É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
A noite que ele não veio
Foi de tristeza prá mim
[...]
O marinheiro bonito
Sereia do mar levou
[...]
É doce morrer...
Quando abres a porta e ainda da penumbra fixa-me contra o fundo onde estou, é tão inevitável achá-la virginal; mesmo sabendo que ainda há pouco (antes que a manhã retocasse tua noite avisando-te o quanto ingeriste de álcool) esse alguém, que ouve ainda um vazio, (já que sequer respiramos) a tenha possuído tanto e tão profundamente (que agora me pareças trêmula), mesmo assim a contemplo como a uma Náiade prometida e que só a mim fartaria com tuas águas e sabores, com seus tantos suores e licores. Não há outra concepção de ti a não ser esta que me ofertas com os olhos que sorriem mesmo que lacrimejem nossas ausências. O que de ti concebo não são enlaces e nem cordas, são camadas de cetim que não canso de desnudar, são aparências sacras cuja maquiagem sacrílega acorda-me a tormenta de não poder tocá-la. Ainda outro dia, de tanto que me davas as costas cheguei a pensar que jamais guardaria tua fisionomia, hoje desejaria esquecê-la, arrancá-la das retinas e dos álbuns, mas tudo o que consigo é mirar-te da porta e desejar que te atires no precipício que te ofereço como alma. E como um Hércules pelejando por Dejanira, tento livrar-me do fundo e aproximar-me de ti; um gesto se precipita em afago e uma voz lá de dentro parece aproximar-se aqui de fora.
Quando abro os olhos e é você quem me vê, o mistério é todo da cor de vigarices e passeia lentamente dentro do escuro que ainda colore a retina; é possível prová-lo pelas mãos ligeiras de quem me furta a ida e a vinda pelas vias de uma vida que não é minha. Quando a manhã se arrebenta repentina, se apresenta sem retoques é você quem pousa na grade tão santa clara clareando as palavras que vou mentir – uma por uma – só porque não sei dizê-las (quando silencio, os manifestos voam rasantes).