domingo, 8 de janeiro de 2012

Pequena nota autobiográfica (ou, você ainda estava nua quando o leite derramou)

Aquela escuridão era comum, só não sabíamos a que horas se derramaria por cada canto, mas nem por isso prestávamos atenção; era ocorrido e pronto. Como o leite que fervia e tingia de branco a laje de tijolos enegrecida, como se acaso houvesse um tempo diferente em cada manhã e não bastasse a vigilância; era assim. Alguma coisa comum que não entristecia nem abalava o juízo, era apenas o dia-a-dia com a escuridão repentina.
O que digo é que não havia noite, havia um escuro que saltava sobre todos e tudo e tudo silenciava um pouco quando escurecido; depois a gritaria era a mesma, e durante, as velas tantas quanto acesas.
Você costumava cochilar, eu corria com os olhos bem abertos procurando ver o que ninguém via no escuro; não me escapava um palmo de realidade. Só depois de um tempo entendi que o escuro tinha outra fonte e determinava outras atuações, a realidade era mais que uma, os universos se entrecruzavam e os mapas astrais perdiam por completo o sentido; no meio do escuro tudo era outra coisa, outra coisa comum ao tato, às narinas e à percepção dos poros.
Foi numa destas incursões que te conheci melhor. Vi por dentro o que sonhavas e as borboletas de tão azuis nunca mais deixaram o céu nublado, e apesar do escuro profundo, as telas azulavam de tão alegre revoar; os pintores encontravam os matizes mais inesperados: azul borboleta feliz; azul querendo ficar mais claro; azul da cor da borboleta mais alegre e o resfolegar dos cavalinhos que chegavam com a chuva também era azul, azul cansado de tanto trotar.
Quando a luz voltava, os afazeres estavam todos por fazer e eu te fazia carinho, um carinho azul-claro de clareado outra vez. O leite derramado ninguém chorava; era o que tinha que ser e só porque ser outra coisa não seria mais leite derramado nem seu cheiro fervido de seis e pouco da manhã e pouca conversa já que tanta pressa agora e depois. Por isso a escuridão era um jeito de ser menino ou fazer de conta que você ainda estaria nua escondida sob os lençóis azuis do sonho e eu seria a ventania levando a roupa de cama, sorrindo no escuro tantos suspiros de amor açucarado.

8 comentários:

Si, Fosse Algo seria o Nada disse...

Seus textos nos faz viajar! bjs

CONCEIÇÃO DUARTE disse...

Sergio, que maravilha, meus parabéns! Adorei seu e-mail, criativo e tocante! Assim deve ser seu livro, pois a "provinha" do e-mail, já é uma grande chamada para ele... Adorei também o título. Oxalá, vc tenha sucesso com ele. Um grande beijo em um 2012 MARAVILHOSO,

CON
O
N

Maria Luiza disse...

AI, AI !!!!
Esse texto é uma coisa de louco, estava sentindo falta deles.
Bjs.

lidia-la escriba-www.deloquenosehabla.blogspot.com disse...

es agradable saber,algo de ti!y cómo lo dices!!!gracias
lidia-la escriba






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elvira carvalho disse...

Como sempre um excelente texto.
Um abraço e um 2012 tão feliz quanto o deseje.

Vanuza Pantaleão disse...

Tudo azul como eu tanto gosto, com açúcar e com afeto.
E fico por aqui, sorrindo e desejando que você continue assim em 2012:
Amigo bacana, e grande escritor nessa trama em que se encadeiam labirintos de imagens que só você pode e sabe adentrar. Vai continuar que eu sei.
Beijo azulzinho!

ONG ALERTA disse...

Pura sensibilidade um ano cheio de magia e conquistas, abraço Lisette.

lidia-la escriba-www.deloquenosehabla.blogspot.com disse...

paso a saludarte y saber como estas!
un abrazo
lidia-la escriba autora



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