domingo, 9 de outubro de 2011

Fuga (ou, das tolices e contradições)

Sinto que não vivo em mim.

Não sinto meus pés caminharem estas vias, nem vejo as cores que se entregam à minha visão; só o desalinho dos seus cabelos contra um vento que não eriça minha pele, mas estranhamente aterroriza. Parece um beijo do inferno. Um suspiro pela porta entreaberta.
Corro abri-la quando batem, mas não é minha a mão direita que torce a maçaneta, tão pouco os olhos que se deparam com outra estória. Recebo, falo, oriento, explico, brigo, emudeço, despeço-me. Mas nunca sou eu quem fica só ou quem os recebe.
Eu me pareço com alguém que não conheço, me pareço com o vazio de uma expressão no escuro.
No espelho não vejo alguém com quem eu dividiria minhas amarguras e minhas alegrias, aliás, nem minhas as alegrias sequer seriam, pois não as vivo e nem minhas amarguras transgrido para socorrer-me um instante. Apenas vivo um dia de ausência, de um corre-corre osmótico, um dia de gestos tão exatamente mecânicos, tão piedosamente carinhosos, mas vivos sem mim, sem quem os vista ou manuseie, sem alguém que lhes deem humanidade plena ou a mais pura animalidade.
Sinto que vivo a vida de alguém sem vida; todos os dias. E sinto que todos os dias esse alguém procura por sua vida, mesmo que não viva em si, mas em mim, mesmo que a sua vida seja vazia, sinto que se inquieta e se aniquila a cada gesto meu, a cada palidez, a cada nova manhã de olheiras e futilidades, a cada segundo que vivo fora de mim desintegrando a vida de quem pensa haver vida nesse eu vazio.

(ouça depois, durante, quando quiser...)



8 comentários:

Maria Luiza disse...

QUE TEXTO MARAVILHOSO SÉRGIO LUYZ, ADORO LER O QUE ESCREVE, SABE EXTRAIR TUDO DA ALMA...
PARABÉNS!

lidia-la escriba-www.deloquenosehabla.blogspot.com disse...

hola ,mi amigo poeta...primero quise oir y después leer...me parece el poema de una melancolía,no se como explicarlo,pero me llevaste de la mano hasta el final!precioso trabajo!
precioso...
estoy abocada a la presentacion de mis dos libros,que lo haré, no soy simple, como una puesta en escena, veremos,que pasa,si viene o no alguien a la presentación,invitar invité,pero...
muchas gracias por compartir!
lidia-la escriba

Vera Basile disse...

Oi Sérgio!
Com uma visão de "mortal comum" sem nenhum preparo para críticas, mas já está na hora de vc lançar seu primeiro livro! Amei...e senti. Acho q isso é o q importa....sentir.
Bjs

Quasímodo disse...

Muito bons teus escritos, Sérgio.

Já os lia esparçamente.

Agora sigo-te.

Si, Fosse Algo seria o Nada disse...

É incrivel como vc conhece esse fantasma de nós mesmos. Vc o descreve, o sente...é quase como se vc morasse um pouco aqui dentro de mim.

Bjs

Susan Blum disse...

linda fuga de si mesmo... adorei...

Tais Luso disse...

Lindo texto, li ouvindo a música... Forte e belo. Aliás, um pouco de cada um de nós quando mergulhamos em nossos mistérios.

Abraços!

Maria Luiza disse...

Parece que vc. está sempre dentro do meu coração da minha alma, texto envolvente, adorável, não te conheço, mas me sinto sempre dentro de cada frase...
Vc. é muito bom, continue escrevendo.

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