terça-feira, 8 de junho de 2010

ENTRELACES

prá você

Quando no meu sonho encontrei as gavetas vazias foi porque no seu sonho você já tinha ido embora levando todas as roupas.

Enquanto desse lado do mundo eu remexia o escuro do quarto buscando alguma lanterna entre as memórias, do seu lado tudo vinha à tona entre espumas de esperança e longos caminhos pedregosos.

A circularidade da vida nos foi carregando cada vez para mais longe, mas nem ela própria foi capaz de perceber que quanto mais longínquo dentro do circulo mais próximos ficávamos. E tão próximos que nossos sonhos se confundiam; sonhávamos os sorrisos um do outro, sonhávamos as dores e os percalços e nem mais sabíamos quem se levantava pela manhã e lavava o rosto num desencontro de visões.

Completos e desiguais temíamos que as noites nos dragassem como restos. Não éramos restos, afinal. Mesmo que não soubéssemos, a cada dia ficávamos mais próximos e tão mais perto que os sonhos passaram a fazer parte do dia já claro, dos afazeres e de uma preguiça intensa que se instalava a cada novo fim de tarde.

Ainda não sabíamos, mas não amanhecíamos mais sozinhos, nem íamos à rua sem que o guarda-chuva de um protegesse da chuva o outro; não havia como atravessar as avenidas sem que não nos déssemos às mãos. E tudo sem fazer ideia de que já íamos tão perto.

Em certas madrugadas vagávamos pela casa um do outro com medo dos sonhos e até nos encontrávamos nos copos de chá morno sem saber que os lábios nas xícaras eram os nossos; sequer pressentíamos as cores do seu batom nas minhas toalhas ou as minhas secreções nos seus lençóis. E cada vez mais próximos.

A água de um banhando o corpo do outro, as colorações dos dias de um chamejando nos gestos do outro e um sem fim de interpenetrações loucas que derrubavam objetos quando não havia nada ou ninguém, mas insistiam em escapulir do sonho e bulir no círculo que continua em si mesmo para uma eternidade de desenhos sobrepostos e, do mesmo modo, bulir a vida, essa sequência de eventos que se adicionam e que se desmancham quando a ausência de um é a falta do outro.

Se na sua realidade o presente é um sonho, saiba que na minha vida o presente foi sempre você, não um presente qualquer que sonhamos depois de meia dúzia de cervejas, mas um presente que se conjuga amando.

8 comentários:

Anônimo disse...

Puro Cortázar!
realidades que se interpenetram...
desejos presentes em um mesmo espaço e corpo. Quem disse que isso não é possível?
Mesmo tempo e espaço em um só corpo e desejo??
agora compreendo muitas "estranhezas" de minha vida... sons em locais vazios, sopros e beijos na orelha sem ninguém por perto...
parabéns amigo!
sortuda "ela"..
um poeta sensual como vc não se encontra todos os dias... a sinestesia em seus escritos perfumados faz parte de meu tato constante!
Beijos!
Parabéns de novo!
gosto de TODOS os seus escritos, mas acho que neste vc se superou!
Susan Blum

Alis disse...

Olá Sérgio,

Sempre o verbo conjugado no !nfnito…
Sempre a m a r
….
Sonhar em verso ...
...adormecer e acordar...

verbo AMAR no teu sono…
Gosto mto do que escreves…
Adorei….

!nfinito beijinho

Beatriz Galvão disse...

"bulir a vida, essa sequência de eventos que se adicionam e que se desmancham quando a ausência de um é a falta do outro."... "um presente que se conjuga amando".
Gerúndio. Infinito. O extrapolar dos copos e dos corpos.
Sérgio, querido, amor deve ser isso.

Te beijo extasiada!
Bea

elivan disse...

A circularidade da vida nos foi carregando cada vez para mais longe, mas nem ela própria foi capaz de perceber que quanto mais longínquo dentro do circulo mais próximos ficávamos.

Tal e qual! Sensibilidades que nos aproximam e me deixa maravilhada.

Saudades...
bjusssss

VANUZA PANTALEÃO disse...

"...um presente que se conjuga amando..."

Falou e disse, amigo! Já falei que você é incomentável, rsrs.

Um beijão!!!

Vera Basile disse...

Meu querido amigo! A Bia disse tudo: "o amor deve ser isso"!! E é..rs.
Só compreende quem já morreu de amor. Bjooos

Beatriz Galvão disse...

Eu estou LOUCA! Achei que tivesse respondido já... Café? Quando?
Se vc chegar em Sampa e NÃO me avisar, considere-se jurado de morte... hehehehehe

Já tem data???
=P

(Eba: comemorando antecipadamente!)
Bjokas!
Bea

Analuka disse...

Caro amigo, que beleza de texto, aliás, uma viagem, destas com tons oníricos azulados e leitosos, diria até enevoados, como que cenas ou cenários aquarelados e desmanchando-se em brumas, ou aqueles entrevistos por uma vidraça molhada de chuva!... Impressionante a riqueza e condensação de sensações que consegues colocar em tua escrita, e como a mesma sempre é pulsante ou mesmo arfante, cheia de saudade e apetite, repleta de uma melancolia esperançosa. Aprecio tua escritura onírica! Beijos pintados.

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