Até onde sei calei-me não de um silêncio convicto, mas de um vazio de olhares, calei-me da ausência de verbos irregulares que pudéssemos conjugar sem pressa numa única pessoa enquanto os festejos perseguissem as horas. Calei-me de marés altas e da fartura as tantas, calei-me de conveses abandonados e porões inda mergulhados na tinta fresca da memória. Calei-me de silêncios entrincheirados argutos acompanhando-me os passos, e calei-me das aventuras impróprias que adormeciam antes que eu retornasse dos caminhos incorpóreos do sonho. Calei-me das agressões que me lamberam as faces e me atiraram aos leões, calei-me dos milagres viciados nas esquinas, das aparições paridas no cortejo fumegante dos cafés, calei-me para ver-te dançar, requebrar-se cabrocha, contorcer-se odalisca, misturar-se aos sons inaudíveis da extrema-unção. Calei-me das terminologias, das aliterações, calei-me das dormências e dos sacrifícios, calei-me de calores incontidos e dos bons modos e quando arremessado contra a turba calei-me num voo cego. Até onde sei, procurei nas fechaduras, ranhuras, brechas, portas entreabertas calar-me mais do que pensei e apenas ressenti o mal dos carinhos noturnos. Calei-me amanhecendo com as fuças ainda cheias de sua genitália, calei-me no corte da navalha e na lavanda das prostitutas, e calei-me destas cruezas abstratas que desenham seres pavorosos nos noticiários e incensam as poucas verdades veladas atrás das portas. Calei-me dos trovões e dos ruídos que desciam as escadas na ponta dos pés; bailarinos meninos escondidos vizinhos deitados ao meu lado. Calei-me destas cerrações que nos fazem sombras dentro das espirais de um mundo em movimento, e calei-me destes mesmos movimentos puxando todas as gavetas de um caminho de pedras e fragmentos e vísceras e autores catalogados no silêncio das bibliotecas. Calei-me das especiarias e sob o cutelo dos magos calei-me por definição e muito mais do que pensei.
domingo, 25 de outubro de 2009
domingo, 27 de setembro de 2009
Versos para o fim do mundo
(creio em ti e no fim do mundo; creio mais no frescor da sua pele e na redenção que encontro entre as suas pernas; creio nas palavras que se calam quando nos agarramos exaustos e tudo se acaba por alguns minutos)
I
Remoo versos entre os dentes
Sementes que viciam chãos
Versos que cuspo entrincheirado
Na lonjura aflita da solidão
II
Pequenas orgias mastigadas
Na estonteante vastidão das manhãs
Ninfas castas adoradas
Labiríntica Ariadne, bárbara Iansã
III
Versos que se confluem melancólicos
Que tanto cantam a loucura dos amores
Caprichosos gestos alegóricos
Versos que enraízam em vida suas dores
IV
As virgens então se contraem
Furtadas do gozo da aparição
Trespassam-se infelizes e se traem
Soltas num fim de mundo que viceja orvalho
Para muito além das trilhas e atalhos
Para muito além de qualquer conspiração.
domingo, 23 de agosto de 2009
O PARAÍSO DE OZIRES
(o paraíso de paredes pichadas amanheceu destroçado)
Em alguns dias e, se bem me recordo, naqueles mais tristes, quase descoloridos, nos quais a imaginação encontra tintas frescas e faz das suas recolorindo paredes e paisagens, agarrava-se a uma frase suspensa e pedia a deus que tudo recomeçasse dando passagem aos desencantos e aos santos de plantão. Não acreditava em deus, mas o imaginava sempre por perto, embora lá fora, caminhando de um lado para o outro, Xangô vigilante. Preferia-o mais próximo e por isso não acreditava nele, já que nunca ao alcance do toque ou das narinas. Quando alguém batia à sua porta, esquecia-se da frase que voava pelo quarto e corria para abrir; olhava o pouco que via, imaginando expressões e, por vezes, ofendia-se; voltava ensimesmado para o fundo do quarto e perguntava se por um acaso não se transformara numa ilusão, num trecho mal escrito de um livro ainda mais medíocre. Dizia que não, que ele estava ali, embora o fundo do quarto lançado numa meia-luz trôpega o deixasse um pouco mais velho e amarelecido, como numa foto antiga, e se não fossem os movimentos lentos a procura da frase solta pelo ar, até que seria mesmo algum enfermo no paraíso recolhido dentro da casa enorme. Sim, porque lá fora, no resto da casa, os cômodos todos pilhavam a si mesmos, as paredes - que sempre tiveram ouvidos – estabeleciam a lei do disse me disse e todos que chegavam eram pegos de surpresa, acossados pelas estórias mais estapafúrdias que portas e janelas pudessem conter e contar. Nessas horas você dizia que por isso deus nunca entrava e porque não entrava não acreditava nele. Na verdade você não gostava dele e gostar ou desgostar implicava diretamente no fato de acreditar; não acreditava, também, em muita gente de carne e osso. Você me convidava à sua meia-luz onde sempre havia um café, um play dos novos baianos ou da Ângela Rô Rô, às vezes, um poema novo que você escrevia em qualquer lugar, gostava daqueles que surgiam como pichações nas paredes úmidas do seu paraíso escuro; lê-los era um desafio porque se misturavam uns aos outros na medida em que você os escrevia sem critério algum, a não ser o de se agarrar à frase que flutuava desatenta buscando o tantinho de janela aberta para então mergulhar lá fora. Não sei se é fato ou imaginação, mas quero lembrar-me de vê-lo feito uma seta voando atrás da frase fugidia, apanhando-a a centímetros da fresta e em seguida arremessando-a, com a tinta mais à mão, contra a parede. Quero lembrá-lo antropofágico gritando sandices em meio aos convites para o almoço que você mesmo prepararia.
Em outros dias mais felizes, deixava-se embriagar da luz que o invadia e não escrevia nada, e não que as frases não voassem mais pelo paraíso, mas porque não tinha forças. Tanta felicidade lhe doía todo e o fazia aparvalhado em meio à fumaça dos muitos cigarros que acendia um no outro. Nestes dias claros sentia-se vampirizado, longe de seu esquife, exposto às gargalhadas que lhe sorriam os parentes. Só nesses dias vinham vê-lo. Vinham vê-lo como se olha um espécime enjaulado. No paraíso, a luz se confundia com a fumaça e de vez quando saltava do fundo com seus olhos de lêmure esbugalhados, ação que fazia tios, irmãos e sobrinhos correrem pelo corredor que mais cedo ou mais tarde daria lá fora, junto a deus e sua vigilância sem princípios. Ele e deus eram assim meio irmãos separados pela fresta do universo que sempre os trazia para dentro da mesma festa, da mesma canção, mas que também os obrigava a fechar um olho e olhar um para o outro como quem olha pelo buraco da fechadura. Às vezes, me olhava assim também, e então eu não sabia se ele me confundia com deus ou se eu o confundia com os poemas pichados nas paredes que agora desabavam em campina aberta e me faziam ajoelhar para beijar tua fronte na lápide onde não tem nada escrito mais bem poderia deixar ler alguma coisa escrita por você há tanto tempo que nem sei quando, mas sei mais ou menos algo como que namorenando sereias helenas embriagado com lindas baianas em tons gerados azuis e vermelhos esferográficos e novamente o paraíso enevoado com nossos sorrisos de amizade surgindo como que num flash ou num passe de mágica.
(para Ozires, um ano além daqui)
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Asas de mariposa
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Depois daquela cena (take 1)
Tão pouco do abraço fica contra a luz das vitrines, tão pouco da gente nos carros que voando passam sem sentir o que imaginamos depois das portas abertas e da cena mal dirigida. Você atenta e nem aí para o meu amor, eu nem aí para o seu corte de cabelo meio punk e uma tatuagem estranha logo de cara no antebraço. Depois um sanduíche, novos diálogos (tão antigos) escritos ainda ontem, coca-cola que é sempre como sentir-se vivo em qualquer parte do mundo, mesmo tendo essa cor tão preta, parece piche[1], mesmo que não voltemos à cena, que nos percamos em pequenos fragmentos de estrelas e então uma porção de fritas agora que é quase noite e uma cerveja já não faz diferença, mas também não nos aproxima mais que um copo e mais outro noite adentro discutindo as melhores tomadas, e pouco depois já dia clareando por sobre os ombros é que te vejo tão bonita noite em claro e te abraço desejando bom dia pensando que talvez as vitrines retenham o reflexo da minha paixão. Desço a rua triste cansado moro perto ando a pé você tão longe manobra ré primeira segunda e some à direita tão na minha CONTRAMÃO.
Você pode até imaginar que eu suma na cadência de um samba inspirado, mas nem inspiração, tão pouco cadência no sumiço que tomo depois de nem me despedir. Saio à francesa deixando no ar a fragrância das minhas dúvidas e um pouco das incertezas que bebi em diferentes copos. O samba vem de um ponto qualquer da cidade, uma calçada de gente que nem se olha, mas que samba; samba e também some sem aviso-prévio entre os prédios e os carros que voando passam sem sentir nenhuma dor, sem perceberem que sigo sozinho ao contrário de tudo para onde vou. [1] Alusão a um verso do poema Mural 79 de Edson Eugênio dos Santos
terça-feira, 7 de julho de 2009
O VOO DO ANJO SEM COR
Navegas só agora pedra e
Afundas num céu de sorrisos bobos
Arlequins que não se tocam anjos
Nem sonhos que se deixam tocar
Não és mais o eu nesse instante
Quem vive ou se confunde gente
És um ser habitado na passagem
De um agora para outro adiante
Quem habita não se sabe habitante
Quem fica não se percebe ausente
A pedra que voas edifica
Alguém num espaço de vazios
O que se edifica é nada
Mas tudo pleno e perfeito
Um plano que aterrissa sereno
Mesmo que sem muito jeito
No meio de um todo de pó
Regressas de tantas partidas
E partes de uma vida só.
(para Michael)
quinta-feira, 25 de junho de 2009
À TERRA DO NUNCA
Fiquei do começo da noite até agora pensando no que escrever...um poema, uma frase de efeito...uma bobagem qualquer que encantasse pelo tom emocionado...até que resolvi escrever o que viesse à telha...
1973, eu tinha onze anos. No rádio, uma canção teimava em me lembrar o quanto eu estava apaixonado...era a minha primeira paixão...avassaladora...a canção Music and me...a garota nunca soube...quem sabe por um destes milagres tecnológicos saiba hoje ou por estes dias o quanto fui apaixonado naqueles dias...agora já não é segredo...36 anos...puxa, parece que foi ainda agora...Lilian era o nome da garota...Michael, o nome do garoto que cantava no rádio, um pouco mais velho, 14 anos...e apesar da pouca idade, o conhecia há tanto tempo...tinha até desenho na TV! Jackson Five...às vezes eu ia à janela do meu quarto, deixava o rádio ligado e esperava a canção...quando tocava, olhava na direção da casa dela e ficava ensaiando as palavras que seriam ditas quando, finalmente, criasse coragem para pedi-la em namoro...nunca pedi...de qualquer forma Music and me foi a canção daqueles dias, dias tão doces...doces como a voz do garoto que cantava no rádio...acho que por isso nunca esqueci...
O garoto foi hoje à terra do nunca...acho que vou à janela...olhar um pouco para aqueles dias...dias tão doces...
quarta-feira, 17 de junho de 2009
(per)plexo
A porta range e o princípio da noite desfia a cena: jogado na velha poltrona não vejo você, apenas ouço o ranger de tanto tempo e que não significaria nada além de mais um entre tantos miseráveis entrando a cata de alguma porcaria que deixasse seu fim de tarde menos podre e descolorido. Mas é mesmo você; vejo quando você levanta a minha pálpebra direita entrando inteira no meu campo visual perguntando quantas eu havia tomado e se, por um acaso, fazia ideia da semana, dos riscos, das pessoas que se perguntavam onde, como, quando; arrasto-me até o banheiro e noto o quanto o registro do chuveiro é alto, tão alto Everest das minhas águas salvadoras que me deito sob os furinhos pensando que talvez uma dor aguda me eletrocute e recebo na cara um jato gelado avisando-me que tudo aquilo é a mais intensa realidade e que tanta realidade só é possível quando você chega trazendo alguma comida e cigarros comuns. Ouço sua voz dizendo que está separando uma roupa e que a toalha já está sobre o assento do vaso sanitário; empurro a cortina e o mundo parece menos fétido e mais compacto. Sento-me e deixo que a água gelada escorra mais alguns segundos, o bastante para sentir-me outra vez provido de pernas e alguma boa vontade.
(A cena)
Nada tão possível quanto assombrar-se no escuro da cena fechada é mesmo tatear as paredes de um sonho do qual se acorda tantas vezes quanto nos invada. É um vozerio que se trás de fora, através das páginas que folheias como se alguém fosse chegar e interromper, então melhor nem ler, só passar os olhos de mariposa inquieta. Estarei sempre em cena, mesmo que abandonado, sem falas e sem gestos, cenográfico.
Deixo o banheiro nu e atravesso o corredor arrastando a toalha amarela. Fica um rastro molhado que muito a irritaria, mas daquela vez você sorri e diz que a roupa está sobre a cama. Pergunta se estou com fome e rujo. O dia acaba quase lento, há uma dúvida no tempo que não sabe se ajustar, há velocidade num ponto e paralisia no outro e me deixo sorrir pela 1ª vez em muitos dias. Nu, vejo-me no espelho imenso que quase não conseguíamos carregar lá daquela loja de velharias na São João, ele está trincado (já estava quando o compramos e nem assim saiu mais barato) e a trinca provoca uma curva que habitualmente não tenho aqui na altura do plexo, você diz que o plexo solar é um canal para com a divindade e, em geral, gargalho com essa conversa. Mas não hoje. Hoje estou quase vivo outra vez, muito embora não consiga encontrar as roupas, onde elas estão mesmo? Ah, claro aqui em cima da cama; demoro um pouco olhando a cama e talvez por estar nu e você logo ali tão próxima preparando alguma coisa prá comer, penso em quantas vezes te comi nessa cama, e penso que talvez as paredes tenham registrado tudo, áudio e vídeo; paredes têm ouvidos, certamente têm olhos.
(Espelho)
Atravessei-o tantas vezes; uma espécie de Alice pouco contida e nem tão heróica, um ser transfigurado e trespassado das imagens que conspirei quando sorvido pelo abandono da cena. O espelho é mais profundo e sumo sem me refletir.
Ouço o barulho dos pratos e volto da última cena; estou bêbado e não consigo satisfazê-la, você faz de conta que compreende e vai fumar um cigarro junto à janela. Chovia muito daquela vez e você foi embora debaixo de chuva. Visto a roupa e ainda cambaleante chego à cozinha, suco de laranja e omelete. Agradeço e como feito um cavalo. Você pergunta o que acontecera e sorrio dizendo que nenhuma novidade o de sempre, enchi e cara, fumei que nem louco, enchi a cara de novo e posso jurar que estava muito longe de casa, não sei como cheguei aqui. Então você me olha do fundo da sua cena predileta, caminha até a porta, para e vira só a cabeça me mandando para o inferno, depois volta até a sala escolhe algum disco bem antigo dos Stones e o no último volume coloca um blues que me faz chorar como criança. Arrependo-me contra o azul indeciso do céu que se despede e dou de cara com acordes que me rasgam o tal plexo que não me deixa ver a cara de nenhuma divindade e mesmo assim volto até aqui e peço mais uma e desmaio de tanto você, de tanto que você bate a porta sem olhar para trás.
Hoje não. Hoje você me olha de tão perto, mesmo que a sua cena predileta insista em se repetir a nossa frente, hoje você não me detesta durante estes minutos em que você me encontra destruído, hoje você está tão bonita e esta omelete tão cheirosa, talvez eu a coma mais tarde, assim que eu consiga sair daqui, deste lado da porta que range; que range porque a janela está aberta e o vento que já é outro brinca com ela para lá e para cá; que range a noite toda sem que eu consiga sair daqui, do fundo desta velha e confortável poltrona de onde avisto estes monstrengos ávidos por alguma porcaria que os faça compreender a transição da tarde para a noite ou porque estão ali espiando meu corpo nu inerte na poltrona velha. Você não surge entre os mil rostos espantados plantados à minha porta que range. Não me arrasto até o chuveiro. Tão pouco me alimento. Peço um cigarro e que entrem, há lugar para todos, até mesmo prá você caso decida voltar.
(Janela)
Não houve um sequer que não tenha visto tua silhueta em destaque, e depois não me tenha culpado pelo silêncio de todos os outros dias.
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