domingo, 27 de setembro de 2009

Versos para o fim do mundo



(creio em ti e no fim do mundo; creio mais no frescor da sua pele e na redenção que encontro entre as suas pernas; creio nas palavras que se calam quando nos agarramos exaustos e tudo se acaba por alguns minutos)

I
Remoo versos entre os dentes
Sementes que viciam chãos
Versos que cuspo entrincheirado
Na lonjura aflita da solidão

II
Pequenas orgias mastigadas
Na estonteante vastidão das manhãs
Ninfas castas adoradas
Labiríntica Ariadne, bárbara Iansã

III
Versos que se confluem melancólicos
Que tanto cantam a loucura dos amores
Caprichosos gestos alegóricos
Versos que enraízam em vida suas dores

IV
As virgens então se contraem
Furtadas do gozo da aparição
Trespassam-se infelizes e se traem
Soltas num fim de mundo que viceja orvalho
Para muito além das trilhas e atalhos
Para muito além de qualquer conspiração.

domingo, 23 de agosto de 2009

O PARAÍSO DE OZIRES

(o paraíso de paredes pichadas amanheceu destroçado)
Em alguns dias e, se bem me recordo, naqueles mais tristes, quase descoloridos, nos quais a imaginação encontra tintas frescas e faz das suas recolorindo paredes e paisagens, agarrava-se a uma frase suspensa e pedia a deus que tudo recomeçasse dando passagem aos desencantos e aos santos de plantão. Não acreditava em deus, mas o imaginava sempre por perto, embora lá fora, caminhando de um lado para o outro, Xangô vigilante. Preferia-o mais próximo e por isso não acreditava nele, já que nunca ao alcance do toque ou das narinas. Quando alguém batia à sua porta, esquecia-se da frase que voava pelo quarto e corria para abrir; olhava o pouco que via, imaginando expressões e, por vezes, ofendia-se; voltava ensimesmado para o fundo do quarto e perguntava se por um acaso não se transformara numa ilusão, num trecho mal escrito de um livro ainda mais medíocre. Dizia que não, que ele estava ali, embora o fundo do quarto lançado numa meia-luz trôpega o deixasse um pouco mais velho e amarelecido, como numa foto antiga, e se não fossem os movimentos lentos a procura da frase solta pelo ar, até que seria mesmo algum enfermo no paraíso recolhido dentro da casa enorme. Sim, porque lá fora, no resto da casa, os cômodos todos pilhavam a si mesmos, as paredes - que sempre tiveram ouvidos – estabeleciam a lei do disse me disse e todos que chegavam eram pegos de surpresa, acossados pelas estórias mais estapafúrdias que portas e janelas pudessem conter e contar. Nessas horas você dizia que por isso deus nunca entrava e porque não entrava não acreditava nele. Na verdade você não gostava dele e gostar ou desgostar implicava diretamente no fato de acreditar; não acreditava, também, em muita gente de carne e osso. Você me convidava à sua meia-luz onde sempre havia um café, um play dos novos baianos ou da Ângela Rô Rô, às vezes, um poema novo que você escrevia em qualquer lugar, gostava daqueles que surgiam como pichações nas paredes úmidas do seu paraíso escuro; lê-los era um desafio porque se misturavam uns aos outros na medida em que você os escrevia sem critério algum, a não ser o de se agarrar à frase que flutuava desatenta buscando o tantinho de janela aberta para então mergulhar lá fora. Não sei se é fato ou imaginação, mas quero lembrar-me de vê-lo feito uma seta voando atrás da frase fugidia, apanhando-a a centímetros da fresta e em seguida arremessando-a, com a tinta mais à mão, contra a parede. Quero lembrá-lo antropofágico gritando sandices em meio aos convites para o almoço que você mesmo prepararia.
Em outros dias mais felizes, deixava-se embriagar da luz que o invadia e não escrevia nada, e não que as frases não voassem mais pelo paraíso, mas porque não tinha forças. Tanta felicidade lhe doía todo e o fazia aparvalhado em meio à fumaça dos muitos cigarros que acendia um no outro. Nestes dias claros sentia-se vampirizado, longe de seu esquife, exposto às gargalhadas que lhe sorriam os parentes. Só nesses dias vinham vê-lo. Vinham vê-lo como se olha um espécime enjaulado. No paraíso, a luz se confundia com a fumaça e de vez quando saltava do fundo com seus olhos de lêmure esbugalhados, ação que fazia tios, irmãos e sobrinhos correrem pelo corredor que mais cedo ou mais tarde daria lá fora, junto a deus e sua vigilância sem princípios. Ele e deus eram assim meio irmãos separados pela fresta do universo que sempre os trazia para dentro da mesma festa, da mesma canção, mas que também os obrigava a fechar um olho e olhar um para o outro como quem olha pelo buraco da fechadura. Às vezes, me olhava assim também, e então eu não sabia se ele me confundia com deus ou se eu o confundia com os poemas pichados nas paredes que agora desabavam em campina aberta e me faziam ajoelhar para beijar tua fronte na lápide onde não tem nada escrito mais bem poderia deixar ler alguma coisa escrita por você há tanto tempo que nem sei quando, mas sei mais ou menos algo como que namorenando sereias helenas embriagado com lindas baianas em tons gerados azuis e vermelhos esferográficos e novamente o paraíso enevoado com nossos sorrisos de amizade surgindo como que num flash ou num passe de mágica.

(para Ozires, um ano além daqui)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Asas de mariposa

Fui buscá-la pela mão e o sorriso desferido golpeou-me o queixo como um gancho. Acho que tocava uma canção do Djavan e querer do espelho outro movimento que não os dos seus quadris de lá para cá e os braços suspensos na dança iluminada de um almoço adiado seria pedir demais, então pedi sua mão e a beijei. Outro dia, depois de tudo, pedi um café. Você estava de salto alto, quase da minha altura folheando alguma coisa sobre moda. Nem liguei. Havia um ar de descaso no gesto e no olhar caído sobre as páginas. Resolvi fazer poesia, mas não sei escrever poesia na maioria dos dias. Sei escrevê-la aos domingos, dia de festa e maresia, também nas madrugadas de sábado no aconchego das orgias, não sei brindar com vinho tinto nem morar longe demais, não sei rezar então minto e mentindo rezo um pouco, rezo aos santos ocos e barrocos, aos santos da Bahia e do Afeganistão, rezo pelos cotovelos, mas principalmente de solidão. Não sei rimar direito, não conheço palavras bonitas, por isso rimo sem vigor, em geral, às escondidas sob o cobertor, minhas poucas verdades caladas, rimadas de afeto e estupor Não sei escrever poesia, mas sei que nossos encontros se desfazem como asas de mariposa entre os dedos e talvez por isso façamos de conta tanta autossuficiência. Querer outro movimento que não o do seu respirar cauteloso por sob o tecido da manhã, sabendo-a pronta para o banho e depois uma laranjada na varanda, seria condenar-me à prontidão nas esquinas pelas quais você passasse tranquila dizendo coisas tão sensatas quanto efêmeras, tão dissonantes como afiadas. Nestes dias não seríamos flores sem rega e nem um torpor que se inclinasse sobre os mortos buscando-lhes ainda alguma vida. Quem sabe um sopro e nossos corpos acordassem prontos para outro encontro e nossa juventude imprecisa riscasse do calendário nossas marcas de expressão.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Depois daquela cena (take 1)


Tão pouco do abraço fica contra a luz das vitrines, tão pouco da gente nos carros que voando passam sem sentir o que imaginamos depois das portas abertas e da cena mal dirigida. Você atenta e nem aí para o meu amor, eu nem aí para o seu corte de cabelo meio punk e uma tatuagem estranha logo de cara no antebraço. Depois um sanduíche, novos diálogos (tão antigos) escritos ainda ontem, coca-cola que é sempre como sentir-se vivo em qualquer parte do mundo, mesmo tendo essa cor tão preta, parece piche[1], mesmo que não voltemos à cena, que nos percamos em pequenos fragmentos de estrelas e então uma porção de fritas agora que é quase noite e uma cerveja já não faz diferença, mas também não nos aproxima mais que um copo e mais outro noite adentro discutindo as melhores tomadas, e pouco depois já dia clareando por sobre os ombros é que te vejo tão bonita noite em claro e te abraço desejando bom dia pensando que talvez as vitrines retenham o reflexo da minha paixão. Desço a rua triste cansado moro perto ando a pé você tão longe manobra ré primeira segunda e some à direita tão na minha CONTRAMÃO.
Você pode até imaginar que eu suma na cadência de um samba inspirado, mas nem inspiração, tão pouco cadência no sumiço que tomo depois de nem me despedir. Saio à francesa deixando no ar a fragrância das minhas dúvidas e um pouco das incertezas que bebi em diferentes copos. O samba vem de um ponto qualquer da cidade, uma calçada de gente que nem se olha, mas que samba; samba e também some sem aviso-prévio entre os prédios e os carros que voando passam sem sentir nenhuma dor, sem perceberem que sigo sozinho ao contrário de tudo para onde vou.
[1] Alusão a um verso do poema Mural 79 de Edson Eugênio dos Santos

terça-feira, 7 de julho de 2009

O VOO DO ANJO SEM COR

Navegas só agora pedra e
Afundas num céu de sorrisos bobos
Arlequins que não se tocam anjos
Nem sonhos que se deixam tocar
Não és mais o eu nesse instante
Quem vive ou se confunde gente
És um ser habitado na passagem
De um agora para outro adiante
Quem habita não se sabe habitante
Quem fica não se percebe ausente
A pedra que voas edifica
Alguém num espaço de vazios
O que se edifica é nada
Mas tudo pleno e perfeito
Um plano que aterrissa sereno
Mesmo que sem muito jeito
No meio de um todo de pó
Regressas de tantas partidas
E partes de uma vida só.
(para Michael)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

À TERRA DO NUNCA

Fiquei do começo da noite até agora pensando no que escrever...um poema, uma frase de efeito...uma bobagem qualquer que encantasse pelo tom emocionado...até que resolvi escrever o que viesse à telha...
1973, eu tinha onze anos. No rádio, uma canção teimava em me lembrar o quanto eu estava apaixonado...era a minha primeira paixão...avassaladora...a canção Music and me...a garota nunca soube...quem sabe por um destes milagres tecnológicos saiba hoje ou por estes dias o quanto fui apaixonado naqueles dias...agora já não é segredo...36 anos...puxa, parece que foi ainda agora...Lilian era o nome da garota...Michael, o nome do garoto que cantava no rádio, um pouco mais velho, 14 anos...e apesar da pouca idade, o conhecia há tanto tempo...tinha até desenho na TV! Jackson Five...às vezes eu ia à janela do meu quarto, deixava o rádio ligado e esperava a canção...quando tocava, olhava na direção da casa dela e ficava ensaiando as palavras que seriam ditas quando, finalmente, criasse coragem para pedi-la em namoro...nunca pedi...de qualquer forma Music and me foi a canção daqueles dias, dias tão doces...doces como a voz do garoto que cantava no rádio...acho que por isso nunca esqueci...
O garoto foi hoje à terra do nunca...acho que vou à janela...olhar um pouco para aqueles dias...dias tão doces...

quarta-feira, 17 de junho de 2009

(per)plexo

A porta range e o princípio da noite desfia a cena: jogado na velha poltrona não vejo você, apenas ouço o ranger de tanto tempo e que não significaria nada além de mais um entre tantos miseráveis entrando a cata de alguma porcaria que deixasse seu fim de tarde menos podre e descolorido. Mas é mesmo você; vejo quando você levanta a minha pálpebra direita entrando inteira no meu campo visual perguntando quantas eu havia tomado e se, por um acaso, fazia ideia da semana, dos riscos, das pessoas que se perguntavam onde, como, quando; arrasto-me até o banheiro e noto o quanto o registro do chuveiro é alto, tão alto Everest das minhas águas salvadoras que me deito sob os furinhos pensando que talvez uma dor aguda me eletrocute e recebo na cara um jato gelado avisando-me que tudo aquilo é a mais intensa realidade e que tanta realidade só é possível quando você chega trazendo alguma comida e cigarros comuns. Ouço sua voz dizendo que está separando uma roupa e que a toalha já está sobre o assento do vaso sanitário; empurro a cortina e o mundo parece menos fétido e mais compacto. Sento-me e deixo que a água gelada escorra mais alguns segundos, o bastante para sentir-me outra vez provido de pernas e alguma boa vontade.
(A cena)
Nada tão possível quanto assombrar-se no escuro da cena fechada é mesmo tatear as paredes de um sonho do qual se acorda tantas vezes quanto nos invada. É um vozerio que se trás de fora, através das páginas que folheias como se alguém fosse chegar e interromper, então melhor nem ler, só passar os olhos de mariposa inquieta. Estarei sempre em cena, mesmo que abandonado, sem falas e sem gestos, cenográfico.
Deixo o banheiro nu e atravesso o corredor arrastando a toalha amarela. Fica um rastro molhado que muito a irritaria, mas daquela vez você sorri e diz que a roupa está sobre a cama. Pergunta se estou com fome e rujo. O dia acaba quase lento, há uma dúvida no tempo que não sabe se ajustar, há velocidade num ponto e paralisia no outro e me deixo sorrir pela 1ª vez em muitos dias. Nu, vejo-me no espelho imenso que quase não conseguíamos carregar lá daquela loja de velharias na São João, ele está trincado (já estava quando o compramos e nem assim saiu mais barato) e a trinca provoca uma curva que habitualmente não tenho aqui na altura do plexo, você diz que o plexo solar é um canal para com a divindade e, em geral, gargalho com essa conversa. Mas não hoje. Hoje estou quase vivo outra vez, muito embora não consiga encontrar as roupas, onde elas estão mesmo? Ah, claro aqui em cima da cama; demoro um pouco olhando a cama e talvez por estar nu e você logo ali tão próxima preparando alguma coisa prá comer, penso em quantas vezes te comi nessa cama, e penso que talvez as paredes tenham registrado tudo, áudio e vídeo; paredes têm ouvidos, certamente têm olhos.
(Espelho)
Atravessei-o tantas vezes; uma espécie de Alice pouco contida e nem tão heróica, um ser transfigurado e trespassado das imagens que conspirei quando sorvido pelo abandono da cena. O espelho é mais profundo e sumo sem me refletir.
Ouço o barulho dos pratos e volto da última cena; estou bêbado e não consigo satisfazê-la, você faz de conta que compreende e vai fumar um cigarro junto à janela. Chovia muito daquela vez e você foi embora debaixo de chuva. Visto a roupa e ainda cambaleante chego à cozinha, suco de laranja e omelete. Agradeço e como feito um cavalo. Você pergunta o que acontecera e sorrio dizendo que nenhuma novidade o de sempre, enchi e cara, fumei que nem louco, enchi a cara de novo e posso jurar que estava muito longe de casa, não sei como cheguei aqui. Então você me olha do fundo da sua cena predileta, caminha até a porta, para e vira só a cabeça me mandando para o inferno, depois volta até a sala escolhe algum disco bem antigo dos Stones e o no último volume coloca um blues que me faz chorar como criança. Arrependo-me contra o azul indeciso do céu que se despede e dou de cara com acordes que me rasgam o tal plexo que não me deixa ver a cara de nenhuma divindade e mesmo assim volto até aqui e peço mais uma e desmaio de tanto você, de tanto que você bate a porta sem olhar para trás.
Hoje não. Hoje você me olha de tão perto, mesmo que a sua cena predileta insista em se repetir a nossa frente, hoje você não me detesta durante estes minutos em que você me encontra destruído, hoje você está tão bonita e esta omelete tão cheirosa, talvez eu a coma mais tarde, assim que eu consiga sair daqui, deste lado da porta que range; que range porque a janela está aberta e o vento que já é outro brinca com ela para lá e para cá; que range a noite toda sem que eu consiga sair daqui, do fundo desta velha e confortável poltrona de onde avisto estes monstrengos ávidos por alguma porcaria que os faça compreender a transição da tarde para a noite ou porque estão ali espiando meu corpo nu inerte na poltrona velha. Você não surge entre os mil rostos espantados plantados à minha porta que range. Não me arrasto até o chuveiro. Tão pouco me alimento. Peço um cigarro e que entrem, há lugar para todos, até mesmo prá você caso decida voltar.
(Janela)
Não houve um sequer que não tenha visto tua silhueta em destaque, e depois não me tenha culpado pelo silêncio de todos os outros dias.

terça-feira, 26 de maio de 2009

DO SORRISO DAS PEDRAS À CRIAÇÃO

(anjos e furacões)
Os olhos atentos no horizonte agora cheio de anjos feios e furacões em nossa direção, ainda assistiriam a própria dor. Ainda saltariam de suas órbitas regulares e procurariam abrigo em sistemas inabitáveis. Volveriam à dor lancinante de se verem lacrimosos, arrancados de cena e de qualquer possibilidade de novas visões. Enquanto não nos abordam encho a cara de uísque contrabandeado, caro e perigoso, sem perder de vista os dois que dormem no quartinho ou, quem sabe, bem acordados planejem fugas ou gargalhem espantando a imobilidade das horas. Talvez ninguém acredite e nem vigie a escotilha ou mesmo lance âncora na esperança de peixes maiores; talvez eu e você, mergulhados na lama do mangue, nos amemos até que o horizonte suma e não deixe rastro algum de seus comensais. Mas sem perdê-los de vista. Eles mesmos, depois de crescidos, nos olharão como agora olho o horizonte de anjos feios e furacões, eles mesmos nos tocarão sem pudor e quando se fartarem nos arremessarão à imensidão destas águas sombrias; melhor aquietar o facho deste lado do sonho, manter os poros respirando e as promessas por sob o celofane dos anos. Daqui a algum tempo abro as portas, permito que saiam quase cegados pela luz do meio-dia e os violente antes que a lama me entupa com seus odores e sentinelas.
(a perdição do meu olhar)
Tenho mesmo a você e você talvez nunca me tenha olhado como se olha um monstro, e não que me sinta um monstro, mas os crio no quartinho desde que eram girinos esverdeados, depois perderam o viço e a cor; seus sexos se tornaram evidentes e foi quando os engaiolei. Chorei muito, especialmente nos primeiros dias quando sequer sabia o que queria, além de que parassem de se machucar. A perdição do meu olhar era vigiá-los por horas espiando pelas frestas até que um dia, quando de relance volvi o corpo na direção contrária e notei o horizonte carrancudo; só depois compreendi que eram os anjos e um furacão que então passou a se formar todos os dias. Naquela mesma hora achei tudo diferente, mas como o tempo não permitia, nem liguei. Ocupei-me das preces e das refeições durante o dia e de você nas outras horas. Você não se preocupava com o tanto de olhar que eu perdia todos os dias, jogado por cima da baía como que buscando contornos do outro lado, ou quando gritava de madrugada e acordava num sobressalto jurando que todos os astros mortos agora recitavam versos estúpidos e se alinhavam no horizonte. Enquanto tudo remexia nossas vidas, eles cresciam.
(a arquitetura dos dias)
Quando resolvemos que já era hora e que o horizonte iria aonde quer que fossemos, morar no barco foi mesmo a melhor solução. Se não nos livrássemos daquelas caras horríveis e daquele vento que baforava a cada segundo mais forte e fedorento, se não os colocássemos do lado que melhor proporcionasse suas pinceladas permitindo que as horas fossem se arquitetando em papel e dias abandonados mesmo que pelos cantos, tudo ficaria por conta das habilidades que sequer sabíamos se possuíam. A chance seria vê-los aprender outras coisas, falar a mesma língua quem sabe, afinal depois de tantos anos já se pareceriam o bastante com cada um de nós, exceto pela cauda.
(o sorriso das pedras)
Se ainda houver tempo e caso você ainda não me tenha entendido, é simples. Casamos muito jovens e como ainda não tínhamos despertado para todos os prazeres, passávamos horas passeando e nestes passeios as descobertas eram frequentes; descobríamos de tudo, desde pedras que sorriam com o toque delicado das tuas mãos, até anéis de minúsculos contornos que adornariam os dedos de seres que só víamos de relance e quase a beira do sono profundo. Num destes passeios ouvimos o coaxo choroso de dois seres pequeninos perdidos entre as pedras que te sorriam. Corremos crianças e na volta éramos adultos atormentados com o olhar profundo daquelas criaturas; decidimos ali mesmo criá-las como a dois animais, mesmo que, conforme revelado algum tempo depois, começassem a imitar nossos gestos e nossas destemperanças.
(do caos à lama)
Da terra saímos fugidos, tangidos por um povo caprichoso que os imaginou dois diabinhos. Não era, nem nunca foi naquelas paragens costume criar demônios, e como todos estavam irredutíveis, irremovíveis da crença estúpida de que nossos animaizinhos eram íncubos a mando do próprio excomungado, subimos a bordo também acreditando que um dia eles nos comeriam vivos e se, um pouco piedosos até em razão do bom e do melhor a que sempre tiveram direito, nos matariam antes da desossa. Mantê-los sob vigilância tornou-se profissão de fé, se bem que matá-los deveria estar na pauta mais vezes. Sabíamos que mais cedo ou mais tarde selariam nossos destinos e por sabê-lo, íamos a terra fartamente, mangues de lama mal cheirosa e cheia de caranguejos vermelhos. Fazíamos amor ouvindo o ruído da lama espremida entre nossos genitais e mesmo a certeza de que éramos observados não nos arrancava um do outro. Na verdade, a sensação era muito boa, quanto mais profunda, mais fria e densa era a lama, o que dificultava o vai e vem de nossos corpos e nos deixava ainda mais agoniados. Depois de certo tempo nem o odor horrível nem os olhos que espiavam, chegavam a incomodar; cessávamos somente por eles e nem imaginávamos o que era amor.
(a beleza da criação)
Os anjos amanheceram mais próximos do que nunca naquela terça de carnaval. Estávamos a uns dois quilômetros da praia e mesmo assim a festa parecia bem aqui ao lado. Entre fogos de artifício, cantorias e batuques, a cara imensa dos querubins sentenciava: era hora. Os furacões, então descobrimos, eram sopros angelicais que fizeram voar alguns pertences do tombadilho, lembro que aquele avental usado para tratar os peixes voou na direção da orla e imaginei que quem o encontrasse não entenderia as razões de seu voo, mas apesar disso não hesitaria em vesti-lo e sair à farra das batucadas ainda acordadas. Surpreendi-me pensando estas tolices e como que, finalmente ligado ao dia, notei que você rezava. Os dois monstrinhos gritavam ensandecidos e os anjos pousaram lentamente. De perto eram belos, tão belos que não lhes pude olhar muito tempo, tão belos que as suas orações se transformaram em profundezas de palavrões e versos sem sentido, tão estúpidos como aqueles que eu recitava depois dos sonhos e deixavam minhas manhãs como que se fossem frutas podres que eu tivesse que saborear. Um dos anjos desceu ao quartinho e voltou com os dois, um de cada lado e, exceto pelos rabos, quase não os reconheço. Eram dois seres lindos, um macho e uma fêmea, cada qual com quase dois metros de altura e cada qual cercado por um halo luminoso que me fez desviar os olhos. Você não orava mais, nem xingava, você, na verdade, com um par de olhos extasiados cegava-se pouco a pouco. Antes do golpe vi ainda o filete de sangue que lhe escorreu do canto do olho esquerdo.
(ancoradouro)
Quando voltei a mim a embarcação estava abandonada às ondas e tinha mil anos. Os fantasmas que a habitavam lançavam redes esfiapadas a cata de peixes extintos. Eu o sabia, pois já nos meus tempos de vivo, os peixes escasseavam a cada maré. Andei pelo convés sem assustar-me com os pobres zumbis maltrapilhos que se esforçavam na puxada dos frangalhos. Um ou outro me olhava com aquilo que seria um olho e um ou outro se atirava ao mar. Foi quando percebi que o único fantasma a bordo era eu e que aqueles infelizes eram viventes tangidos pelas ondas que em verdade eram as asas gigantescas dos anjos que há mil anos me esfacelaram o crânio. Foi quando aturdido notei que as redes eram nossas roupas e que seu corpo tão alvo como a lua que nunca mais vi, servia de âncora para fixar cada desejo de arrebentar-se na praia. No fundo do túmulo, imerso na mais completa escuridão, uma escuridão inimaginável para quem nunca foi enterrado sob sete palmos, restou-me a eternidade dos lábios balbuciando que jamais deixariam de sorrir para as pedras, tampouco para a sua criação.

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