Precisaria mesmo de um corte mais profundo, um instante mais alucinado que trouxesse o alento de um antigo sentimento ou mesmo os odores daquela relação. Precisaria mesmo de um corpo em lumes, enlouquecido de porta em porta, espiando por entre a troca de luzes outras presenças imprecisas, cujos nomes inaudíveis se faziam sussurrar. Precisaria mesmo de outra morte mais definitiva, de um rio ainda mais enfurecido que me afogasse para sempre dentro das cenas escolhidas, que me mantivesse pétreo incapaz de gesto, vidente destas alucinações enquanto algum dia passasse lá fora e me acenasse um adeus técnico, calculadamente gelado. Quando não mais precisasse de nenhuma emoção, retribuiria o aceno e aguardaria da noite os primeiros bocejos e dormiria em paz, tão tranquilamente que não acordaria para estes dias infiltrados, úmidos, em cuja cabeceira tuas preces revolveriam meus pecados buscando-lhes uma salvação não desejada. Precisaria de um silêncio compacto e de tragadas lentas; gostaria que não me proibissem certos vícios e que me deixassem olhar, de relance que fosse, os trejeitos do teu corpo. Gostaria tanto de tantas coisas indelicadas e indizíveis, coisas como respirar de mais perto os ares de tão longe, viver dias sequer contados no calendário do seu tempo, coisas como sonhar os sonhos de um animal extinto ou acordar nas manhãs de outra civilização. Precisaria desaprender hábitos e enfiar-me de corpo e alma no vício da sua visão, gerar outras estórias e sorrir com dentes novos antigas aspirações; sim, seria tão mais necessário olhá-la por ângulos improváveis só para crê-la menos encantadora e então arrebatar-me esconjurando cada detalhe da tua silhueta. Precisaria tanto decidir-me se eu ou se outro além dessas insinuações, além dos sabores que trago vivos na saliva. Precisaria até encerrar-me em mar alto sob todos os sóis pretendidos pela vida e salgar os olhos com tanta imensidão. Até das saudades levadas em desatino como se acaso destino desta mesma improvisação que é amar-te todos os dias, eu precisaria. Precisaria concessões e finais escritos sob medida; fotografá-la de ímpeto e agressão invadindo teu quarto quando já descartado dizendo-te não as palavras que me inspiras, mas aquelas devidas. Precisaria, ao invés de uma cena qualquer, apenas pedir-te um beijo, e mesmo que eu ficasse pelo caminho, beijar-te simplesmente.
sábado, 3 de julho de 2010
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Saramago
“[...] não sei como perceberão as crianças de agora, mas, naquelas épocas remotas, para as infâncias que fomos, o tempo aparecia-nos como feito de uma espécie particular de horas, todas lentas, arrastadas, intermináveis. Tiveram de passar alguns anos para que começássemos a compreender, já sem remédio, que cada uma tinha apenas sessenta minutos, e, mais tarde ainda, teríamos a certeza de que todos estes, sem exceção, acabavam ao fim de sessenta segundos [...]”.
As pequenas memórias (p. 59)
Saramago é um dos maiores escritores de todos os tempos e de qualquer língua. Sua pátria, sua militância, sua vida são os livros que escreveu e os escreveria com a mesma genialidade fosse o seu idioma qualquer outro. Falaria de outras realidades e, muito provavelmente, de outros recantos, mas o faria com a mesma intensidade. Sua pátria escrita é um sem tempo de humanidade.
terça-feira, 8 de junho de 2010
ENTRELACES
Quando no meu sonho encontrei as gavetas vazias foi porque no seu sonho você já tinha ido embora levando todas as roupas.
Enquanto desse lado do mundo eu remexia o escuro do quarto buscando alguma lanterna entre as memórias, do seu lado tudo vinha à tona entre espumas de esperança e longos caminhos pedregosos.
A circularidade da vida nos foi carregando cada vez para mais longe, mas nem ela própria foi capaz de perceber que quanto mais longínquo dentro do circulo mais próximos ficávamos. E tão próximos que nossos sonhos se confundiam; sonhávamos os sorrisos um do outro, sonhávamos as dores e os percalços e nem mais sabíamos quem se levantava pela manhã e lavava o rosto num desencontro de visões.
Completos e desiguais temíamos que as noites nos dragassem como restos. Não éramos restos, afinal. Mesmo que não soubéssemos, a cada dia ficávamos mais próximos e tão mais perto que os sonhos passaram a fazer parte do dia já claro, dos afazeres e de uma preguiça intensa que se instalava a cada novo fim de tarde.
Ainda não sabíamos, mas não amanhecíamos mais sozinhos, nem íamos à rua sem que o guarda-chuva de um protegesse da chuva o outro; não havia como atravessar as avenidas sem que não nos déssemos às mãos. E tudo sem fazer ideia de que já íamos tão perto.
Em certas madrugadas vagávamos pela casa um do outro com medo dos sonhos e até nos encontrávamos nos copos de chá morno sem saber que os lábios nas xícaras eram os nossos; sequer pressentíamos as cores do seu batom nas minhas toalhas ou as minhas secreções nos seus lençóis. E cada vez mais próximos.
A água de um banhando o corpo do outro, as colorações dos dias de um chamejando nos gestos do outro e um sem fim de interpenetrações loucas que derrubavam objetos quando não havia nada ou ninguém, mas insistiam em escapulir do sonho e bulir no círculo que continua em si mesmo para uma eternidade de desenhos sobrepostos e, do mesmo modo, bulir a vida, essa sequência de eventos que se adicionam e que se desmancham quando a ausência de um é a falta do outro.
Se na sua realidade o presente é um sonho, saiba que na minha vida o presente foi sempre você, não um presente qualquer que sonhamos depois de meia dúzia de cervejas, mas um presente que se conjuga amando.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
POEMA CRÔNICO
ou
Pequena crônica das cores do meu amor
Nos últimos tempos amou vazio.
Deitou-se sozinho quando lhe sussurraram tolices no ouvido; desabou-se em reentrâncias irrespiráveis e cegas, mas antes,
antes amara com tanta avidez que construíra um mundo de cores arrebatadoras.
Vermelhos tão violentos que era sangue qualquer beijo; amarelos magnânimos que sequer Van Gogh imaginaria; azuis só possíveis do espaço, pois azuis intermináveis; verdes frondosos, saborosos, embalados pelo branco de uma brisa fria.
Também amara de um jeito tão desconcertante que as horas se fizeram de uma brevidade cremosa para depois precipitar-se orvalhada no seu púbis contraído.
E amara descalço sobre brasas e tão alto que nenhum Everest bastaria;
amara tão nevralgicamente que se tornara crônica a dor de um bem-querer despetalado.
Amara convulsa e tristemente através de velhos poemas amarelecidos de tempo e lágrimas, mas amara, sobretudo, com os olhos bem abertos de tão profundo que fora o mistério.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
TODO RETRATO É O MESMO
...e por ser assim, não espanto as teias vivas e pressinto o tanto de tempo que se aproxima; retratos esmaecidos sob o pó vigilante testemunham a busca e quando tocados impregnam o ambiente não com o mofo, mas com a verdade dos seus traços. Uns sorriem quase piedosos, outros se escondem e procuram as portas, as mesmas que deste lado da vida se mantém entreabertas numa espera de dias e brisas. Quem por aqui deixou seus dizeres e seus gestos ensaiados, fixou-se nas sombras, no jogo de luzes de um lusco-fusco prenhe de invernos desbotados; fixou-se como em um sonho do qual não nos livramos pela manhã, impregnou-se como um adeus que é sempre outro se repetindo no retrato que antes era um sorriso seu. Depois de tudo, ainda uma sonata e uns poucos minutos entre a certeza dos seus olhos mais ou menos castanhos e a leveza dos nossos pecados certamente doces. Depois de tudo, as teias já não se comovem com meus gestos combalidos e escondem nossas passagens secretas, tudo então é distância, solidão e canções do Djavan, tudo é uma questão de burlar as leis da natureza e flutuar pelo sótão como quem procura suas pegadas ou chafurdar na embriaguez dos seus cheiros cheios de mim e de quem mais? Entre todos os retratos que não mais alcanço, o seu é o que mais se insinua, mesmo que dele reste apenas a moldura e os motivos que o arremessem contra a parede, mesmo que dele restem as teias e o tempo exato de contar-lhe a estória.
domingo, 18 de abril de 2010
Promessa
Juro que tu serias minha vida, déjà vu perpetuado por todos os meus poros e instantes e meu instante absoluto, cósmico, um instante diabólico tatuado no plexo, um instante divino em você e na criação, nos cuidados com as plantas, durante minhas expedições lunares ou minhas audições malucas de Creedence Clearwater Revival e mesmo que o desatino do fim da vida me levasse ao espelho e fosse um estranho que me olhasse, mesmo assim este estranho perguntaria de ti, e de ti falaria a noite toda, contaria nossas estórias, lembraria nossas andanças por ruas e becos e matas, nossos pés tão ágeis transpondo o limo das pedras e depois acarinhando um ao outro, e mesmo que de mim já não fizesse a mínima idéia, de ti lembraria todos os detalhes. Hoje e por tantas outras vidas, lembrar de ti não seria nenhuma ave sem rumo, mas uma revoada migrando para teus confins e teus confins estariam certamente brilhando no espelho quando eu me olhasse procurando por ti.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Viagem astral
Há um desdobramento que nunca entendo; uma palavra, uma frase que se insinua nua quando visto outras interpretações e lhe cubro de significados tórridos. Sinto mesmo o sabor das frutas que dividimos quando me dizes sobre a partida, sobre a ida para um nunca mais perto de mim e insisto que o sabor é outro, que as maçãs estão maduras e que o pomar é tão aqui, tão próximo do espaço físico sideral que ocupas na minha vida. Vivi só enquanto você viveu em mim e foi tão intenso que deixei um pouco de vida para estes dias de hoje, dias de pomares distantes, dias quentes que não entendo e só faço cumprir.
domingo, 21 de março de 2010
Sonhariam os hippies nos quintais?
Então saíamos por um mundo aquariano com sorrisos abertos e passos incertos. Coreografávamos nossos rumos com a estupefação dos vizinhos e os jardins em tons trepidantes pareciam florir em nossos olhos de um abrir e fechar de rosas e açucenas, margaridas e malvas tão pequenas surgidas sempre que nos percebiam sorrir. Era um cortejo entre alucinado e carnavalesco, e mesmo que um e outro se confundissem alucinávamos transeuntes e voávamos por sobre os temporais avessos a estes feudos matinais. Preferíamos a profundidade das madrugadas fiadas sorvidas inteiras na esquina das meninas e dos meninos queridos, queríamos mesmo a cachaça barata durante as horas mais fartas quem sabe uma letargia mais franca, um sentimento de que a morte espreitasse dos guetos como é costume entre os mais queridos e desassistidos e corríamos dali como quem corre para os braços de um grande amor idealizado num passar de páginas mal digeridas, num ouvir de boleros, sambas e blues malemolentes já que não há vida possível sem o requebro dos quadris.
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