Diga que há uma escada por onde se escape de volta à sensação de um rio que nos carregue; diga que há janelas abertas em corações de festa e farpa e que a franqueza dos gestos acena convites que a alma reconhece; diga que aos poucos divas e comensais aparecerão do nada OU quem sabe saiam dos armários e saltitem por entre as hortaliças como crianças levadas; diga que chove ao mesmo tempo em que nos cumprimentamos e que o vento faz bailar chapéus e lenços até que todos se tenham paramentado um do outro; diga que a confusão é a única brincadeira permitida antes de se lavar as mãos e que o almoço será servido sob as amendoeiras mesmo que aprisionemos um ou outro mago enlouquecido e não nos esqueçamos que é qualquer dia e não há outro jeito senão FAZER AMOR depois das tantas OU mesmo antes já que o vício é bom e nos garante vivos. Diga que ainda carregas no olhar aquela senha que poucos decifram, mas diga antes de olhar, pois não suportaria um olhar vazio; diga que ainda acenas para os bem-te-vis que dormem e sonham num canto depois dos quintais e que quando acordas o que mais desejas é um toque de leve sem pressa que te espreguices demoradamente como se o mundo estivesse em suspenso e todos os olhos, então voltados para o passado, esperassem tu vires ao presente na forma precisa e amada de um desejo em chamas. Diga que o abraço que me escapa me fere de pronto, mas devolve aos olhos tantos dias de amor. Diga que há razões e avenidas que nos tragam de volta, diga que estas distâncias não são poças profundas, mas nunca diga que tudo é descuido, um tombo de cuja profundidade sequer os sonhos consigam escapar.domingo, 17 de julho de 2011
Dizeres e um querer dizer
Diga que há uma escada por onde se escape de volta à sensação de um rio que nos carregue; diga que há janelas abertas em corações de festa e farpa e que a franqueza dos gestos acena convites que a alma reconhece; diga que aos poucos divas e comensais aparecerão do nada OU quem sabe saiam dos armários e saltitem por entre as hortaliças como crianças levadas; diga que chove ao mesmo tempo em que nos cumprimentamos e que o vento faz bailar chapéus e lenços até que todos se tenham paramentado um do outro; diga que a confusão é a única brincadeira permitida antes de se lavar as mãos e que o almoço será servido sob as amendoeiras mesmo que aprisionemos um ou outro mago enlouquecido e não nos esqueçamos que é qualquer dia e não há outro jeito senão FAZER AMOR depois das tantas OU mesmo antes já que o vício é bom e nos garante vivos. Diga que ainda carregas no olhar aquela senha que poucos decifram, mas diga antes de olhar, pois não suportaria um olhar vazio; diga que ainda acenas para os bem-te-vis que dormem e sonham num canto depois dos quintais e que quando acordas o que mais desejas é um toque de leve sem pressa que te espreguices demoradamente como se o mundo estivesse em suspenso e todos os olhos, então voltados para o passado, esperassem tu vires ao presente na forma precisa e amada de um desejo em chamas. Diga que o abraço que me escapa me fere de pronto, mas devolve aos olhos tantos dias de amor. Diga que há razões e avenidas que nos tragam de volta, diga que estas distâncias não são poças profundas, mas nunca diga que tudo é descuido, um tombo de cuja profundidade sequer os sonhos consigam escapar.domingo, 3 de julho de 2011
De tanto você
Não sei bem se foram os mesmos dias perdidos e as noites caminhadas sem rumo de tanto que você me perseguia, predadora sombra material, pesada e densa como uma sopa de imprecisões que eu tomasse de tanto frio e solidão, afinal li tantos livros, ouvi tantas músicas, quase consigo medir o tanto de chuva que caiu no último mês. Perdi um pouco o prumo e o rumo dos caminhos esqueci. De tanto você, parece mesmo é que esqueço o rumo da prosa e me acabo em poesia, uma poesia que mistura os sabores e se inquieta dentro de mim. De tanto você me perco porque desvaneço ardendo das febres que você inspira por dentro e das vodkas servidas às tantas e em chamas. De tanto você nada resolvo com a luz não me envolvo e não volvo para ver Almodóvar te colorir. Fico te assistindo alegórica, passista meteórica de cinta-liga que me desliga e me programa para quando quiser e bem entender. De tanto você me aprisiono, me rendo, me encanto, cedo meu canto aos seus arredores deito meu pranto e adormeço para te comer melhor. De tanto você espio revistas que habitualmente não perceberia fazendo de conta prá ficar mais perto e ter uma desculpa qualquer, não me pegar boquiaberto de tanto você passar em revista meu mundo e investir artista numa tela que amanhece sem me ver. De tanto você cego meus olhos num blues de céu atônito e remoo minha cômica pose démodé. De tanto você me esquecer nem mesmo sei quem sou, imagino que talvez um verme adubando seus quintais florais, talvez brisa na finita vastidão suspensa dos seus varais, mais ainda, pó repousado nos seus poros. De tanto você nem me ver não mais me reconheço, franzo o cenho frente ao espelho que não me olha e me toco para existir. Quando estremeço e procuro alguém ao meu lado não há quem me satisfaça de tanto você.
domingo, 19 de junho de 2011
Meio a meio
O que mais anoiteceu além da voz por detrás da porta foi a certeza da fome que fez correr ao telefone pedir qualquer coisa pizza quem sabe e nesse meio tempo esquecer o olhar lá fora procurando luas e sensações afagos destes que os bichos fazem sem que compreendamos por inteiro e só então perceber outra fome ainda mais profunda mais de dentro uma fome de saudades impossíveis à superfície essas saudades pontiagudas que nos roubam oxigênio e nossos melhores talentos.
Mais que as cinzas e as baganas nos cinzeiros dispostos pela casa o que ressequiu mais que a boca foi o esquecimento do gesto próximo ao queixo nem tanto o passo no corredor que por nada se inquietou ficou no aquém da reta e ameaçou pouco aquele que fartou a farra à beira do batente lembrando que o olhar pela janela desenhou um susto mais ou menos acidental e que não bastariam festas todas as noites e nem convites inesperados que nos levassem a mundos mais brilhantes e divertidos.
O que mais aconteceu foram horas chegadas de longe ontem antes talvez horas tórridas suadas sonâmbulas de braços à sorte de um ir e vir pelos mercados e sonhos pelos ermos de um bairro onde a casa tão mais anoitecida que o fim aguarda que rabisquem noutra página um pedido qualquer antes que desliguem antes que avivam todos os seus olhares pelo sem fim da janela que leva daqui lá prá fora mesmo sem partir e traga uma meio a meio; portuguesa e quatro queijos? Ou a certeza de que a fome é outra e que o meio é a ida, o meio é a volta?
domingo, 5 de junho de 2011
Geometricamente só
Quero crer na esquina e achá-la parecida com aquele dia só porque fui tão feliz ao vê-la sorrir ali pela primeira vez; nem era dia nem nada, nem escuro, nem claro, só uma esquina que lhe servia de moldura, cenário, fundo, partitura, uma esquina de luz incontida, um quadro de linhas em perspectiva que te levavam e traziam pela mão como se houvesse algum ponto de fuga escondido, uma vontade que resolvesse nossas ações e fizesse das suas e das nossas a pressa, a chuva fina, o tecido da bata tão fino molhado e o encanto dos bicos róseos na rosa tonalidade da esquina. Um altar que talvez reconstruído em outra dimensão só porque o tempo passou tão rápido pela esquina que não tivemos tempo de olhar o desenho que ali deixei, bobagem de quem se surpreende amando tanto mesmo que só um instante, o instante de virar a esquina e olhar-se só, muito embora no desenho um homem e uma mulher se dessem as mãos e resolvessem caminhar um pouco mais além da esquina e da possibilidade quase geométrica de sumirem um do outro.
domingo, 22 de maio de 2011
Asas de Ícaro
Não tenho mais dizeres prontos encapsulados nas vértebras, nem condutas pífias e maltrapilhas travestidas nos passos do meu dia, sequer pensamentos que me acompanhem as preces em cuja ponta um iceberg dá destino a pequenos deuses insepultos.
Na aventura que chamam vida, minhas investidas a céu aberto não possuem escudos e nem o pernoite gratuito; criva meus pés com as dores do caminho e cega as intenções de meus desafetos com o aço das palavras.
Se antes a canção acarinhava minha face e sorvia minhas lágrimas para dentro da tempestade, agora me arremessa por sobre os muros de uma vizinhança morta, antecipando as visões de um futuro sem metáforas.
Tenho terrores que escorrem larva pelo peito e fazem de cada paixão um desafio de titã e uma porção de ausências tatuadas que me escapolem pelo profundo do escuro exaltado.
No sobrevoo que precede a queda, o anjo cospe insatisfações antes do asfalto. Na conversão a brisa se torna canção e o inferno lhe toca o plexo, o sexo saboreia tantos outros sabores e as mãos descobrem tantas outras inspirações que os dizeres do paraíso se tornam imprecisões. As asas de Ícaro que tanto me feriram as costas já não são precisas e nem o sol uma grandeza intocável; o caminho é só um fato e percorrê-lo, necessário.
domingo, 8 de maio de 2011
Passageiros (ou, desaparições e espirais)
domingo, 24 de abril de 2011
(Des)semelhanças
Bem-te-vi bem ligeiro que nem a vi por inteiro, um pouco do corpo alvo esguio sumindo na página destacada sem compromisso com o leitor a ver navios. Da decisão de voar entre os bólidos desajuizados até pegar-me, eu mesmo, sem juízo, tornou-se perfume, um frescor quase gélido deixado por onde andaste; um martírio doce penetrando-me as narinas, atirando-me longe quando ainda fazíamos amor e festa a qualquer hora. Tão ligeiro que ficou a dúvida se verdadeiro, mas o perfume quase corpóreo, a silhueta furtando-se da retina, os olhares que também viram e não souberam nada em absoluto, mas um fragmento de beleza indizível e então a nau zarpando deste ancoradouro, sombra veloz no nevoeiro. Ligar, insistir, deixar recados nos muros e nos guardanapos, olhar por todas as frestas e quem sabe encontrar um gesto, uma sugestão que fosse. Quem sabe descendo as mesmas ladeiras daquela adolescência colorida ou subindo no mesmo trem que nos levava para qualquer lado. Decidi voar por entre os bólidos desajuizados porque não fazia nenhum sentido preservar o senso e voando sem juízo vi que você se multiplicava. Bem podia ser aquela loira franzina que disfarçadamente me olhava enquanto não se decidia entre partir e ficar ali olhando as horas, bem podia ser alguma garotinha ruiva com sardas indefectíveis e seios pequenos, no entanto, tão autossuficientes e idade o bastante para compreender que, embora predadores, também somos meninos a maior parte do tempo. Bem podia ser qualquer uma, vai ver uma dessas que sumiu no exato instante em que resolvi me perder no seu encalço. Melhor voltar, esperar que escureça e que todas fiquem tão mais iguais, máscaras que se larguem por todos os cantos enquanto eu finja nem sabê-lo e me distraia com qualquer uma que me saia como você, que tenha um timbre vocal semelhante ou um jeito de mexer nos cabelos suspendendo-os no alto da cabeça deixando a nuca a descoberto e todo o resto por dizer.
domingo, 10 de abril de 2011
É preciso descobrir se ainda estamos vivos
Hoje espero mais que uma rajada de vento. Espero logo a ventania e aquele mundo que acontece aqui ao lado. Espero que venha tão logo saia do banho, ainda orvalhada e apressada, ainda nua cheirando a alguma artificialidade e com os poros destacadamente à mostra. Talvez eu tenha uma vodka e nos encharquemos enquanto procuramos algum motivo que valha a pena, além do sexo e das conversas que, em geral, só nos levam até o outro dia.
Então sabemos de um mundo possível e projetamos algumas formas e até ensaiamos nossas surpresas para com aqueles que nos espiam ávidos; querem mais e esmurram a porta, querem tão mais que chegamos a ouvir seus corações em tormento. Mas preferimos ignorar e amornar mais um chá e folhear revistas velhas à cata de inspiração ou de uma dúvida que nos faça abrir as janelas e deixar o sol se largar pela sala.
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