terça-feira, 18 de agosto de 2009

Asas de mariposa

Fui buscá-la pela mão e o sorriso desferido golpeou-me o queixo como um gancho. Acho que tocava uma canção do Djavan e querer do espelho outro movimento que não os dos seus quadris de lá para cá e os braços suspensos na dança iluminada de um almoço adiado seria pedir demais, então pedi sua mão e a beijei. Outro dia, depois de tudo, pedi um café. Você estava de salto alto, quase da minha altura folheando alguma coisa sobre moda. Nem liguei. Havia um ar de descaso no gesto e no olhar caído sobre as páginas. Resolvi fazer poesia, mas não sei escrever poesia na maioria dos dias. Sei escrevê-la aos domingos, dia de festa e maresia, também nas madrugadas de sábado no aconchego das orgias, não sei brindar com vinho tinto nem morar longe demais, não sei rezar então minto e mentindo rezo um pouco, rezo aos santos ocos e barrocos, aos santos da Bahia e do Afeganistão, rezo pelos cotovelos, mas principalmente de solidão. Não sei rimar direito, não conheço palavras bonitas, por isso rimo sem vigor, em geral, às escondidas sob o cobertor, minhas poucas verdades caladas, rimadas de afeto e estupor Não sei escrever poesia, mas sei que nossos encontros se desfazem como asas de mariposa entre os dedos e talvez por isso façamos de conta tanta autossuficiência. Querer outro movimento que não o do seu respirar cauteloso por sob o tecido da manhã, sabendo-a pronta para o banho e depois uma laranjada na varanda, seria condenar-me à prontidão nas esquinas pelas quais você passasse tranquila dizendo coisas tão sensatas quanto efêmeras, tão dissonantes como afiadas. Nestes dias não seríamos flores sem rega e nem um torpor que se inclinasse sobre os mortos buscando-lhes ainda alguma vida. Quem sabe um sopro e nossos corpos acordassem prontos para outro encontro e nossa juventude imprecisa riscasse do calendário nossas marcas de expressão.

4 comentários:

Leila Andrade disse...

Bom seguir aqui, no calor das suas asas, Sérgio.

Beijos

Analuka disse...

Lindo texto, embriagante como vinho tinto, misterioso como asas de mariposa, complexo e rico como são as tramas da alma , da mente e dos corações enamorados! Abraços alados, amigo.

VeraBasile disse...

Lindo Sérgio!
Como canto de sereia!
Bjs :)

f@ disse...

Olá Sérgio,
…como todos os encontros e como todas as palavras na embriaguês da emoção…
Longo silêncio no ruído de sentir…

A chuva faz ©rist a i s de gelo quando o sopro passa a brisa… mas, é nessa suavidade que derrete e escorre gota a gota no ®osto das ondas…
Maré baixa e traços no horizonte…
pôr de sol…

!nfinito abraço e beijinho

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