domingo, 3 de janeiro de 2010

Os Matizes da Era de Peixes


Quando descubro que todo caminho é atalho e todo corte cicatriz, atino que velocidade e contemplação são traços de um mesmo matiz, risos tímidos, pois advertidos na boca de uma gargalhada ferida, exposição tacanha capaz de esgueirar-se nas sombras de um colo gigantesco que não se diria acorde nem refrão.

Tudo tão pouco fruto e raiz esparzida, tudo folha e secura franzina, véu de posses entrecortadas e juízos de um sempre vazio, tudo é vastidão e princípio, muro e visão por entre os vãos que se destacam ocos por dentro dos olhos loucos que poucos veem como aparição.

Tudo é muito enquanto durmo sonhos de preguiça fluida, enquanto mitigo mistérios ao largo das portas e do coração, tudo tão manhã maná e manha que povoo de mim este recanto de projeções mudas, tudo tão lamento quanto perdição por fora, anavalhada em cena aberta, tudo tão pouca luz que se desfia e desafia o tempo extinguindo-se para sempre e nunca filete translúcido deparando-se só; lanterna abandonada no último instante da criação, na primeira inspiração pisciana quando então tudo é forma e vibração e os vermes principiam nas ventas seus caminhos de redenção e desvario, e tudo é correria e um abrir de cortinas tangendo restos.

Deixo o primeiro dia da sua vida, a primeira manhã da mulher gritar para dentro e acordar essa tola imortalidade. Deixo que tudo germine nos beirais e revoo junto às aves que desenham meus pequenos segredos de ninguém; espio antes as feridas ressequidas de tanto que as crianças brincam nos jardins dos pequenos deuses, aqueles que cantam enquanto criamos as horas e tantas aberrações. Movo-me inquieto e desperto outro alguém que trago em mim, alguém inventado às pressas, forjado no olho mágico que espreita, lê jornais de outro tempo e acena todos os dias como nunca mais.





domingo, 29 de novembro de 2009

Outra bárbara natureza


Enquanto dormes fico de um lado para o outro esperando que amanheça como de tantas outras vezes (amanheceria sem que ao menos um ruído fosse destacado do fundo sonoro de pássaros madrugadores ou mesmo que outra bárbara natureza se derramasse sobre tudo) e que saias, finalmente, as sete em ponto desafiando interlocutores BÁRBAROS. Fico cuidando da casa, de cada poro sobre o tecido do tempo, cada corte mais brusco de uma cena para outra, cada falha na pintura dos rostos que vivem nos espelhos trincados, cada grão de poeira, cada nova caricatura pelo buraco da fechadura, cada novo sentido que me faça um pouco mais fechado à vizinhança. Dormir é algo que não sei mais, então leio as notícias e te mando e-mails o dia inteiro, almoço só com as minhas circunstâncias e torno à portinhola para olhar a rua e seus MISTÉRIOS. Dentro de um deles tu inspiras homens e mulheres e só tu excitas assim os transeuntes apressados, de repente bárbaros e indóceis aos tropeções buscando ávidos teu rebolado SOB A GAROA, teus passos apressados ritmando cristos redentores e consolações congestionadas. Tudo tão misterioso no espaço compacto da portinhola que prefiro folhear os magazines retrôs enquanto no metro tu despencas por profundidades febris e enfrentas monstros repugnantes, reis torneados em ouro e diamantes, amantes brutais que te despem solitários e tremelicam corpanzis pouco asseados. Quando regressas, surges sorrindo com a rua por detrás e perguntas o que fiz aquele tempo todo de batalhas insanas, digo das encomendas e de um som agudíssimo que ouço quase sempre entre um sonho e um gole de gim, justamente quando apareces com a silhueta recortada por um poente do outro lado da rua que se estampa em meus olhos feito poemas de um amor piegas e doloroso. Quando tu regressas, o que em torno do mundo se consagra são estrelas de outra natureza diferente dos deuses e das dúvidas, estrelas que não cobram companhia. Quando não dormes usa-me até a exaustão me deixando para depois quando ronronas meu nome e dá sentido à vida e à minha ida por entre as estrelas que descreveste um dia como brilhantes suspensos, uma metáfora dos próprios olhos pousados sobre as luzes da cidade bárbara, refletidos para sempre na manhã que por cima de si puxa as cobertas cinzas.

domingo, 25 de outubro de 2009

O silêncio da deserção


Até onde sei calei-me não de um silêncio convicto, mas de um vazio de olhares, calei-me da ausência de verbos irregulares que pudéssemos conjugar sem pressa numa única pessoa enquanto os festejos perseguissem as horas. Calei-me de marés altas e da fartura as tantas, calei-me de conveses abandonados e porões inda mergulhados na tinta fresca da memória. Calei-me de silêncios entrincheirados argutos acompanhando-me os passos, e calei-me das aventuras impróprias que adormeciam antes que eu retornasse dos caminhos incorpóreos do sonho. Calei-me das agressões que me lamberam as faces e me atiraram aos leões, calei-me dos milagres viciados nas esquinas, das aparições paridas no cortejo fumegante dos cafés, calei-me para ver-te dançar, requebrar-se cabrocha, contorcer-se odalisca, misturar-se aos sons inaudíveis da extrema-unção. Calei-me das terminologias, das aliterações, calei-me das dormências e dos sacrifícios, calei-me de calores incontidos e dos bons modos e quando arremessado contra a turba calei-me num voo cego. Até onde sei, procurei nas fechaduras, ranhuras, brechas, portas entreabertas calar-me mais do que pensei e apenas ressenti o mal dos carinhos noturnos. Calei-me amanhecendo com as fuças ainda cheias de sua genitália, calei-me no corte da navalha e na lavanda das prostitutas, e calei-me destas cruezas abstratas que desenham seres pavorosos nos noticiários e incensam as poucas verdades veladas atrás das portas. Calei-me dos trovões e dos ruídos que desciam as escadas na ponta dos pés; bailarinos meninos escondidos vizinhos deitados ao meu lado. Calei-me destas cerrações que nos fazem sombras dentro das espirais de um mundo em movimento, e calei-me destes mesmos movimentos puxando todas as gavetas de um caminho de pedras e fragmentos e vísceras e autores catalogados no silêncio das bibliotecas. Calei-me das especiarias e sob o cutelo dos magos calei-me por definição e muito mais do que pensei.

domingo, 27 de setembro de 2009

Versos para o fim do mundo



(creio em ti e no fim do mundo; creio mais no frescor da sua pele e na redenção que encontro entre as suas pernas; creio nas palavras que se calam quando nos agarramos exaustos e tudo se acaba por alguns minutos)

I
Remoo versos entre os dentes
Sementes que viciam chãos
Versos que cuspo entrincheirado
Na lonjura aflita da solidão

II
Pequenas orgias mastigadas
Na estonteante vastidão das manhãs
Ninfas castas adoradas
Labiríntica Ariadne, bárbara Iansã

III
Versos que se confluem melancólicos
Que tanto cantam a loucura dos amores
Caprichosos gestos alegóricos
Versos que enraízam em vida suas dores

IV
As virgens então se contraem
Furtadas do gozo da aparição
Trespassam-se infelizes e se traem
Soltas num fim de mundo que viceja orvalho
Para muito além das trilhas e atalhos
Para muito além de qualquer conspiração.

domingo, 23 de agosto de 2009

O PARAÍSO DE OZIRES

(o paraíso de paredes pichadas amanheceu destroçado)
Em alguns dias e, se bem me recordo, naqueles mais tristes, quase descoloridos, nos quais a imaginação encontra tintas frescas e faz das suas recolorindo paredes e paisagens, agarrava-se a uma frase suspensa e pedia a deus que tudo recomeçasse dando passagem aos desencantos e aos santos de plantão. Não acreditava em deus, mas o imaginava sempre por perto, embora lá fora, caminhando de um lado para o outro, Xangô vigilante. Preferia-o mais próximo e por isso não acreditava nele, já que nunca ao alcance do toque ou das narinas. Quando alguém batia à sua porta, esquecia-se da frase que voava pelo quarto e corria para abrir; olhava o pouco que via, imaginando expressões e, por vezes, ofendia-se; voltava ensimesmado para o fundo do quarto e perguntava se por um acaso não se transformara numa ilusão, num trecho mal escrito de um livro ainda mais medíocre. Dizia que não, que ele estava ali, embora o fundo do quarto lançado numa meia-luz trôpega o deixasse um pouco mais velho e amarelecido, como numa foto antiga, e se não fossem os movimentos lentos a procura da frase solta pelo ar, até que seria mesmo algum enfermo no paraíso recolhido dentro da casa enorme. Sim, porque lá fora, no resto da casa, os cômodos todos pilhavam a si mesmos, as paredes - que sempre tiveram ouvidos – estabeleciam a lei do disse me disse e todos que chegavam eram pegos de surpresa, acossados pelas estórias mais estapafúrdias que portas e janelas pudessem conter e contar. Nessas horas você dizia que por isso deus nunca entrava e porque não entrava não acreditava nele. Na verdade você não gostava dele e gostar ou desgostar implicava diretamente no fato de acreditar; não acreditava, também, em muita gente de carne e osso. Você me convidava à sua meia-luz onde sempre havia um café, um play dos novos baianos ou da Ângela Rô Rô, às vezes, um poema novo que você escrevia em qualquer lugar, gostava daqueles que surgiam como pichações nas paredes úmidas do seu paraíso escuro; lê-los era um desafio porque se misturavam uns aos outros na medida em que você os escrevia sem critério algum, a não ser o de se agarrar à frase que flutuava desatenta buscando o tantinho de janela aberta para então mergulhar lá fora. Não sei se é fato ou imaginação, mas quero lembrar-me de vê-lo feito uma seta voando atrás da frase fugidia, apanhando-a a centímetros da fresta e em seguida arremessando-a, com a tinta mais à mão, contra a parede. Quero lembrá-lo antropofágico gritando sandices em meio aos convites para o almoço que você mesmo prepararia.
Em outros dias mais felizes, deixava-se embriagar da luz que o invadia e não escrevia nada, e não que as frases não voassem mais pelo paraíso, mas porque não tinha forças. Tanta felicidade lhe doía todo e o fazia aparvalhado em meio à fumaça dos muitos cigarros que acendia um no outro. Nestes dias claros sentia-se vampirizado, longe de seu esquife, exposto às gargalhadas que lhe sorriam os parentes. Só nesses dias vinham vê-lo. Vinham vê-lo como se olha um espécime enjaulado. No paraíso, a luz se confundia com a fumaça e de vez quando saltava do fundo com seus olhos de lêmure esbugalhados, ação que fazia tios, irmãos e sobrinhos correrem pelo corredor que mais cedo ou mais tarde daria lá fora, junto a deus e sua vigilância sem princípios. Ele e deus eram assim meio irmãos separados pela fresta do universo que sempre os trazia para dentro da mesma festa, da mesma canção, mas que também os obrigava a fechar um olho e olhar um para o outro como quem olha pelo buraco da fechadura. Às vezes, me olhava assim também, e então eu não sabia se ele me confundia com deus ou se eu o confundia com os poemas pichados nas paredes que agora desabavam em campina aberta e me faziam ajoelhar para beijar tua fronte na lápide onde não tem nada escrito mais bem poderia deixar ler alguma coisa escrita por você há tanto tempo que nem sei quando, mas sei mais ou menos algo como que namorenando sereias helenas embriagado com lindas baianas em tons gerados azuis e vermelhos esferográficos e novamente o paraíso enevoado com nossos sorrisos de amizade surgindo como que num flash ou num passe de mágica.

(para Ozires, um ano além daqui)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Asas de mariposa

Fui buscá-la pela mão e o sorriso desferido golpeou-me o queixo como um gancho. Acho que tocava uma canção do Djavan e querer do espelho outro movimento que não os dos seus quadris de lá para cá e os braços suspensos na dança iluminada de um almoço adiado seria pedir demais, então pedi sua mão e a beijei. Outro dia, depois de tudo, pedi um café. Você estava de salto alto, quase da minha altura folheando alguma coisa sobre moda. Nem liguei. Havia um ar de descaso no gesto e no olhar caído sobre as páginas. Resolvi fazer poesia, mas não sei escrever poesia na maioria dos dias. Sei escrevê-la aos domingos, dia de festa e maresia, também nas madrugadas de sábado no aconchego das orgias, não sei brindar com vinho tinto nem morar longe demais, não sei rezar então minto e mentindo rezo um pouco, rezo aos santos ocos e barrocos, aos santos da Bahia e do Afeganistão, rezo pelos cotovelos, mas principalmente de solidão. Não sei rimar direito, não conheço palavras bonitas, por isso rimo sem vigor, em geral, às escondidas sob o cobertor, minhas poucas verdades caladas, rimadas de afeto e estupor Não sei escrever poesia, mas sei que nossos encontros se desfazem como asas de mariposa entre os dedos e talvez por isso façamos de conta tanta autossuficiência. Querer outro movimento que não o do seu respirar cauteloso por sob o tecido da manhã, sabendo-a pronta para o banho e depois uma laranjada na varanda, seria condenar-me à prontidão nas esquinas pelas quais você passasse tranquila dizendo coisas tão sensatas quanto efêmeras, tão dissonantes como afiadas. Nestes dias não seríamos flores sem rega e nem um torpor que se inclinasse sobre os mortos buscando-lhes ainda alguma vida. Quem sabe um sopro e nossos corpos acordassem prontos para outro encontro e nossa juventude imprecisa riscasse do calendário nossas marcas de expressão.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Depois daquela cena (take 1)


Tão pouco do abraço fica contra a luz das vitrines, tão pouco da gente nos carros que voando passam sem sentir o que imaginamos depois das portas abertas e da cena mal dirigida. Você atenta e nem aí para o meu amor, eu nem aí para o seu corte de cabelo meio punk e uma tatuagem estranha logo de cara no antebraço. Depois um sanduíche, novos diálogos (tão antigos) escritos ainda ontem, coca-cola que é sempre como sentir-se vivo em qualquer parte do mundo, mesmo tendo essa cor tão preta, parece piche[1], mesmo que não voltemos à cena, que nos percamos em pequenos fragmentos de estrelas e então uma porção de fritas agora que é quase noite e uma cerveja já não faz diferença, mas também não nos aproxima mais que um copo e mais outro noite adentro discutindo as melhores tomadas, e pouco depois já dia clareando por sobre os ombros é que te vejo tão bonita noite em claro e te abraço desejando bom dia pensando que talvez as vitrines retenham o reflexo da minha paixão. Desço a rua triste cansado moro perto ando a pé você tão longe manobra ré primeira segunda e some à direita tão na minha CONTRAMÃO.
Você pode até imaginar que eu suma na cadência de um samba inspirado, mas nem inspiração, tão pouco cadência no sumiço que tomo depois de nem me despedir. Saio à francesa deixando no ar a fragrância das minhas dúvidas e um pouco das incertezas que bebi em diferentes copos. O samba vem de um ponto qualquer da cidade, uma calçada de gente que nem se olha, mas que samba; samba e também some sem aviso-prévio entre os prédios e os carros que voando passam sem sentir nenhuma dor, sem perceberem que sigo sozinho ao contrário de tudo para onde vou.
[1] Alusão a um verso do poema Mural 79 de Edson Eugênio dos Santos

terça-feira, 7 de julho de 2009

O VOO DO ANJO SEM COR

Navegas só agora pedra e
Afundas num céu de sorrisos bobos
Arlequins que não se tocam anjos
Nem sonhos que se deixam tocar
Não és mais o eu nesse instante
Quem vive ou se confunde gente
És um ser habitado na passagem
De um agora para outro adiante
Quem habita não se sabe habitante
Quem fica não se percebe ausente
A pedra que voas edifica
Alguém num espaço de vazios
O que se edifica é nada
Mas tudo pleno e perfeito
Um plano que aterrissa sereno
Mesmo que sem muito jeito
No meio de um todo de pó
Regressas de tantas partidas
E partes de uma vida só.
(para Michael)

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