terça-feira, 15 de julho de 2008

A impronúncia manifestada

Quando abro os olhos e é você quem me vê, o mistério é todo da cor de vigarices e passeia lentamente dentro do escuro que ainda colore a retina; é possível prová-lo pelas mãos ligeiras de quem me furta a ida e a vinda pelas vias de uma vida que não é minha. Quando a manhã se arrebenta repentina, se apresenta sem retoques é você quem pousa na grade tão santa clara clareando as palavras que vou mentir – uma por uma – só porque não sei dizê-las (quando silencio, os manifestos voam rasantes).
O primeiro destes manifestos pode ser chamado de Manifesto das coisas que são suas (e que muito bem poderiam ser minhas não fosse pelo preço e pela distância) e atende prontamente como um cão feliz ao receber o dono, abana o rabo histórico numa felicidade de poeira e espasmos sublinhados de urina e suor. Corre entre os aparelhos e os cavalos despachando ilusões pelas encruzilhadas e pede com seu jeito de lobo que fiques de quatro e te prepares para o baque. Por estas horas, os móveis já estão afastados e a platéia não morre dentro da execução alheia, nem há remorso maior que aquele que até então lhe acompanhara o ventre. As coisas que são suas são todas brilhantes e práticas; cordas amarram (mas também enforcam tão docemente quanto é possível a uma corda), sapatos calçam, roupas vestem, pentes penteiam e televisões hipnotizam – coisas que quero. Quero porque não querer resolveria só uma parte do problema, justamente aquela parte que te faz voar pela janela só porque não te quero mais. A platéia aplaude sacudindo as jóias, não, não aquelas, outras, brasileiras de barraquinhas populares. O segundo manifesto - ainda sem nome (se bem que Manifesto das coisas que não tens viria a calhar) - roga aos deuses de todas as praças que os meninos apareçam para a lavagem dos bons fins, o meu bom fim e o seu, um fim de mundo, de linha, récita, livro, um fim descabido que te leva mesmo antes que eu lhe desabotoe a blusa e banhe cada segundo de tanta maciez e perfume e flagre uma ou outra cicatriz. Em dias assim noto que não tens vontade, nem dor alguma, não tens piedade da minha ereção a qualquer hora e em qualquer lugar. Antes, não tinhas certezas engaioladas e nem asas, não tinhas ginga nem samba no pé, não tinhas nada e sequer eras mulher. Tendo o cuidado de avisar, há um terceiro manifesto que decreta: meu nome não pode ser pronunciado, pois sou escravo de outras razões, sou aquele que escreve os teus dizeres e planta tuas maçãs, sou o pai das tuas crias e tua cria sou também, escorro por entre as pernas dos homens e das mulheres, sou a cigarra no verão e um bunker em tempos de inquietação। Quando eras um menino fui teu instrutor nas ruas, levei-te ao leito de tantas mulheres e fui cada uma delas, ensinei-te a arte de fazê-las loucas e enlouqueci dentro de ti sempre que tocado, fui espelho e fui teu rosto barbeado, também fui pequeno e nestes tempos ambos fomos abandonados। Sou a luz e sou o breu; um interruptor acima das tuas decisões, definindo os meios, os feriados e os tons de tuas aparições.
Independente disso ou daquilo outro não me confunda com nenhum livro sagrado, alcorão de páginas arrancadas ou um bhagavad-gita revisitado, também não me surpreenda com videiras secas e vinho imaculado em notas bíblicas de rodapé, tampouco me assombre com esse arrastar pesado de asas machucadas de quem voou sem ter aonde ir.

17 comentários:

Sunflower disse...

Tuas palavras são fortes e ilustrativas, ou eu simplesmente sou bem visual.

Gosto das asas machucadas de quem voou sem ter onde ir. Sabe o Ícaro, aquele que queria voar para atravessar um mar, e então sobrevoar o mar não era o suficiente, ele quis chegar ao sol e as asas derreteram pela ganância? Conta na estória, que o pai dele, continuou pelo caminho do meio, nao teve a ganância, e ele conseguiu chegar do outro lado. Ninguem se lembra dessa parte da estória, sabe por que? porque são os que tem as asas machucadas é que ficam guardados na memória.

Antunes Ferreira disse...

LISBOA – PORTUGAL
«Da minha Língua vê-se o mar»
Virgílio Ferreira

Olá!

Cheguei a este blogue através de muitos outros que costumo visitar e neles postar comentários. (Reformado é assim. Pensão, minúscula, ocupação, obrigatória) Cheguei, vi e… gostei. Está bem feito, está comunicativo, está agradável, está bonito – e está bem escrito. Esta é uma deformação profissional de um jornalista e dizem que escritor a caminho dos 67…, mas que continua bem-disposto, alegre, piadista, gozão, e – vivo. Originário de Direito, cada vez mais torto.

Só uma anotaçãozinha: Durante 16 anos trabalhei no Diário de Notícias, o mais importante de Portugal, onde cheguei a Chefe da Redacção – sem motivo justificativo… E acabo de publicar – vejam lá para o que me deu a «provecta» idade… - o me(a)u primeiro livro de ficção «Morte na Picada», contos da guerra colonial em Angola (1966/68) em que bem contra vontade, infelizmente participei como oficial miliciano (obrigatório, porque vindo da Universidade).

Muito prazer me dará se quiser visitar o meu blogue e nele deixar comentários. E enviar-me colaboração. Basta um imeile / imilio (criações minhas e preciosas…) e já está. E se o quiser divulgar a Amiga(o)s, ainda melhor. Tanto o blogue, como o imeile, tá? Muito obrigado

www.travessadoferreira.blogspot.com
ferreihenrique@gmail.com

Abração

PS – Estou a trabalhar para fazer do meu blogue um ponto de encontro entre Brasil (que conheço bastante bem) e Portugal e, obviamente, entre as suas gentes. Já tenho os primeiros resultados: animadores, felizmente. De um e do outro lado do nosso oceano comum. Malta: colaborem! Outro obrigado, minha gente.

Crisfonseca disse...

"Quando a manhã se arrebenta repentina, se apresenta sem retoques é você quem pousa na grade tão santa clara clareando as palavras que vou mentir"....
Tua escrita profunda , forte, destemida e fulgurante me toma por completo o encantamento.
Beijos,
Cris

f@ disse...

E... espaço de visual novo ... parabéns...bonito...
E eu abro os olhos que se deslumbrem do teu colorido e as asas para voar sobre o que escreves.... se te cai uma pena das tuas asas eu pobre pescador de palavras... adormecida na praia...apanho para colorir os meus desenhos...
levo texto para ler e comentar amanhá que hoje a net não é minha...

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Oi, Sérgio!
Eis aí um blog bem cuidado e com um conteúdo irretocável. Acho bom que seja assim, você com o seu ótimo nível cultural só melhora, eleva o prestígio desses "sertões virtuais". O texto sobre o nosso João Guimarães Rosa, confesso que o fiz às pressas, pois ao ouvir no rádio a notícia rápida dos seu centenário, senti dentro de mim uma vontade de "fazer justiça histórica" a um autor tão completo e genial que, por isso mesmo, já está sendo esquecido e sacralizado, o que acho pior ainda. Pois, se o colocamos num altar, quem, do nosso povo, poderá atingi-lo? Também li Sagarana, vi no cinema (outra das minhas paixões) A Hora e a Vez de Augusto Matraga; na TV, a linda Bruna na pele de Diadorim, sob a direção segura do Avancini. Há ainda um documentário do Pedro Bial, por sinal, bastante bem cuidado e completo, com detalhes biográficos, depoimentos familiares e uma entrevista com o Manuelzão. No meu parecer de apenas leitora, sempre coloco numa mesma "embalagem" o Rosa, o João Cabral, Graciliano e Euclides da Cunha que,por sinal, anda sem nenhuma projeção, a não ser quando falam das suas desventuras familiares.
Parabéns, meu mais recente amigo!
Agradeço-lhe a honra da visita, pois o que faço é, no máximo, um diário e só lhe peço que me permita anotar seu link por lá para que não o percamos de vista.
Abraço carinhoso! Vanuza

Rosana disse...

"Quero porque não querer resolveria só uma parte do problema, justamente aquela parte que te faz voar pela janela só porque não te quero mais."
Palavras soltas, que como borboletas sobre um jardim se uniram, para conversar com minha alma... simplesmente adorei...

Sandra Daniela disse...

Olá! Vim agradecer a visita e o comentário!...

E responder: Sim... é igualmente uma cobardia quando uma mulher faz o mesmo a um homem... :-)


Volta sempre

Van disse...

PERFECT!
;)

VAN LUCHIARI

SECRET LOVE

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Impressões? Falei feito uma louca,rss...Mas, deixas a porta sem trancas, entro! Cor inexistente, notas musicais e se me permite outra extravagância: já viajaste nas páginas de um livro de cabeceira? Detalhe: " sem nada nas idéias?" Muito bom!
Amigo, um Inspirado final de semana!

dessinha moreira disse...

Sem colar frases geniais... só tenho uma coisa a dizer: eu fui pra um mundo desconhecido e voltei, simplesmente não sendo a que era antes de ler o seu texto, sem interpretações genias, mas sentimentos deslumbrados!

Andressa Moreira disse...

Nossa, gostei mesmo daqui, sem zueira! não apenas um blog a me espelhar, mas sim um a me acrescentar =)
otimo fds pra ti!

Kênia Garcia disse...

Olá! Claro, aceito suas críticas como algo construtivo e agradeço as palavras. Eu não sei, de repente a impressão que teve seja mesmo a real, pois em grande parte é um auto-retrato.
E voltarei aqui para ler-te melhor.

Beijo e excelente semana pra ti.

*.Giulia Perotti.* disse...

Olá!

O prazer é meu em conhecê-lo. Fiquei muito grata com a sua passagem pelo meu blog.

É eu não sei se todo poeta é fingidor, porém, não, eu não sinto toda aquela dor! risos... Acho que encontramos aquele sentimento em alguma inspiração, que sentimos aquilo só no momento de passarmos para a folha de papel. Aquele texto particularmente, não estava sentindo aquela dor, já em outros são sentimentos verdadeiros... Depende! risos.

Passei aqui e tive a oportunidade de lê-lo. Magnífico texto... Profundo, bem escrito, palavras bem colocadas... Te faz pensar, te faz ler com calma e aprofundar na mente o que está querendo dizer, e assim absorver o que se passa... Gostei muito!

Com certeza, voltarei!

Obrigada por ter ido ao meu blog...

Beijinhos.

NAELA disse...

Sou a luz e sou o breu; um interruptor acima das tuas decisões, definindo os meios, os feriados e os tons de tuas aparições.
Um texto maravilhoso, sublime e profundo, a tua escrita derrete em cada letra que te leio...
Um beijo doce

Nilson Barcelli disse...

Mais um belíssimo texto.
Vc é mestre no género (e em mais uns quantos, presumo), donde resulta uma prosa muito bem trabalhada, literariamente falando...

Abraço.

Oliver Pickwick disse...

Um texto muito rico, como sempre. É um mestre da melancolia urbana do quem somos e para onde vamos. E, também, usuário contumaz de gran finale. Existencialismo sem chatice, lê-se como a um romance policial acurado.
Um abraço!

LUIZA disse...

AMO ESTE BLOG LINDO E MARAVILHOSO ,PARA MIM É UMA HONRA ESTAR POR AQUI SEU BLOG É LINDO A DISSERTAÇÃO ESTÁ LINDA SÓ TENHO UMA CRÍTICA PARA FAZER :
SEU BLOG É NOTA 1.000.
BEIJOS NO SEU CORAÇÃO.

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