domingo, 23 de novembro de 2008

Prêmio Dardos


A Trama Bacana, ganhou o Prêmio Dardos por indicação de Beatriz Bajo, moça prendada, talentosa, bonita e sensata (rsrsrs...), escritora prá lá de atuante a quem tive o prazer de conhecer por estas vias virtuais...enfim...
Agora o prazer de dividi-lo é meu. Os motivos são muitos e, suponho, óbvios: talento; utilidade pública; qualidade visual, mas, antes de tudo, em razão do sentimento que me faz acordar todos os dias e acreditar que vale a pena, a amizade por cada um de vocês. Antes que eu me esqueça, só pude indicar 15 (quinze) blogs amigos - relacionados aí ao lado - então joguei os papeizinhos na cumbuca, meti a mão e tirei um a um. Façam o mesmo seguindo estas três regrinhas:
1- Lincar o blogue cujo autor o indicou ao prêmio;
2 - Eleger 15 blogues bacanas que, na opinião de vocês, também mereçam o Prêmio Dardos e colocá-los em seu blogues;
3 - Enviar uma mensagem semelhante a esta aos indicados;
4 - ...e claro, leiam meus textos e deixem suas impressões..rsrs
BEIJABRAÇOS!!!!!!!!!!!!!!

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Bossa nova

(ou, dentro do cineclube lembrei que nunca te esqueci)
O cinema à frente das retinas
Não mentia sobre a luz
De fato, brilhava esperançoso dentro da viagem dum passado inventado por sobre casarios chuviscados

Via o mundo que então nutria jardins encantados rosas, margaridas e dálias e nenhuma mulher pra mim
Nenhuma chance de inocência lamurienta quando a menina descesse as escadas, arrependida, ou acontecessem coisas à flor da pele aterrada na eletricidade incontida de quando você
Linda de uma dor em mim

Passasse a caminho de um mar que só mesmo Vinicius e Jobim
Linda e distante andante num verso Caetano
Itinerantemente linda assim em versos que nem fiz por absoluta falta de juízo e uma profusão de cenas sem edição
Era quando um cochicho pouco mais audível perto do fim da tarde me trazia um café, um sorriso, e o mar se afastava róseo
Quem olhava trespassava
Ia embora e fim.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Arremetida


Espero que decidas antes. É que antes ainda agonizo um instante e antes não é só um punhado de possibilidades fora do tempo ou dentro das expectativas que todos consideram normais, antes é a redenção, são as mãos que tiram a corda do pescoço ou abrem as janelas sempre que a escuridão asfixia com as visões que só ela revela. Antes é a trama, a interpretação absurda de um mapa astral que não considera os caminhos de outros sóis e nem os passos rabiscados no escuro.
Não que eu tenha pressa, mas antes a solidão nem é tão aguda e nem me rouba os fins de tarde que avermelham os minutos sempre que fico pra depois. Tenho mesmo coisas de dizer, fazer, sonhar, talvez visite alguns amigos, mesmo que não percebam, mesmo que não se incomodem com o cheiro do cigarro ou com a falta de assunto, sim porque não conversamos sobre futilidades, é costume atravessarmos as madrugadas recriando o encontro de outros dias ou o modo de vida de um personagem que consideramos deslocado, colorindo os contornos que deixamos uns nos outros.
Outro dia mesmo, você foi assoviar na janela e, de repente, preocupada com o que achariam os vizinhos desenhou uma ave sem vôo no espaço das suas mãos e intercedi dizendo que a melodia era tão bonita, perguntei se era Schulman você disse que não que ouvira alguém na rua – uma melodia que se fixa nos poros nos modos na boca, uma melodia que insiste quase aflita em repetir-se nos seus lábios que dança na sua língua e pensei que talvez quem a assoviasse na rua fosse Schulman em carne e osso, mesmo não sendo ele o compositor, passeando pela República que foi onde imaginei que alguém assoviasse uma melodia tão bonita.
Depois tem ainda as contas, números dívidas mais uma cerveja fiado mais um cigarro aceso e a solidão que me empurra para dentro de uma perspectiva aquática e o temor do afogamento diário, as borbulhas, o café, tanta roupa amarrotada, lençóis ainda sujos da última semana, obra no vizinho, poeira e barulho e minha assinatura perdida, folhas e mais folhas lidas sabe-se lá por quem. Espero que decidas logo. E logo não são apenas estes olhares complacentes ou os acenos que dizem até daqui a pouco querendo mesmo afastar a cena pra fora do contexto, reescrevê-la com as tintas de uma novela nem tão piegas, mesmo porque depois me apresso com a idéia de nunca mais tocar-lhe o sexo nem a fronte nas febres nem as mãos nas despedidas nem o rosto úmido talvez do beijo, depois me impaciento com o táxi que chamei e nunca chega e quando chega mando tudo pro inferno e corro fechar a persiana na esperança que não me ouçam, mais ou menos como uma criança que fecha os olhos na esperança de que não a vejam. Decidas antes da hora nunca marcada, antes da vida que atiro de tantos andares numa cusparada mais blasfema do que propriamente bêbada, antes que eu parta as cartas e decida por ti, decida que os gritos não eram teus, tampouco a agonia de ver-me desajeitada sob teu corpo seria tua. Teu seria o sorriso meio torto emoldurado na parede lateral, aquela que tanto desejáramos pintar emprestar aos amigos como um muro, mas resolvemos mantê-la intocada exceto pelo retrato que hoje está torto na parede – e penso que teria sido tão bom derrubá-la, abrir mais a sala sobre a sala do vizinho em obras, sobre a vida de uma família em obras comendo poeira e pó de mármore, um sol inteiro na sala e não apenas esta réstia que junto comigo espera que decidas logo. Antes que eu desça as escadas e arremeta mais uma vez.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

CÍRCULOS

Então você volta. Você volta sempre. Volta com o rabo entre as pernas na esperança de que eu abra as minhas e me desampare inteira agarrada às cordas que me lanças. Tem sido assim desde sempre e sempre é tanto tempo que a impressão que tenho é a de que sempre andamos juntos e que isso tudo entre nós é quase sujo e incestuoso. Fico até com vergonha quando você volta e me convence; depois quando me lavo, sinto que com a água não é você quem escorre, mas eu mesma. Jurei que não aconteceria outra vez, jurei que sua expressão de anjo não me convenceria e que daquela vez não terminaríamos pelos cantos meio nus meio vestidos, cambaleando um sobre o outro e de olho na porta já que nunca se sabe. Daquela vez você voltaria da porta e eu não me envergonharia depois. Daquela vez eu te olharia de longe, tão longe que não conseguiria reconhecê-lo e então talvez eu me apaixonasse por você e você seria alguém totalmente novo, um punhado de segredos que eu não decifraria, pois nunca te conheceria assim. Quando você estivesse distante, bem distante, eu gritaria o teu nome que sequer saberia ao certo, mas gritaria com a agonia de quem vê alguém que talvez fosse sua cara-metade sumindo dentro de uma rua tão imensa quanto as mentiras que nos contamos todos os dias e gritaria para além da sua audição, gritaria para um homem que bem poderia levar-me à loucura escorada nas paredes, dependurada nessa aventura suja, meio despida meio vestida, meio sem saber o que seria certo e errado e em todo caso fazê-lo, porque não fazê-lo me levaria de volta a você.
(Foto: Tuta, veja em olhares)

terça-feira, 30 de setembro de 2008

AS GUERRAS NOSSAS DE CADA DIA

Depois de tantas horas me enfio pelas ruas – caras tristes por entre espinheiros cochicham entre si fuxicos chorosos (se bem que a garoa e a lágrima disfarcem o inevitável) - e sorrio poucos uivos para uma lua amarelenta pousada entre escuros de rara revelação.

Outras ruas assomam à minha vigilância; arroubos de cores e profundidades diversas estendem-me mãos calosas de uma obra irretocável – hora de ainda não chegar.

Anjos espiam por entre os mesmos espinheiros como se ali repousassem abraçados, quem sabe indecisos ou precisamente encharcados de um vôo temporal. Quase do mesmo modo estiram-se à passagem dos homens sob rajadas de um hálito divinal que não expele outra ameaça a não ser aquela que te faz vergar sob o peso dos escombros que um dia chamaste corpo ou combalidos pela iniciativa do verbo que, em princípio, jazia nas páginas de um relicário. Rezam, enquanto folheamos instruções e ouvimos um blues que é pura perdição. Mantendo as aparências pensas em um sujeito qualquer em qualquer um desses sonhos Tarantino violentando ninfas indefesas que por ventura borboleteiem rosas próximas às minhas mãos.

Paro. Percebo que a rua é mesmo esta e que você realmente me acena e chora e que levo um fuzil às costas e que o pelotão todo acena para tantas outras mulheres em suas varandas que bem podem ser um cais ou uma estação e que os lenços brancos como pombas agarrassem-se às mãos como representação de uma possibilidade a mais. Mais adiante despenco por um barranco desenhado especialmente para mim e quando finalmente encontro outra rua me levanto sem saber que as feridas foram lavadas na água do teu banho e que o silêncio no qual me afundo é outra vez um salto espectral às janelas onde não há mais nenhum amanhecer; apenas a rua que é um caminho em qualquer mês por onde sigo cego no encalço de outras mentiras. Sempre extensa, nela todos se cumprimentam, trocam preocupações, abrem seus corações, profanam memórias, recolhem seus jornais e se enfurnam na brevidade dos álibis. Quando chego ao outro lado, olho a rua que caminhei, olho seus sobrados desabados que para sempre guardam suas canções, olho suas crianças que brincam de ilusões e olho você que me olha tão aflita como se do fundo de nossas vidas chegassem notícias de uma lua amarelenta pousada entre escuros de rara revelação.

*Ilustração de Lima de Freitas para a edição polonesa de A Marcha (1956) de Afonso Schmidt

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Das objeções, dos objetos e da inconsciência

A PRIMEIRA cadeira que vi estava vazia, não que outra estivesse ocupada, mas a primeira que vi estava especialmente vazia como se ali nunca ninguém sentara antes.
Vazia de corpo e alma, tão vazia que sequer lembrava uma cadeira e, embora eu a reconhecesse como tal, não me inspirava sensações que, comumente, as cadeiras inspiram. Não quis me sentar e nem quis circundá-la como a uma partner que se toca de leve na cintura dando vida a dança, não uma dança qualquer, mas destas danças que se dançam com cadeiras vazias e que, então, nem são mais vazias, pois preenchidas pela dança de alguém. Não quis nada com a cadeira que se contentava em ser um modelo morto escorada à mesa que nem era mesa, como de fato são as mesas quando estão próximas às cadeiras, pois a cadeira de tão vazia distanciava-se daquilo que, embora mesa, não o sabia. Não quis saber da cadeira que não sabia ser cadeira e nem porque moldada como tal, estranhamente feliz na sua incompreensão de cadeira vazia.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

A manhã e o desencantamento


Antes de as cores
reverberarem caladas, correndo confusas contra o pano de fundo que a rotação secreta, ouvi do escuro da noite em branco que a explosão não deixaria vivos nem avisos e ouvi dos vivos que a mácula não seria uma anedota sem sorrisos e nem o fim do silêncio. Apenas a luz borrifada na face dos poucos falsos viventes, poucos viventes indecisos e desavisados de si, comprometidos com a dor lancinante de anunciar o desenlace com a trama.
Não haveria um suspiro derradeiro e nem um olhar de soslaio, compadecido ou ao mesmo tempo intrigado, não haveria um novelo que eu desfiasse e me levasse de volta antes de as cores reverberarem caladas, confusas, contra um fundo tão imenso e sem você, quando tudo fica meio cinza e não que as cores talvez porque misturadas demais não se dissolvam; talvez. E depois de cinza tudo amanhece sem graça sem arruaça de sol bulindo no meio-escuro espreguiçando varandas orvalhadas.
Mais um pouco e os primeiros ruídos clareados irrompem dias feriados e flagram teu rosto inda adormecido sobre meu peito, estamos nus e ainda sonhamos colorido já tão próximos ao desencantamento da manhã. Então continuar assim sem ligar sem buscar sentido nas mãos que esmurram a porta quebrando a corrente física, sobressaltando nossos corpos e impondo a dormência de um cinza absoluto e ensurdecedor, e não tem mesmo sentido algum alguma coisa de fora de outro lugar no mundo apossar-se da hora em que tudo ficou decidido tatuado e colorido dentro da madrugada chegar dizendo que é hora como se nada antes importasse ou fosse a razão de estarmos ali como se as translações ao redor dos nossos desejos nunca buscassem um sol ou mesmo um motivo que nos devolvesse a fuga para nunca e nunca mais cinza do que a mistura das luzes noturnas atiradas contra a janela de cortinas soltas que ajudam a congelar a gotícula de suor que escorre em seu dorso e as mãos que nada têm a não ser o remorso de bater à porta.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Ao meio-dia de um quarto trancado


Não seriam sequer as descrenças que a carregariam por entre estas almas tristes, mas uma atitude menos enfática que não mantivesse em riste a pronúncia de um gesto. O limbo pareceria um mistério criando expectativas físicas de que, finalmente, tocar-lhe-iam as vísceras em cumprimento à fé, mas tu não entenderias tais intenções e sairias serpenteando em procissão. Os olhares, mais vazados do que vivos, tragando-lhe os desejos recortados, os sonhos e as contradições, fincariam repulsas e revelações mesmo que na fixidez de uma parede em branco. Ainda longínqua a ponto de não definir contornos sentir perfumes perceber texturas, gritar-lhe-iam impropérios e sentenças dos quais não te livrarias; em verdade os gemidos do mundo gritados por todos os cantos embalariam teu berço, velariam teu sono, fechariam atrás de si as portas do teu convento deixando-a por conta dos afagos que pela vida procuraste. Vinda assim, de dentro da ilusão amarelenta dos véus que despirás quero que cresças junto às cercas e com o tempo quero que as tome e avance pelas terras e surpreenda outros mundos com teus modos de santa coisa nenhuma que engana quem vê assim um olhar de longe e que embora perdido, te olha tão fundo que rouba respiração, coragem, roupas e quando te dás conta já é o fim, hora de procurar respostas e descobrir-se só e sem posses. O que devoto nesta imensidão que chamo prazer, são poemas que bramo em teu altar; acredite os declamo como epístolas insensatas que norteiam minhas misérias e semeiam em ti este espaço todo de lonjuras tantas e tanto de nós que cubro qualquer possibilidade de reflexo, cubro as águas com o pranto indelicado que verto desmesurado, todos os espelhos que não te vêem ao meu lado, cubro poças com as sombras que voam e fecho todos os olhos dizendo-te por todos os dias que não restariam palavras que traduzissem, então, a loucura de caminhar sozinho e recolher os sóis do teu caminho ao meio dia de um quarto trancado; dizendo-te que te levaria no colo, não pelas chamas ou pela devassidão, mas para não cansar-te a sorte de caminhar depois as trilhas dos meus passos; dizendo-te que te daria a mão, que te arrancaria das cacimbas e dos precipícios, que te salvaria dos mortos, mas tu nunca ouviste, preferiste a turba carregando-a como a uma deusa que fosse corpo e melancolia. Disse um dia que tu não compreenderias quando te levassem num dossel de encantamento até o fundo de cada alma sequiosa e lá te abandonassem como a este amor que nos prometemos um dia.

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