terça-feira, 2 de setembro de 2008

Rota de colisão

  Acredito que fui eu quem te olhou na distância de uma dor pontiaguda similar à vastidão de uma legião de meteoros sem rumo que se abate contra um planeta qualquer nos confins de um espaço embriagado, e já que a doçura dos teus olhos fulminantes fez um dia disparar um instante de redenção e tão poucas causas de alegria, sim fui eu. Quem ficou mesmo perdido sob um sol paulistano 35 graus e tem quem não acredite que os corredores intermináveis de prédios para todos os lados e a algazarra térmica do piche preto movediço provoquem um calor medonho que me prostra e embaralha os rumos dos meus olhos ensolarados e você num rasante sem prumo cravando os punhos na decisão de enxotar-me e eu novamente atônito escondido e desejando que o dia não mais se prolongue, pelo menos não a esse ponto ou nessa direção precipitado e agarrado à chance de rebelar-me no mesmo segundo em que resolves despir-se para uma distância transparente de sóis aflitos e enciumados, e sim. É mesmo um dia qualquer de ilusões chorosas e desculpas intermináveis ou sou mesmo eu sem sentido, mas. Mesmo assim se perfilam e caminham ao meu lado e posso até tocá-las, oferecê-las como mais um desperdício no balcão ou procurar o chão e rolar para o outro lado aceitando que nunca mais anoitecerá aqui fora, que iremos embora devagar e divagando enquanto os meteoros convergem e destroçam outros momentos fugazes dentro dos quais sorriremos um dia ainda atracado no futuro na movimentação das dúvidas ou das tuas ancas caprichosas, e sim sou eu. Em rota de colisão quem olha para todos os lados e do bolso retira um papel amassado com letras sentidas em vermelho tão perto do peito e que dizem tolices tão dentro de você que se materializam e digitam um código qualquer que te faz surgir bem ali, mas. De qualquer forma (in)vestida de sombras é em ti que repousarei meu corpo cansado de tanto seguir por vias mal iluminadas onde não distingo a natureza da maquiagem nem os motivos da gargalhada.
(foto "Paz" de P. Manzano)

11 comentários:

Maria disse...

Adoro, adoro, adoro as tuas tramas meu caro !!!!
Gostei... "algazarra térmica do piche preto movediço"...e tudo em rota de colisão...
Por enquanto ainda no velho ap, e sem internet...a mudança só sai dia 10, semana que vem.
Grande beijo

Rodrigo Fernandes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rodrigo Fernandes disse...

Olá Sérgio, como vai?

Aqui é o Rodrigo Fernandes colunista do AdoroCinema fazendo contato imediato.

Muito bonito o texto, bonito e inclassificável (isso é um elogio); prosa poética, poesia, diário, desabafo, delírio... Gosto dessas coisas que brincam de amarelinha nas fronteiras.Você faz isso intensamente bem. Muito Bom.Altamente recomendável para quem tem bom gosto.

Fica o convite para que conheças meu cantinho criativo em www.livroimaginario.blogspot.com

Bração.

Rodrigo Fernandes
Inverno de 2008

f@ disse...

Olá Sérgio … é como eu disse uma vez lá atrás… mas desta vez é bem capaz de um dia as tuas palavras se elevarem em dia de arco-íris e na colisão brilharem mais as cores…ou ainda faiscar e surgir uma cor nova…

No caminho em direcção a qualquer "nuvem"… de qualquer forma ou cor…a diferença do olhar e a discordia (cá dentro de mim) dá asas e um gosto doce e cremoso - gelado de limão… que sempre refresca do calor e abrasa os sentidos…
O frio e o quente enceram o espaço a 7 chaves e a embriaguês fixa estrelas cintilantes e o luar em todos os recantos no coração desse céu para adormecer a fadiga do sonho giratório de viver em órbita…na terra
O bilhete “amassado com letras” mágicas da canção do vento…
Beijinhos das nuvens

Fabrício Brandão disse...

E assim somos tomados por uma torrente ininterrupta de sensações. Há algo aqui que faz parte de cada um de nós. O sentimento pontuado nesse átimo que divisa amor e afastamentos é intenso.

Sempre bom poder tornar aqui, Sérgio!

Vida longa às palavras!!!

Abração

VeraBasile disse...

Oi Sérgio!!
Lindo e mágico, como sempre. Um instante eternizado..
bjs

Crisfonseca disse...

Olá Sérgio,
tua escrita é encantadora. Ao ler este texto, fiquei admirada com as formas com que você usa para tecer as palavras,adoro tanto as tua escrita , as palavras, quanto o conteúdo. Ès um de meus escritores favoritos desta blogosfera. O texto esta belo.
Beijos,
Cris

Obrigada à Lua, Mãe Ancestral que nos ensina a Arte de Curar - Madre Del'Alma disse...

Sentei-me no sofá e fiquei a assistir o bailar de suas palavras...senti até sua voz...e como não poderia deixar de ser...ouve momentos em que, elas foram tão fortes em sua dança, que me tocavam como pontas agudas, em outros, um delicado toque de carinho...Ah! querido amigo Sérgio! Você é incrivelmente um feiticeiro das palavras...e, eu, quero sempre ter esse privilégio...Ser, enfeitiçada por elas...PARABÉNS!!!
Um aconchegante finalzinho de tarde para você.
Carinhosamente
Stellinha :)

Gabriele Fidalgo disse...

Olá, Sérgio.
Você é ótimo com as palavras! A cada vez que venho aqui, deparo-me com um texto melhor ainda que o anterior. Sempre na mesma linha entre o desabafo e o conto.

Ps: Seguindo a freqüencia de 'doses Beatlemaníacas', domingo que vem falarei sobre o que inpirou John na composição de Strawberry Fields Forever! Espero que goste também. :)


Beijos!

Nilson Barcelli disse...

Excelente, como sempre.
Acho que já esgotei o meu léxico para elogiar a sua escrita...
Parabéns por mais este belo naco de prosa.

Abraço.

Zandali disse...

olá sérgio!

primeiramente quero agradecer a tua visita ao meu mundinho!
segundamente (rs!) dizer que adorei teus escritos... vc sabe mesmo transformar sentimentos em palavras! uau!

o prazer (em conhecê-lo) é todo meu! abraços e até muito breve

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