
Puxo as cortinas como sempre e
como sempre revisito palmo a palmo o plano emoldurado da janela. Abro-me para
as cores repetidas de outro dia tão igual, tão calorento quanto qualquer outro
que eu tenha vivido por dentro, por entre todos os vazios malcheirosos de seus
mortos incontáveis, rente à falta de habilidade daqueles que me esbarram
desconhecidos, mas que se comovem caso não consiga espiar pela moldura mais uma
fresca sensação de dia seguinte, recomeço zumbido nos sons de um sempre matinal
entre preguiças e saudades. Volvo para um mar de levezas que garoam e coo o
café que me acorda para outras visões; são calmarias que acalanto sozinha
sentada a um dos banquinhos da cozinha e que devoro depois. Também me derramo
no banho e transpiro tantos planos consiga até me arrepender pela demora; não
me culpo muito tempo, mas o suficiente. Nem se trata de uma dor aos domingos ou
em plena segunda-feira de sol derretido por todos os poros, nem de espezinhar o
resto dos dias da semana como baganas que degustei no escuro e depois apaguei descuidada.
Não se trata mesmo de acordar com os pulsos cortados e constatar que lá fora as
pessoas continuam sorrindo maquinais e que eu também lhes sorrio como que
arrependida e sem tempo, como se não tivesse notícias de quem um dia puxou as
cortinas como sempre e como sempre me desejou bom dia.