Há um desdobramento que nunca entendo; uma palavra, uma frase que se insinua nua quando visto outras interpretações e lhe cubro de significados tórridos. Sinto mesmo o sabor das frutas que dividimos quando me dizes sobre a partida, sobre a ida para um nunca mais perto de mim e insisto que o sabor é outro, que as maçãs estão maduras e que o pomar é tão aqui, tão próximo do espaço físico sideral que ocupas na minha vida. Vivi só enquanto você viveu em mim e foi tão intenso que deixei um pouco de vida para estes dias de hoje, dias de pomares distantes, dias quentes que não entendo e só faço cumprir.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
domingo, 21 de março de 2010
Sonhariam os hippies nos quintais?
Então saíamos por um mundo aquariano com sorrisos abertos e passos incertos. Coreografávamos nossos rumos com a estupefação dos vizinhos e os jardins em tons trepidantes pareciam florir em nossos olhos de um abrir e fechar de rosas e açucenas, margaridas e malvas tão pequenas surgidas sempre que nos percebiam sorrir. Era um cortejo entre alucinado e carnavalesco, e mesmo que um e outro se confundissem alucinávamos transeuntes e voávamos por sobre os temporais avessos a estes feudos matinais. Preferíamos a profundidade das madrugadas fiadas sorvidas inteiras na esquina das meninas e dos meninos queridos, queríamos mesmo a cachaça barata durante as horas mais fartas quem sabe uma letargia mais franca, um sentimento de que a morte espreitasse dos guetos como é costume entre os mais queridos e desassistidos e corríamos dali como quem corre para os braços de um grande amor idealizado num passar de páginas mal digeridas, num ouvir de boleros, sambas e blues malemolentes já que não há vida possível sem o requebro dos quadris.
sexta-feira, 12 de março de 2010
Tirinhas de jornal e reencontros
Glauco Villas-Boas (10/03/1957 - 12/03/2010)
Conheci um sujeito há muito tempo que não devia nada ao “Geraldão”, aliás, não me surpreenderia cruzar o Glauco qualquer dia destes e descobrir que ele também o conhecera e que lhe servira de inspiração. Também conheci uma “Dona Marta”, lá nos meus tempos de bancário. Certa feita, assediado em pleno almoxarifado, perguntei se conhecera o Glauco, o cartunista. Não, não fazia ideia de quem se tratava. Expliquei que ela lembrava, e muito, uma personagem criada por ele, assim, digamos, vibrante.
Nunca cruzei com o Glauco. Estava até conformado, eu morando em Aracaju, ele em Osasco, mas não completamente descartado, afinal, em tempos de redes virtuais e promoções de companhias aéreas, ir prá lá ou vir prá cá fica cada vez mais fácil.
Ainda outro dia, desbravando um velho baú de “recuerdos”, encontrei algumas tiras do Glauco recortadas do jornal. Senti vontade de encontrá-lo e, finalmente, lhe perguntar quem lhe servira de inspiração. Mas não o procurei na internet e sequer cogitei pegar um voo pra Sampa.
Agora não importa. Conheci mesmo o “Geraldão” e a “Dona Marta” e, mais recentemente, até alguns “casais neuras”. Quem sabe um dia, antes do fim da estória, os reencontre por aí juntos com o Glauco para algumas boas gargalhadas.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Todos os toques e toda a dor

Há um toque, mas não percebo. Não percebo porque em preto e branco e contra um fundo tão sem cor. Não é preto e branco, mas mesmo assim tão sem cor, desbotado. De tão desbotado me lembrei das tuas faces pela manhã depois de tanta madrugada. Tanta madrugada que o sol que tanto ardeu nos ombros nem parecia mais um sol, mas uma lâmpada sem brilho dessas de corredor de hospital antigo em cujas paredes, invariavelmente, a foto de uma enfermeira diz psiu para quem ainda continua vivo. E vida era tudo o que pedíamos antes de nos olharmos entre cautelosos e penalizados; você ainda com o corte no supercílio, eu ainda menstruada, louca pra chegar em casa e me esquecer debaixo do chuveiro. Sempre penso naquela cena do Hitchcock quando me esqueço no chuveiro. Quando o sangue escorre pelas pernas, então, nem se fala, só falta você aparecer de peruca estilo Norman Bates e faca nas mãos e acho que aí não faltaria mais nada, talvez eu devesse cortar o cabelo como o da atriz, talvez fosse melhor a gente se apressar, esse corte parece feio e pode infeccionar. Sempre que digo coisas assim você ri, você acha que tudo é porque não tem outro jeito, pergunto se tem a ver com destino e você diz que não, diz que tem a ver com as coisas que a gente faz e faz porque escolheu fazer não porque um controlador invisível mexeu os fios. Você diz que deus não existe e se existe você não gosta dele, diz que se existe é um déspota se divertindo com suas marionetes loucas. Estamos juntos há algum tempo. Tempo bastante para que saibamos dos nossos cheiros e sabores em qualquer situação, quer dizer, ainda não senti seu cheiro quando você está com medo, você sente medo, não sente? Todos nós temos medos. Eu tenho medo de barata e de cemitério a noite, também tenho medo de igrejas vazias, descobri outro dia, naquela manhã chuvosa, a gente voltava da balada e resolveu se proteger na igreja, de repente você sumiu e percebi a porta entreaberta, não tinha missa nem nada. Fiquei com medo e voltei pra chuva. Você apareceu e cantou com um resto de voz que eu vinha toda molhada e despenteada, que maravilha que coisa linda, eu o seu amor. Meu irmão tem medo de você e da maioria dos caras que saem comigo, meu pai tinha medo do vizinho, jurava que ele era maluco, ok, eu sei por quem ele era maluco. E você, tem medo do que? Notou que tudo está em preto e branco? Será que estamos sonhando? Eu sonhando com você e você sonhando comigo. Sonhamos juntos o mesmo sonho e nos cansamos tanto que é melhor a gente dar um tempo. Olha só, isso é um toque, agora sei que é. A gente espera clarear de vez e se enfia no primeiro trem. É um toque, tem alguma coisa errada, porra! Acredita. Acabei de descobrir que também tenho medo destes toques do além. Olha lá, aquela menina, que porra uma menininha tão novinha faria a essa hora no meio da rua me olhando e acenando, diz? Você não tem medo? Só pode ser um fantasma, assim sem cor e tão destacada com essas rosas tristes nas mãos e acenando e se aproximando, parece sorrir, mas chora, parece choro, mas é um sorriso tão lindo e tão feio, se aproximando tanto, e tão perto, moço, compra uma rosa prá moça, compra?
domingo, 3 de janeiro de 2010
Os Matizes da Era de Peixes
Quando descubro que todo caminho é atalho e todo corte cicatriz, atino que velocidade e contemplação são traços de um mesmo matiz, risos tímidos, pois advertidos na boca de uma gargalhada ferida, exposição tacanha capaz de esgueirar-se nas sombras de um colo gigantesco que não se diria acorde nem refrão.
Tudo tão pouco fruto e raiz esparzida, tudo folha e secura franzina, véu de posses entrecortadas e juízos de um sempre vazio, tudo é vastidão e princípio, muro e visão por entre os vãos que se destacam ocos por dentro dos olhos loucos que poucos veem como aparição.
Tudo é muito enquanto durmo sonhos de preguiça fluida, enquanto mitigo mistérios ao largo das portas e do coração, tudo tão manhã maná e manha que povoo de mim este recanto de projeções mudas, tudo tão lamento quanto perdição por fora, anavalhada em cena aberta, tudo tão pouca luz que se desfia e desafia o tempo extinguindo-se para sempre e nunca filete translúcido deparando-se só; lanterna abandonada no último instante da criação, na primeira inspiração pisciana quando então tudo é forma e vibração e os vermes principiam nas ventas seus caminhos de redenção e desvario, e tudo é correria e um abrir de cortinas tangendo restos.
Deixo o primeiro dia da sua vida, a primeira manhã da mulher gritar para dentro e acordar essa tola imortalidade. Deixo que tudo germine nos beirais e revoo junto às aves que desenham meus pequenos segredos de ninguém; espio antes as feridas ressequidas de tanto que as crianças brincam nos jardins dos pequenos deuses, aqueles que cantam enquanto criamos as horas e tantas aberrações. Movo-me inquieto e desperto outro alguém que trago em mim, alguém inventado às pressas, forjado no olho mágico que espreita, lê jornais de outro tempo e acena todos os dias como nunca mais.
domingo, 29 de novembro de 2009
Outra bárbara natureza

Enquanto dormes fico de um lado para o outro esperando que amanheça como de tantas outras vezes (amanheceria sem que ao menos um ruído fosse destacado do fundo sonoro de pássaros madrugadores ou mesmo que outra bárbara natureza se derramasse sobre tudo) e que saias, finalmente, as sete em ponto desafiando interlocutores BÁRBAROS. Fico cuidando da casa, de cada poro sobre o tecido do tempo, cada corte mais brusco de uma cena para outra, cada falha na pintura dos rostos que vivem nos espelhos trincados, cada grão de poeira, cada nova caricatura pelo buraco da fechadura, cada novo sentido que me faça um pouco mais fechado à vizinhança. Dormir é algo que não sei mais, então leio as notícias e te mando e-mails o dia inteiro, almoço só com as minhas circunstâncias e torno à portinhola para olhar a rua e seus MISTÉRIOS. Dentro de um deles tu inspiras homens e mulheres e só tu excitas assim os transeuntes apressados, de repente bárbaros e indóceis aos tropeções buscando ávidos teu rebolado SOB A GAROA, teus passos apressados ritmando cristos redentores e consolações congestionadas. Tudo tão misterioso no espaço compacto da portinhola que prefiro folhear os magazines retrôs enquanto no metro tu despencas por profundidades febris e enfrentas monstros repugnantes, reis torneados em ouro e diamantes, amantes brutais que te despem solitários e tremelicam corpanzis pouco asseados. Quando regressas, surges sorrindo com a rua por detrás e perguntas o que fiz aquele tempo todo de batalhas insanas, digo das encomendas e de um som agudíssimo que ouço quase sempre entre um sonho e um gole de gim, justamente quando apareces com a silhueta recortada por um poente do outro lado da rua que se estampa em meus olhos feito poemas de um amor piegas e doloroso. Quando tu regressas, o que em torno do mundo se consagra são estrelas de outra natureza diferente dos deuses e das dúvidas, estrelas que não cobram companhia. Quando não dormes usa-me até a exaustão me deixando para depois quando ronronas meu nome e dá sentido à vida e à minha ida por entre as estrelas que descreveste um dia como brilhantes suspensos, uma metáfora dos próprios olhos pousados sobre as luzes da cidade bárbara, refletidos para sempre na manhã que por cima de si puxa as cobertas cinzas.
domingo, 25 de outubro de 2009
O silêncio da deserção
Até onde sei calei-me não de um silêncio convicto, mas de um vazio de olhares, calei-me da ausência de verbos irregulares que pudéssemos conjugar sem pressa numa única pessoa enquanto os festejos perseguissem as horas. Calei-me de marés altas e da fartura as tantas, calei-me de conveses abandonados e porões inda mergulhados na tinta fresca da memória. Calei-me de silêncios entrincheirados argutos acompanhando-me os passos, e calei-me das aventuras impróprias que adormeciam antes que eu retornasse dos caminhos incorpóreos do sonho. Calei-me das agressões que me lamberam as faces e me atiraram aos leões, calei-me dos milagres viciados nas esquinas, das aparições paridas no cortejo fumegante dos cafés, calei-me para ver-te dançar, requebrar-se cabrocha, contorcer-se odalisca, misturar-se aos sons inaudíveis da extrema-unção. Calei-me das terminologias, das aliterações, calei-me das dormências e dos sacrifícios, calei-me de calores incontidos e dos bons modos e quando arremessado contra a turba calei-me num voo cego. Até onde sei, procurei nas fechaduras, ranhuras, brechas, portas entreabertas calar-me mais do que pensei e apenas ressenti o mal dos carinhos noturnos. Calei-me amanhecendo com as fuças ainda cheias de sua genitália, calei-me no corte da navalha e na lavanda das prostitutas, e calei-me destas cruezas abstratas que desenham seres pavorosos nos noticiários e incensam as poucas verdades veladas atrás das portas. Calei-me dos trovões e dos ruídos que desciam as escadas na ponta dos pés; bailarinos meninos escondidos vizinhos deitados ao meu lado. Calei-me destas cerrações que nos fazem sombras dentro das espirais de um mundo em movimento, e calei-me destes mesmos movimentos puxando todas as gavetas de um caminho de pedras e fragmentos e vísceras e autores catalogados no silêncio das bibliotecas. Calei-me das especiarias e sob o cutelo dos magos calei-me por definição e muito mais do que pensei.
domingo, 27 de setembro de 2009
Versos para o fim do mundo
(creio em ti e no fim do mundo; creio mais no frescor da sua pele e na redenção que encontro entre as suas pernas; creio nas palavras que se calam quando nos agarramos exaustos e tudo se acaba por alguns minutos)
I
Remoo versos entre os dentes
Sementes que viciam chãos
Versos que cuspo entrincheirado
Na lonjura aflita da solidão
II
Pequenas orgias mastigadas
Na estonteante vastidão das manhãs
Ninfas castas adoradas
Labiríntica Ariadne, bárbara Iansã
III
Versos que se confluem melancólicos
Que tanto cantam a loucura dos amores
Caprichosos gestos alegóricos
Versos que enraízam em vida suas dores
IV
As virgens então se contraem
Furtadas do gozo da aparição
Trespassam-se infelizes e se traem
Soltas num fim de mundo que viceja orvalho
Para muito além das trilhas e atalhos
Para muito além de qualquer conspiração.
Assinar:
Postagens (Atom)




