Na primeira manhã alguém que era deus com a boca pintada chegou.
Os cabelos molhados encharcaram o tapete e o corpo no encontro vitimou outra fatia.
Saia quase nua na sala de um sol quase letal.
Meus olhos executaram sentenças roubando-a de abismos e jogando-a a alguns poetas enquanto eu me despia.
O silêncio parecia agonizar já que enlouquecido pretendia amordaçar-nos com as suas carícias, porém nós o imitávamos e vez em quando o assassinávamos gemendo.
Alguém partiu.
Dúzias de pequenas dúvidas na bolsa e a nítida certeza de que estava completamente sem cigarros.
Preguiçosa olhou-me do semáforo, os olhos temiam o meu desaparecimento.
Nunca imaginaria que os raptos acontecem imperiosos ao entardecer e que alguns poetas choram no exato instante em que as andorinhas adejam até enlouquecerem os expectadores.
Sonhei, outro dia, abraçá-la despudoradamente até causar chamas n’alma.
Ambicionava intimamente fantasias e covardemente sangrei.
Mereci o talho.
Reagi dentro das manhãs repetidas até que exauridas dos passos cotidianos e pasmos fugiram em direção da noite.
Por onde andará o próximo beijo?
Não sei.
Um dia, quem sabe, descubro seus lábios, talvez amordaçados num carmim desesperado e os beije com fogo, bem antes das primeiras manchetes, antes que nos esqueçamos tão sós depois do último instante.
Fotografia: Rodney Smith
Título original do poema: Cabelos molhados






