domingo, 28 de agosto de 2011

Onde nascem as almas (?)

Ah! É só o sol que meio jazzístico adormece entrincheirado na profusão de concreto e deixa que o acorde se prolongue entre um remelexo de menina que se aproxima e a distância dos tons pastéis de um tempo mágico no qual não havia despedida. Fecho os olhos para que o ar serpenteie na varanda entre as rendas portuguesas e os lilases das malvas e ouço o outro lado do disco, uma canção que sempre me deixa em suspenso como a uma marionete que insiste em chamar para dançar quem tem olhos de retrós. Mais tarde, pouco depois dos minutos que precedem as almas, adormeço. São elas que nos levam pela aventura do sono e revolvem nossos sonhos como terra pronta para a semeadura. Deixo-me sonhar e reviro-me entranhado, acordo na imensidão do dia, viro o disco e deixo tudo recomeçar.  

domingo, 14 de agosto de 2011

Das brincadeiras e da salvação

Do outro lado um vento que seria azul não fossem as divagações rodopiava com as folhas. Sempre olhei os redemoinhos com olhos de encantamento e é bom que se diga SEMPRE é um dia ensolarado quando ainda criança ouvia dizer que no redemoinho um saci existia. Era um tempo de existires e incursões entre desajeitadas e heróicas pelos quintais e terrenos da vizinhança. As encostas no olho aventureiro eram escarpas e precipícios que se faziam de lama e rama e uma vontade sem nome de se ver rolar vermelho por inteiro e no sumidouro da luz entregar-se aos cuidados das mãos carinhosas, fossem elas dos parentes mais próximos, fossem as mãos de um socorro sincero atiradas ao fosso para que escapássemos sozinhos num renascimento de pulmões inflados e olhos espatifados contra a imensidão de flocos rabiscados de êxtase entardecido.  

domingo, 31 de julho de 2011

Eu, o outro

Sou alguém que se pensa como tal, mas pensado por outro sou diferente; aí sou o outro e eu não sou mais. Não ocupo no outro a mesma importância que me dou, nem apreendo do outro, especulações a meu próprio respeito. No outro sou outro alguém diferente daquele que me penso. Vejo-me a partir de mim; este que se vê é o outro. No outro apenas estou. Estar no outro é, obviamente, passageiro, no entanto, ser em si também o é, pois, somos no tempo. O tempo de um nos arremedos do outro, ou o próprio tempo um arremedo de todos? E apesar disso sou eu quem se diz o outro quando converso com alguém, quando caminho, lado a lado, quando amo e mesmo quando contrariado, eu e o outro nos percorremos distintos e enovelados. E sou eu, apenas e tão somente eu, diferente e tão igual porque outro.

domingo, 17 de julho de 2011

Dizeres e um querer dizer

Diga que há uma escada por onde se escape de volta à sensação de um rio que nos carregue; diga que há janelas abertas em corações de festa e farpa e que a franqueza dos gestos acena convites que a alma reconhece; diga que aos poucos divas e comensais aparecerão do nada OU quem sabe saiam dos armários e saltitem por entre as hortaliças como crianças levadas; diga que chove ao mesmo tempo em que nos cumprimentamos e que o vento faz bailar chapéus e lenços até que todos se tenham paramentado um do outro; diga que a confusão é a única brincadeira permitida antes de se lavar as mãos e que o almoço será servido sob as amendoeiras mesmo que aprisionemos um ou outro mago enlouquecido e não nos esqueçamos que é qualquer dia e não há outro jeito senão FAZER AMOR depois das tantas OU mesmo antes já que o vício é bom e nos garante vivos. Diga que ainda carregas no olhar aquela senha que poucos decifram, mas diga antes de olhar, pois não suportaria um olhar vazio; diga que ainda acenas para os bem-te-vis que dormem e sonham num canto depois dos quintais e que quando acordas o que mais desejas é um toque de leve sem pressa que te espreguices demoradamente como se o mundo estivesse em suspenso e todos os olhos, então voltados para o passado, esperassem tu vires ao presente na forma precisa e amada de um desejo em chamas. Diga que o abraço que me escapa me fere de pronto, mas devolve aos olhos tantos dias de amor. Diga que há razões e avenidas que nos tragam de volta, diga que estas distâncias não são poças profundas, mas nunca diga que tudo é descuido, um tombo de cuja profundidade sequer os sonhos consigam escapar.

domingo, 3 de julho de 2011

De tanto você

Não sei bem se foram os mesmos dias perdidos e as noites caminhadas sem rumo de tanto que você me perseguia, predadora sombra material, pesada e densa como uma sopa de imprecisões que eu tomasse de tanto frio e solidão, afinal li tantos livros, ouvi tantas músicas, quase consigo medir o tanto de chuva que caiu no último mês. Perdi um pouco o prumo e o rumo dos caminhos esqueci. De tanto você, parece mesmo é que esqueço o rumo da prosa e me acabo em poesia, uma poesia que mistura os sabores e se inquieta dentro de mim. De tanto você me perco porque desvaneço ardendo das febres que você inspira por dentro e das vodkas servidas às tantas e em chamas. De tanto você nada resolvo com a luz não me envolvo e não volvo para ver Almodóvar te colorir. Fico te assistindo alegórica, passista meteórica de cinta-liga que me desliga e me programa para quando quiser e bem entender. De tanto você me aprisiono, me rendo, me encanto, cedo meu canto aos seus arredores deito meu pranto e adormeço para te comer melhor. De tanto você espio revistas que habitualmente não perceberia fazendo de conta prá ficar mais perto e ter uma desculpa qualquer, não me pegar boquiaberto de tanto você passar em revista meu mundo e investir artista numa tela que amanhece sem me ver. De tanto você cego meus olhos num blues de céu atônito e remoo minha cômica pose démodé. De tanto você me esquecer nem mesmo sei quem sou, imagino que talvez um verme adubando seus quintais florais, talvez brisa na finita vastidão suspensa dos seus varais, mais ainda, pó repousado nos seus poros. De tanto você nem me ver não mais me reconheço, franzo o cenho frente ao espelho que não me olha e me toco para existir. Quando estremeço e procuro alguém ao meu lado não há quem me satisfaça de tanto você.

domingo, 19 de junho de 2011

Meio a meio

O que mais anoiteceu além da voz por detrás da porta foi a certeza da fome que fez correr ao telefone pedir qualquer coisa pizza quem sabe e nesse meio tempo esquecer o olhar lá fora procurando luas e sensações afagos destes que os bichos fazem sem que compreendamos por inteiro e só então perceber outra fome ainda mais profunda mais de dentro uma fome de saudades impossíveis à superfície essas saudades pontiagudas que nos roubam oxigênio e nossos melhores talentos.
Mais que as cinzas e as baganas nos cinzeiros dispostos pela casa o que ressequiu mais que a boca foi o esquecimento do gesto próximo ao queixo nem tanto o passo no corredor que por nada se inquietou ficou no aquém da reta e ameaçou pouco aquele que fartou a farra à beira do batente lembrando que o olhar pela janela desenhou um susto mais ou menos acidental e que não bastariam festas todas as noites e nem convites inesperados que nos levassem a mundos mais brilhantes e divertidos.
O que mais aconteceu foram horas chegadas de longe ontem antes talvez horas tórridas suadas sonâmbulas de braços à sorte de um ir e vir pelos mercados e sonhos pelos ermos de um bairro onde a casa tão mais anoitecida que o fim aguarda que rabisquem noutra página um pedido qualquer antes que desliguem antes que avivam todos os seus olhares pelo sem fim da janela que leva daqui lá prá fora mesmo sem partir e traga uma meio a meio; portuguesa e quatro queijos? Ou a certeza de que a fome é outra e que o meio é a ida, o meio é a volta?

domingo, 5 de junho de 2011

Geometricamente só

Quero crer na esquina e achá-la parecida com aquele dia só porque fui tão feliz ao vê-la sorrir ali pela primeira vez; nem era dia nem nada, nem escuro, nem claro, só uma esquina que lhe servia de moldura, cenário, fundo, partitura, uma esquina de luz incontida, um quadro de linhas em perspectiva que te levavam e traziam pela mão como se houvesse algum ponto de fuga escondido, uma vontade que resolvesse nossas ações e fizesse das suas e das nossas a pressa, a chuva fina, o tecido da bata tão fino molhado e o encanto dos bicos róseos na rosa tonalidade da esquina. Um altar que talvez reconstruído em outra dimensão só porque o tempo passou tão rápido pela esquina que não tivemos tempo de olhar o desenho que ali deixei, bobagem de quem se surpreende amando tanto mesmo que só um instante, o instante de virar a esquina e olhar-se só, muito embora no desenho um homem e uma mulher se dessem as mãos e resolvessem caminhar um pouco mais além da esquina e da possibilidade quase geométrica de sumirem um do outro.

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