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domingo, 3 de junho de 2012

A Tempestade (IV)

(a perspectiva do encantamento)
Preciso-me antes que desabem os céus que desenhei na parede suja dos fundos. Quero-me tão pleno antes que o desenho relampeje e se esvaia em alto-relevo tocando-me o plexo num desespero de perspectivas revoltas que lambem a atmosfera buscando-me o gosto, o sabor que talvez perdido macule o gotejar andino daquilo que se torna rio e me afoga mesmo antes que te respire as fragrâncias por entre as pernas. Sei-me em chamas maldizendo a solidão daquele fundo de tarde dizendo-me com todas as letras mortas que o amor é um grande desaforo, uma brincadeira sem retoques nas quais os brinquedos são frágeis e se arrebentam ao menor descuido. Chamo-te aos gritos e quem me vem acode ao copo, transborda-o. Escorro-me pela borda, saliva, seiva, chuva, lágrima em segredo desfeito no borrão da sombra e com o dorso das mãos sobre os olhos procuro visões que inventem outras estações que nos vistam nus.

Foto: Pietá nº 1 de Jan Saudek (1971) disponível aqui 

domingo, 22 de abril de 2012

A tempestade (III)

O encontro
 
Aquilo que se entreabriu viu 
em meio ao cinza das pinceladas qualquer coisa sorrindo para si, dizendo dos lilases
contidos
ainda por surgir daquele emaranhado de sobressaltos e esbarrões, chiaroscuro de corpos num espaço de trovões. Abriu-se do sonho gerânio desavisado transeunte inesperado em meio ao torvelinho de fadas e divas; abriu-se mais que acordado na esperança paleácea de que seus passos outra vez pisassem o corredor frio e fechasse as janelas antes da tempestade. Poderia virar-se tranquilo e deixar que lá fora tudo marulhasse convulso, pois ela já estaria aconchegada e nele a pele pérola nua vibraria dilúvios próprios da vida.

Foto: Piotr Kowalik

...e quem sabe, a calhar.

domingo, 15 de abril de 2012

A tempestade (II)

Redenção
O fundo se esquivaria em cores lívidas e de lá se poderia ouvir um bolero setentista que fizesse recomeçar tudo outra vez através das falas comuns, daqueles olhares angustiados trocados antes que escurecesse e dissesses até logo, o mundo vai desabar e aqui nem existe mais.
Prometeria pincelar com cores vivas os becos por onde desapareceste e pintaria sorrisos e flashes que a trouxessem impressa em cada parede sombreada de sóis recentes sem mundos que te enlaçassem pela cintura, pois nossa dança seria um duo chiaroscuro rodopiando sem pressa trazendo-a para o olho do furacão caleidoscópico que abriríamos a cada regozijo expresso pela tempestade dos nossos corpos.     

Foto: Piotr Kowalik
(http://www.piotrkowalik.co.uk/)

..e por favor, ouçam esta canção
"Trovoa" de Maurício Pereira


domingo, 1 de abril de 2012

A tempestade

Talvez eu voltasse àquele ponto exato da conversa e você me interrompesse apontando o horizonte chumbado àquilo tão bem definido como fim de mundo e eu insistisse que se danasse a tempestade e pedisse outra cerveja e você mais uma vez retornasse para dentro de uma confusão futura prevendo ruas alagadas e fizesse menção de chamar um taxi que se deslocasse o mais rápido possível para os lados de um mundo a salvo.
Talvez.
Talvez não fizesse mesmo sentido acordar todas as manhãs, olhar-se entristecido ainda e procurar um rosto no espelho que se parecesse um pouco comigo e só então avisar que já estou indo buscar o pão e que talvez eu passe na banca e pergunte se o seu fascículo já chegou e que também posso olhar o céu pelo tempo que for preciso e descobrir que um dia entre uma cerveja e outra você resolva fugir da chuva deixando-me só com dois copos no balcão.
Talvez eu lhe pegasse pela mão, mas não tão firme que a mantivesse perto de mim e outra vez olhasse o castanho dos seus olhos como quem olha a própria vida se afastando e se afastando talvez você descobrisse que a salvo de mim toda vez que abro os olhos de manhã desejando-lhe boa sorte e que a trago nos bilhetes rotos que talvez eu tenha que salvar das águas já que me decidi pelo horizonte chumbado àquilo que imagino como sendo a tempestade.

Foto: Sean Heavey

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