terça-feira, 9 de setembro de 2008

Ao meio-dia de um quarto trancado


Não seriam sequer as descrenças que a carregariam por entre estas almas tristes, mas uma atitude menos enfática que não mantivesse em riste a pronúncia de um gesto. O limbo pareceria um mistério criando expectativas físicas de que, finalmente, tocar-lhe-iam as vísceras em cumprimento à fé, mas tu não entenderias tais intenções e sairias serpenteando em procissão. Os olhares, mais vazados do que vivos, tragando-lhe os desejos recortados, os sonhos e as contradições, fincariam repulsas e revelações mesmo que na fixidez de uma parede em branco. Ainda longínqua a ponto de não definir contornos sentir perfumes perceber texturas, gritar-lhe-iam impropérios e sentenças dos quais não te livrarias; em verdade os gemidos do mundo gritados por todos os cantos embalariam teu berço, velariam teu sono, fechariam atrás de si as portas do teu convento deixando-a por conta dos afagos que pela vida procuraste. Vinda assim, de dentro da ilusão amarelenta dos véus que despirás quero que cresças junto às cercas e com o tempo quero que as tome e avance pelas terras e surpreenda outros mundos com teus modos de santa coisa nenhuma que engana quem vê assim um olhar de longe e que embora perdido, te olha tão fundo que rouba respiração, coragem, roupas e quando te dás conta já é o fim, hora de procurar respostas e descobrir-se só e sem posses. O que devoto nesta imensidão que chamo prazer, são poemas que bramo em teu altar; acredite os declamo como epístolas insensatas que norteiam minhas misérias e semeiam em ti este espaço todo de lonjuras tantas e tanto de nós que cubro qualquer possibilidade de reflexo, cubro as águas com o pranto indelicado que verto desmesurado, todos os espelhos que não te vêem ao meu lado, cubro poças com as sombras que voam e fecho todos os olhos dizendo-te por todos os dias que não restariam palavras que traduzissem, então, a loucura de caminhar sozinho e recolher os sóis do teu caminho ao meio dia de um quarto trancado; dizendo-te que te levaria no colo, não pelas chamas ou pela devassidão, mas para não cansar-te a sorte de caminhar depois as trilhas dos meus passos; dizendo-te que te daria a mão, que te arrancaria das cacimbas e dos precipícios, que te salvaria dos mortos, mas tu nunca ouviste, preferiste a turba carregando-a como a uma deusa que fosse corpo e melancolia. Disse um dia que tu não compreenderias quando te levassem num dossel de encantamento até o fundo de cada alma sequiosa e lá te abandonassem como a este amor que nos prometemos um dia.

24 comentários:

mundo azul disse...

...não saberemos nunca, se o caminho tomado foi certo ou não... Dependendo do ângulo em que se olha, as visões de uma mesma coisa, podem ser bem diferentes!

Um belo texto!


Beijos de luz...

Paula Raposo disse...

Um belíssimo texto poético! Beijos.

Aline Aimée disse...

Puro luxo poético...

f@ disse...

Espaço sempre renovado, essa imagem magnifica, um visual perfeito..

Mto bonita tb a pintura do post.

“Ao meio dia de um quarto trancado…”
Um quarto sem tecto… que não precisa de portas ou janelas… vasto firmamento que abriga tantas estrelas como preces …
Quem sabe um dia,… nesse mesmo quarto sem tecto caiam pétalas de amor perfeito numa chuva delicada a cintilar do sonho …
Para
a cor dar
a subtileza dos dedos nas teclas do piano esquecido no meio do quarto… As teclas vibram lá dentro daqueles mecanismos todos e inventam sons de canções, canto de aves alegres… soltas em céu aberto...
beijinho das nuvens

Fabrício Brandão disse...

Nossas escolhas são atravessadas pelas permissões que espalhamos ao longo das vias. Todas as previsões são nada frente ao se deixar sentir.

Abraços, Sérgio!

VeraBasile disse...

Oi Sérgio!
" cubro poças com as sombras que voam e fecho todos os olhos dizendo-te por todos os dias que não restariam palavras que traduzissem, então, a loucura de caminhar sozinho..." Esse trecho em especial, me tocou demais, é como se eu pudesse "ver" uma tela pintada com o significado dessas palavras...seria vc um encantador das letras? O canto da sereia se encontra por todas as linhas desse seu texto.
bjs

Crisfonseca disse...

Olá Sérgio,
Belo texto. Tua escrita é de uma perfeição incrível. Não só em palavras, mas em conteúdo.
Beijos,
Cris

Gata Verde disse...

Lindo...

Gabriele Fidalgo disse...

O amor que, quieto, fala alto. A tua poesia fala alto, Sérgio!
Gosto muito daqui.

Que bom que gostou do texto de hoje, do meu blog. Também adoro o efeitos que as imagens causam.

Beijos! :*

Bichodeconta disse...

Chegada aqui a seu convite (agradeço)Deambulando por entre as suas palavras e por dentro do ser que as escreveu..Mistura deliciosa de prosa que dança ao som da mais bela poesia..Parabéms, voltarei e deixo um abraço assim como o desejo de bom final de semana..

Véu de Maya disse...

A prosa poética será talvez uma entrada nos mistérios da vida e do amor...pq não do Universo...
agradeço a visita.

GMV disse...

Obrigada, Sérgio, pelo convite. Li os seus três últimos posts e gostei imenso da sua escrita. Voltarei com mais tempo.
Bom fim de semana deste lado de cá do Oceano.
Bjs
(Temos em comum a "Educação"?)

eder ribeiro disse...

o que esperar do amanhã qdo no presente o que temos são escolhas, sejam elas erradas ou não. magnífico texto, forte e impactante. abçs

Clarice disse...

Pelo inusitado do convite, via spam, deixo meu registro.
Voltarei para ler com calma.
De vez em quando agarro algum spam pelos cabelos e este deu sorte de não ser deletado sem abrir. Ou a sorte será minha?
Abraços.

Duarte disse...

Assim dá gosto...!
Encontrei algo distinto, inovador, o que sempre se agradece, quando existe uma tendência em fazer todos os mesmo.
Entrada com grande impacto, com um desenho de boa criação.
Os textos estão cuidados e plasmam assunto do quotidiano que servem como experiência.
Fiquei grato.

:))

Sr do Vale disse...

Sérginho, a quem te dirigistes este texto poético, com certeza, se leu, e refletiu, sumiu.
Pois é muito intenso e forte, e ainda por cima insistes:

"...O que devoto nesta imensidão que chamo prazer, são poemas que bramo em teu altar..."

Curvo-me a seus belos textos.

Abraço.

KÁTIA CORRÊA DE CARLI disse...

"cubro as águas com o pranto indelicado que verto desmesurado, todos os espelhos que não te vêem ao meu lado"
Tudo que disser soará desnecessário...
Lindo demais!
beijo e bom restinho de domingo

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Sérgio, que saudade!
Eu tenho um defeito. Não, tenho todos, ou quase...Mas não acho honesto ler apressadamente um texto criativo e elaborado e mais, açodadamente, opinar sobre o mesmo. Vou voltar com carinho amanhã e dou a "última forma", rssss. Mas, a princípio já és sabedor que aprecio o teu estilo.
Ah, as Divas! Se comportaram direitinho, rsssss...Boa noite, amigo e obrigada pelas palavras tão gentis!Bjs

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Voltei, amigo!
Vida de mulher brasileira; casa, família, trabalho e...Blog e ser blogueira é "padecer no paraíso", como dizia o poeta que, me perdoem os mais cultos até já me esqueci do nome, seria o Bilac?
Interessante, você vai rir, mas associo muita coisa à música e o seu poema me lembrou "Conceição", carro-chefe de Cauby Peixoto e a belíssima "Helena, Helena, Helena", composição de Alberto Land (onde andará?) e uma EMOCIONANTE interpretação de TAIGUARA, saudoso, músico, intérprete, ativista político, enfim, um Ser Humano ímpar. E era o "Festival Estudantil" de 1968 (o ano que não terminou de Zuenir Ventura); ali, Gonzaguinha se lançou com "Pobreza por Pobreza", desafiando sempre o Poder, Salve o Moleque Gonzaguinha!
E Taiguara chorou ao cantar essa música, pois era uma letra sentida de um homem que AMAVA A MULHER ERRADA...Ela também trocava o Afeto Sincero pelo mundo luxuoso dos falsos amores, dos "ricos" que a projetavam na "sociedade"...Será que é por aí?
E ainda tem Sérgio Endrigo cantando: " Tem tchgente que ama mile cosi i si perde pele estrada del mondo..." (perdoe o "italiano", foi só para encerrar...)Boa tarde!Bjs

Eduardo Aleixo disse...

Belo texto. Denso, forte e cheio de beleza e de significado. Obrigado pelo convite. Pelo que li, vou voltar. E um abraço, Sérgio.
Eduardo

Eduardo Aleixo disse...

Belo texto. Denso, forte e cheio de beleza e de significado. Obrigado pelo convite. Pelo que li, vou voltar. E um abraço, Sérgio.
Eduardo

Obrigada à Lua, Mãe Ancestral que nos ensina a Arte de Curar - Madre Del'Alma disse...

Querido amigo Sérgio!

Sempre que leio suas palavras, viajo de tal forma, que é um pouco difícil voltar...tamanho poder e emoção que elas carregam...É ler sua alma meu amigo...MARAVILHOSO!!!
Uma sensação de "solidão acompanhada"...muito familiar a mim...
Estou escrevendo essas palavras, tendo ao fundo a ilha da magia (FLORIPA - SC), que é onde me encontro no momento - visitando filhotas - sempre é assim quando a saudade aperta...rs
Talvez por isso, minha sensibilidade esteja um pouco mais aflorada...Amo essa sensação...Obrigada meu amigo querido...Saio mais uma vez com a Alma alimentada...mas isso, é só até a próxima parada por aqui...rs
Beijinhos carinhosos
Stellinha :)

P.s
Não esqueci da receita viu...mas enviarei depois ok!!!!

Obrigada à Lua, Mãe Ancestral que nos ensina a Arte de Curar - Madre Del'Alma disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Oliver Pickwick disse...

Texto tramoso, velho Sérgio! Ainda por cima, tem um toque épico, ressonâncias trágicas e sutis de antigos anfiteatros gregos.
Um abraço!

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