domingo, 3 de janeiro de 2010

Os Matizes da Era de Peixes


Quando descubro que todo caminho é atalho e todo corte cicatriz, atino que velocidade e contemplação são traços de um mesmo matiz, risos tímidos, pois advertidos na boca de uma gargalhada ferida, exposição tacanha capaz de esgueirar-se nas sombras de um colo gigantesco que não se diria acorde nem refrão.

Tudo tão pouco fruto e raiz esparzida, tudo folha e secura franzina, véu de posses entrecortadas e juízos de um sempre vazio, tudo é vastidão e princípio, muro e visão por entre os vãos que se destacam ocos por dentro dos olhos loucos que poucos veem como aparição.

Tudo é muito enquanto durmo sonhos de preguiça fluida, enquanto mitigo mistérios ao largo das portas e do coração, tudo tão manhã maná e manha que povoo de mim este recanto de projeções mudas, tudo tão lamento quanto perdição por fora, anavalhada em cena aberta, tudo tão pouca luz que se desfia e desafia o tempo extinguindo-se para sempre e nunca filete translúcido deparando-se só; lanterna abandonada no último instante da criação, na primeira inspiração pisciana quando então tudo é forma e vibração e os vermes principiam nas ventas seus caminhos de redenção e desvario, e tudo é correria e um abrir de cortinas tangendo restos.

Deixo o primeiro dia da sua vida, a primeira manhã da mulher gritar para dentro e acordar essa tola imortalidade. Deixo que tudo germine nos beirais e revoo junto às aves que desenham meus pequenos segredos de ninguém; espio antes as feridas ressequidas de tanto que as crianças brincam nos jardins dos pequenos deuses, aqueles que cantam enquanto criamos as horas e tantas aberrações. Movo-me inquieto e desperto outro alguém que trago em mim, alguém inventado às pressas, forjado no olho mágico que espreita, lê jornais de outro tempo e acena todos os dias como nunca mais.





14 comentários:

Eduardo Aleixo disse...

É um texto que os magos gostam de ler, que os sábios apreciam em silêncio e que fez a minha Criança vibrar. Bom Ano Novo lhe deseja o À Beira de Água.

Multiolhares disse...

Só quando deixamos tudo geminar nos locais certos, não tiramos nada do ser próprio habitat as coisas podem fluir no verdadeiro silêncio qeu vive em nós
beijos

Anônimo disse...

você escolhe as palavras a dedo... ou, à lingua... hehe
gosto de seus escirtos, cada vez mais...
é interessante como cada PALAVRA sua verte poesia e encantamento... como vc consegue isso??
simples!
vc tem poesia no olhar... nas mãos... na alma!!

Um beijo
Susan

Sr do Vale disse...

Meu amigo Sérgio, mais um daqueles belos textos que temos que ler e reler.
Na verdade não são tramas, são pensamentos profundos e revelados pela sua percepção poética, que vai segui-lo onde quer que esteja, um São Paulo ou Aracajú, ou qualquer outro lugar, pois esse é você e o outro sim foi forjado as pressas para se adaptar as situações corriqueiras, pelo memos comigo é assim, minhas pinturas é meu mundo, o mundo do Eu, e as coisas do dia a dia é um teatro adaptado para as situações.

p.s.: depois de muito tempo dou as caras, mas apesar da ausência, a lembrança do amigo, não se apaga.

um grande abraço.

VANUZA PANTALEÃO disse...

Bons acenos de 2010, amigo!
Mais que bons, ótimos!!!Bjsss

[vc é "incomentável"]

VANUZA PANTALEÃO disse...

Serginho, amigo querido!
Pelejar nessa vida tem sido a minha sina desde que vim das Alagoas.

Eu tô aqui lendo, relendo, virando tudo pelo avesso e ainda não achei nem "o sarrafo" pra meter (no bom sentido) em você, hahahaha...meto, não, menino, tu és bom!

Agora, que aqueles gringos do blogspot fazem a coisa pra sacanear, ahhhhh, nem tenha dúvida. Não vou entrar nos detalhes, deixa quieto.

Também dancei naqueles bailinhos sob os trinados do Junior e tantos outros, mas eu era tímida e já usava óculos, sem muita chance, sentiu?Rs.

"...da mulher gritar para dentro e acordar essa tola imortalidade..."

Beijos!!!

Analuka disse...

Caro amigo, aprecio sempre tua prosa surreal e palpitante, fluida, vibrante, texto em que letras e sentidos movem-se num ritmo próprio, numa dança por vezes aparentemente caótica, mas onde, no fundo, há harmonia, na dissonância, e melodia, nos contrastes, e afinação, mobilidade... Tua trama de sons e de imagens que surgem quando leio teu texto sempre tão rico e entremeado de luz e sombra, mel e melancolia, azul e gris, arco-íris e precipício, tudo embala como um sonho arrepiante!... Desejo um Ano Novo pleno de poesia e aprendizado, de sensações e sentidos, entre os nonsenses do cotidiano... Abraços alados!

f@ disse...

Olá Sérgio...

Sublime sempre...

BOM DOMINGO
Beijinho gigante

célia musilli disse...

Grazie pela visita e parabéns pelo blog.. voltarei outras vezes. Um beijo e bom domingo!

Denise disse...

Eu que escolhi a energia da gratidão e da alegria para ter transmutada todas as outras,precisava vir aqui para agradecer.
toda energia de bem querer que me aquece e anima.

Foi um anirversário especial.
Na verdade tem sido.

e você fez ser melhor...BEM MELHOR.

minha gratidão e meu bem querer .

DENISE

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

Oi Sergio,
Belo e sublime.Texto forte, mágico, cheio de encantamentos.

Analuka disse...

Caríssimo! Mui lindo este texto, pulsante-fluido-cintilante, mavioso-afiado-afinado-dissonante!... Aprecio sempre tua escrita, mas saboreei com prazer, especialmente, este da última postagem. Ele está agridoce, sem amargura excessiva, temperado com doses suaves de esperança, coalhado de sonhos e ressonâncias siderais...
Agradeço muito tua visita, e as palavras, sempre amáveis e estimulantes! Amigos amantes de letras e artes, como tu, me fazem seguir acreditando no valor deste afã, por vezes desafio, de criar, recriar, reinventar, redescobrir, re-velar matizes, desejos, pulsações, cintilâncias e sentidos!!!
Abraços alados azuis!

(aproveitei para arrumar o link para teu blog, pois estava ainda o antigo...)

f@ disse...

Olá Sérgi

Voltei par reler...

magia...

sempre o B ELO das tuas pa lavras
!
n
f
i
n
i
t
o

beijinho

Bruna Mitrano disse...

Nossa! Que bom isso! Preciso te ler mais vezes.

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