domingo, 6 de novembro de 2011

Cores, contornos e outros mundos

Title #0
De ontem, lembro de um chão recortado e dos rastros deixados sem intenção, lembro de alguma precisão em retalhos e caminhos quase desenhados sem ter para aonde ir. De ontem, lembro de uma profundidade cega, um tormento de cavalos à baia e garotos entrincheirados por sob saias frisadas e presenças quase tão frias quanto mortas e mesmo sem demora, a vida parecia um motim levado a cabo nas naus levadas por nossos sexos. De ontem, lembro de um sorriso calado por sob o abajur da sala, uma incipiência pouco abandonada e um minuto de garantias escancaradas. Lembro das canções de Marvin Gaye e quase saberia cantá-las, mas ontem mais saberia já que hoje sou velho demais. Ontem, todos os sonhos tinham cor e se revelavam à cabeceira, traziam corpos de uma doce agonia e manhãs retocadas de sol. Lembro que minhas aventuras tinham tons de ventania e que minhas romarias prescindiam de deus, já que sê-lo era um meio de prosseguir. De ontem também trago cartões das cercanias e ilusões nuas de quem não se vê; de ontem ainda um escuro de cravos, rosas e juras, e outros lados proibidos em cujo frescor habitavam as tardes e as ninfetas e a suspeita de que sob tão pouca vigilância era Janis e não Maria quem nos paria pelas bandas de uma sentença inaudita.
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Texto originalmente publicado no blog "Muros de vento" em parceria com a ilustradora Vera Basile
...e por falar em Marvin Gaye...


6 comentários:

Si, Fosse Algo seria o Nada disse...

Que Janis seja a mãe de todos nós! Sempre vc me acerta na veia.
Bjssssss

CONCEIÇÃO DUARTE disse...

Esse Marvin Gaye me mata de saudades,

Bjus, CON

Maria Luiza disse...

Texto maravilhoso Sérginho, como sempre, adoro visitar seu blog.
Parabéns!

Sônia Silvino disse...

Tenha uma ótima semana ao som do Marvin!
Beijos!

elvira carvalho disse...

Pena que eu não entenda nada do que canta Marvin. O post me lembrou dos sonhos que encheram a mina vida de juventude e que se perderam nos caminhos da vida.
Um abraço

Vanuza Pantaleão disse...

Suas cores de ontem continuam aqui e agora, amigo. Assim como sua escrita deliciosamente leve, líquido licor a descer pela garganta...e tudo isso ao som da super voz de Marvin Gaye.

Ótimo final de semana, Serginho!
(Perdão pela demora em vir aqui, não tenho passado pelo gmail, é "o efeito Natal chegando", rs)

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