domingo, 3 de junho de 2012

A Tempestade (IV)

(a perspectiva do encantamento)
Preciso-me antes que desabem os céus que desenhei na parede suja dos fundos. Quero-me tão pleno antes que o desenho relampeje e se esvaia em alto-relevo tocando-me o plexo num desespero de perspectivas revoltas que lambem a atmosfera buscando-me o gosto, o sabor que talvez perdido macule o gotejar andino daquilo que se torna rio e me afoga mesmo antes que te respire as fragrâncias por entre as pernas. Sei-me em chamas maldizendo a solidão daquele fundo de tarde dizendo-me com todas as letras mortas que o amor é um grande desaforo, uma brincadeira sem retoques nas quais os brinquedos são frágeis e se arrebentam ao menor descuido. Chamo-te aos gritos e quem me vem acode ao copo, transborda-o. Escorro-me pela borda, saliva, seiva, chuva, lágrima em segredo desfeito no borrão da sombra e com o dorso das mãos sobre os olhos procuro visões que inventem outras estações que nos vistam nus.

Foto: Pietá nº 1 de Jan Saudek (1971) disponível aqui 

Um comentário:

Si, Fosse Algo seria o Nada disse...

É seu desenho se clareando...

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