e por alguns segundos se lance iemanjá e surja mulher, uma alma tão mais radiante perseguindo outros mares que nos habitam revoltos e investem contra a noite trazendo pesadelos cujas patas se deixam marcadas na poeira ancestral dos móveis, nas camas que só mesmo um gemido alcança quando feito lança perpassa estes corpos aos pés da morte. Mas, não há temor nem rendição, há um clamor de velhas águas noturnas que cochicham junto às guias, por sobre deusas abstratas que no fundo da memória jazem decapitadas. Há um fervor por todas estas águas noturnas que saram nossas pústulas em troca de pequeninos dramas suportáveis. Há um drama em todos os espelhos, por dentro das estórias que não se contam, por entre as contas do terço que não escolhe missa, rindo das anedotas mal contadas, espiando o prazer dos amantes que se banham nas mesmas águas noturnas que para sempre seriam mar não fossem irremediavelmente um jeito perdido de olhar.

terça-feira, 8 de junho de 2010

ENTRELACES

prá você

Quando no meu sonho encontrei as gavetas vazias foi porque no seu sonho você já tinha ido embora levando todas as roupas.

Enquanto desse lado do mundo eu remexia o escuro do quarto buscando alguma lanterna entre as memórias, do seu lado tudo vinha à tona entre espumas de esperança e longos caminhos pedregosos.

A circularidade da vida nos foi carregando cada vez para mais longe, mas nem ela própria foi capaz de perceber que quanto mais longínquo dentro do circulo mais próximos ficávamos. E tão próximos que nossos sonhos se confundiam; sonhávamos os sorrisos um do outro, sonhávamos as dores e os percalços e nem mais sabíamos quem se levantava pela manhã e lavava o rosto num desencontro de visões.

Completos e desiguais temíamos que as noites nos dragassem como restos. Não éramos restos, afinal. Mesmo que não soubéssemos, a cada dia ficávamos mais próximos e tão mais perto que os sonhos passaram a fazer parte do dia já claro, dos afazeres e de uma preguiça intensa que se instalava a cada novo fim de tarde.

Ainda não sabíamos, mas não amanhecíamos mais sozinhos, nem íamos à rua sem que o guarda-chuva de um protegesse da chuva o outro; não havia como atravessar as avenidas sem que não nos déssemos às mãos. E tudo sem fazer ideia de que já íamos tão perto.

Em certas madrugadas vagávamos pela casa um do outro com medo dos sonhos e até nos encontrávamos nos copos de chá morno sem saber que os lábios nas xícaras eram os nossos; sequer pressentíamos as cores do seu batom nas minhas toalhas ou as minhas secreções nos seus lençóis. E cada vez mais próximos.

A água de um banhando o corpo do outro, as colorações dos dias de um chamejando nos gestos do outro e um sem fim de interpenetrações loucas que derrubavam objetos quando não havia nada ou ninguém, mas insistiam em escapulir do sonho e bulir no círculo que continua em si mesmo para uma eternidade de desenhos sobrepostos e, do mesmo modo, bulir a vida, essa sequência de eventos que se adicionam e que se desmancham quando a ausência de um é a falta do outro.

Se na sua realidade o presente é um sonho, saiba que na minha vida o presente foi sempre você, não um presente qualquer que sonhamos depois de meia dúzia de cervejas, mas um presente que se conjuga amando.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Viagem astral

Há um desdobramento que nunca entendo; uma palavra, uma frase que se insinua nua quando visto outras interpretações e lhe cubro de significados tórridos. Sinto mesmo o sabor das frutas que dividimos quando me dizes sobre a partida, sobre a ida para um nunca mais perto de mim e insisto que o sabor é outro, que as maçãs estão maduras e que o pomar é tão aqui, tão próximo do espaço físico sideral que ocupas na minha vida. Vivi só enquanto você viveu em mim e foi tão intenso que deixei um pouco de vida para estes dias de hoje, dias de pomares distantes, dias quentes que não entendo e só faço cumprir.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Os Matizes da Era de Peixes


Quando descubro que todo caminho é atalho e todo corte cicatriz, atino que velocidade e contemplação são traços de um mesmo matiz, risos tímidos, pois advertidos na boca de uma gargalhada ferida, exposição tacanha capaz de esgueirar-se nas sombras de um colo gigantesco que não se diria acorde nem refrão.

Tudo tão pouco fruto e raiz esparzida, tudo folha e secura franzina, véu de posses entrecortadas e juízos de um sempre vazio, tudo é vastidão e princípio, muro e visão por entre os vãos que se destacam ocos por dentro dos olhos loucos que poucos veem como aparição.

Tudo é muito enquanto durmo sonhos de preguiça fluida, enquanto mitigo mistérios ao largo das portas e do coração, tudo tão manhã maná e manha que povoo de mim este recanto de projeções mudas, tudo tão lamento quanto perdição por fora, anavalhada em cena aberta, tudo tão pouca luz que se desfia e desafia o tempo extinguindo-se para sempre e nunca filete translúcido deparando-se só; lanterna abandonada no último instante da criação, na primeira inspiração pisciana quando então tudo é forma e vibração e os vermes principiam nas ventas seus caminhos de redenção e desvario, e tudo é correria e um abrir de cortinas tangendo restos.

Deixo o primeiro dia da sua vida, a primeira manhã da mulher gritar para dentro e acordar essa tola imortalidade. Deixo que tudo germine nos beirais e revoo junto às aves que desenham meus pequenos segredos de ninguém; espio antes as feridas ressequidas de tanto que as crianças brincam nos jardins dos pequenos deuses, aqueles que cantam enquanto criamos as horas e tantas aberrações. Movo-me inquieto e desperto outro alguém que trago em mim, alguém inventado às pressas, forjado no olho mágico que espreita, lê jornais de outro tempo e acena todos os dias como nunca mais.





domingo, 23 de agosto de 2009

O PARAÍSO DE OZIRES

(o paraíso de paredes pichadas amanheceu destroçado)
Em alguns dias e, se bem me recordo, naqueles mais tristes, quase descoloridos, nos quais a imaginação encontra tintas frescas e faz das suas recolorindo paredes e paisagens, agarrava-se a uma frase suspensa e pedia a deus que tudo recomeçasse dando passagem aos desencantos e aos santos de plantão. Não acreditava em deus, mas o imaginava sempre por perto, embora lá fora, caminhando de um lado para o outro, Xangô vigilante. Preferia-o mais próximo e por isso não acreditava nele, já que nunca ao alcance do toque ou das narinas. Quando alguém batia à sua porta, esquecia-se da frase que voava pelo quarto e corria para abrir; olhava o pouco que via, imaginando expressões e, por vezes, ofendia-se; voltava ensimesmado para o fundo do quarto e perguntava se por um acaso não se transformara numa ilusão, num trecho mal escrito de um livro ainda mais medíocre. Dizia que não, que ele estava ali, embora o fundo do quarto lançado numa meia-luz trôpega o deixasse um pouco mais velho e amarelecido, como numa foto antiga, e se não fossem os movimentos lentos a procura da frase solta pelo ar, até que seria mesmo algum enfermo no paraíso recolhido dentro da casa enorme. Sim, porque lá fora, no resto da casa, os cômodos todos pilhavam a si mesmos, as paredes - que sempre tiveram ouvidos – estabeleciam a lei do disse me disse e todos que chegavam eram pegos de surpresa, acossados pelas estórias mais estapafúrdias que portas e janelas pudessem conter e contar. Nessas horas você dizia que por isso deus nunca entrava e porque não entrava não acreditava nele. Na verdade você não gostava dele e gostar ou desgostar implicava diretamente no fato de acreditar; não acreditava, também, em muita gente de carne e osso. Você me convidava à sua meia-luz onde sempre havia um café, um play dos novos baianos ou da Ângela Rô Rô, às vezes, um poema novo que você escrevia em qualquer lugar, gostava daqueles que surgiam como pichações nas paredes úmidas do seu paraíso escuro; lê-los era um desafio porque se misturavam uns aos outros na medida em que você os escrevia sem critério algum, a não ser o de se agarrar à frase que flutuava desatenta buscando o tantinho de janela aberta para então mergulhar lá fora. Não sei se é fato ou imaginação, mas quero lembrar-me de vê-lo feito uma seta voando atrás da frase fugidia, apanhando-a a centímetros da fresta e em seguida arremessando-a, com a tinta mais à mão, contra a parede. Quero lembrá-lo antropofágico gritando sandices em meio aos convites para o almoço que você mesmo prepararia.
Em outros dias mais felizes, deixava-se embriagar da luz que o invadia e não escrevia nada, e não que as frases não voassem mais pelo paraíso, mas porque não tinha forças. Tanta felicidade lhe doía todo e o fazia aparvalhado em meio à fumaça dos muitos cigarros que acendia um no outro. Nestes dias claros sentia-se vampirizado, longe de seu esquife, exposto às gargalhadas que lhe sorriam os parentes. Só nesses dias vinham vê-lo. Vinham vê-lo como se olha um espécime enjaulado. No paraíso, a luz se confundia com a fumaça e de vez quando saltava do fundo com seus olhos de lêmure esbugalhados, ação que fazia tios, irmãos e sobrinhos correrem pelo corredor que mais cedo ou mais tarde daria lá fora, junto a deus e sua vigilância sem princípios. Ele e deus eram assim meio irmãos separados pela fresta do universo que sempre os trazia para dentro da mesma festa, da mesma canção, mas que também os obrigava a fechar um olho e olhar um para o outro como quem olha pelo buraco da fechadura. Às vezes, me olhava assim também, e então eu não sabia se ele me confundia com deus ou se eu o confundia com os poemas pichados nas paredes que agora desabavam em campina aberta e me faziam ajoelhar para beijar tua fronte na lápide onde não tem nada escrito mais bem poderia deixar ler alguma coisa escrita por você há tanto tempo que nem sei quando, mas sei mais ou menos algo como que namorenando sereias helenas embriagado com lindas baianas em tons gerados azuis e vermelhos esferográficos e novamente o paraíso enevoado com nossos sorrisos de amizade surgindo como que num flash ou num passe de mágica.

(para Ozires, um ano além daqui)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

À TERRA DO NUNCA

Fiquei do começo da noite até agora pensando no que escrever...um poema, uma frase de efeito...uma bobagem qualquer que encantasse pelo tom emocionado...até que resolvi escrever o que viesse à telha...
1973, eu tinha onze anos. No rádio, uma canção teimava em me lembrar o quanto eu estava apaixonado...era a minha primeira paixão...avassaladora...a canção Music and me...a garota nunca soube...quem sabe por um destes milagres tecnológicos saiba hoje ou por estes dias o quanto fui apaixonado naqueles dias...agora já não é segredo...36 anos...puxa, parece que foi ainda agora...Lilian era o nome da garota...Michael, o nome do garoto que cantava no rádio, um pouco mais velho, 14 anos...e apesar da pouca idade, o conhecia há tanto tempo...tinha até desenho na TV! Jackson Five...às vezes eu ia à janela do meu quarto, deixava o rádio ligado e esperava a canção...quando tocava, olhava na direção da casa dela e ficava ensaiando as palavras que seriam ditas quando, finalmente, criasse coragem para pedi-la em namoro...nunca pedi...de qualquer forma Music and me foi a canção daqueles dias, dias tão doces...doces como a voz do garoto que cantava no rádio...acho que por isso nunca esqueci...
O garoto foi hoje à terra do nunca...acho que vou à janela...olhar um pouco para aqueles dias...dias tão doces...

Twittando

    follow me on Twitter