quarta-feira, 17 de junho de 2009

(per)plexo

A porta range e o princípio da noite desfia a cena: jogado na velha poltrona não vejo você, apenas ouço o ranger de tanto tempo e que não significaria nada além de mais um entre tantos miseráveis entrando a cata de alguma porcaria que deixasse seu fim de tarde menos podre e descolorido. Mas é mesmo você; vejo quando você levanta a minha pálpebra direita entrando inteira no meu campo visual perguntando quantas eu havia tomado e se, por um acaso, fazia ideia da semana, dos riscos, das pessoas que se perguntavam onde, como, quando; arrasto-me até o banheiro e noto o quanto o registro do chuveiro é alto, tão alto Everest das minhas águas salvadoras que me deito sob os furinhos pensando que talvez uma dor aguda me eletrocute e recebo na cara um jato gelado avisando-me que tudo aquilo é a mais intensa realidade e que tanta realidade só é possível quando você chega trazendo alguma comida e cigarros comuns. Ouço sua voz dizendo que está separando uma roupa e que a toalha já está sobre o assento do vaso sanitário; empurro a cortina e o mundo parece menos fétido e mais compacto. Sento-me e deixo que a água gelada escorra mais alguns segundos, o bastante para sentir-me outra vez provido de pernas e alguma boa vontade.
(A cena)
Nada tão possível quanto assombrar-se no escuro da cena fechada é mesmo tatear as paredes de um sonho do qual se acorda tantas vezes quanto nos invada. É um vozerio que se trás de fora, através das páginas que folheias como se alguém fosse chegar e interromper, então melhor nem ler, só passar os olhos de mariposa inquieta. Estarei sempre em cena, mesmo que abandonado, sem falas e sem gestos, cenográfico.
Deixo o banheiro nu e atravesso o corredor arrastando a toalha amarela. Fica um rastro molhado que muito a irritaria, mas daquela vez você sorri e diz que a roupa está sobre a cama. Pergunta se estou com fome e rujo. O dia acaba quase lento, há uma dúvida no tempo que não sabe se ajustar, há velocidade num ponto e paralisia no outro e me deixo sorrir pela 1ª vez em muitos dias. Nu, vejo-me no espelho imenso que quase não conseguíamos carregar lá daquela loja de velharias na São João, ele está trincado (já estava quando o compramos e nem assim saiu mais barato) e a trinca provoca uma curva que habitualmente não tenho aqui na altura do plexo, você diz que o plexo solar é um canal para com a divindade e, em geral, gargalho com essa conversa. Mas não hoje. Hoje estou quase vivo outra vez, muito embora não consiga encontrar as roupas, onde elas estão mesmo? Ah, claro aqui em cima da cama; demoro um pouco olhando a cama e talvez por estar nu e você logo ali tão próxima preparando alguma coisa prá comer, penso em quantas vezes te comi nessa cama, e penso que talvez as paredes tenham registrado tudo, áudio e vídeo; paredes têm ouvidos, certamente têm olhos.
(Espelho)
Atravessei-o tantas vezes; uma espécie de Alice pouco contida e nem tão heróica, um ser transfigurado e trespassado das imagens que conspirei quando sorvido pelo abandono da cena. O espelho é mais profundo e sumo sem me refletir.
Ouço o barulho dos pratos e volto da última cena; estou bêbado e não consigo satisfazê-la, você faz de conta que compreende e vai fumar um cigarro junto à janela. Chovia muito daquela vez e você foi embora debaixo de chuva. Visto a roupa e ainda cambaleante chego à cozinha, suco de laranja e omelete. Agradeço e como feito um cavalo. Você pergunta o que acontecera e sorrio dizendo que nenhuma novidade o de sempre, enchi e cara, fumei que nem louco, enchi a cara de novo e posso jurar que estava muito longe de casa, não sei como cheguei aqui. Então você me olha do fundo da sua cena predileta, caminha até a porta, para e vira só a cabeça me mandando para o inferno, depois volta até a sala escolhe algum disco bem antigo dos Stones e o no último volume coloca um blues que me faz chorar como criança. Arrependo-me contra o azul indeciso do céu que se despede e dou de cara com acordes que me rasgam o tal plexo que não me deixa ver a cara de nenhuma divindade e mesmo assim volto até aqui e peço mais uma e desmaio de tanto você, de tanto que você bate a porta sem olhar para trás.
Hoje não. Hoje você me olha de tão perto, mesmo que a sua cena predileta insista em se repetir a nossa frente, hoje você não me detesta durante estes minutos em que você me encontra destruído, hoje você está tão bonita e esta omelete tão cheirosa, talvez eu a coma mais tarde, assim que eu consiga sair daqui, deste lado da porta que range; que range porque a janela está aberta e o vento que já é outro brinca com ela para lá e para cá; que range a noite toda sem que eu consiga sair daqui, do fundo desta velha e confortável poltrona de onde avisto estes monstrengos ávidos por alguma porcaria que os faça compreender a transição da tarde para a noite ou porque estão ali espiando meu corpo nu inerte na poltrona velha. Você não surge entre os mil rostos espantados plantados à minha porta que range. Não me arrasto até o chuveiro. Tão pouco me alimento. Peço um cigarro e que entrem, há lugar para todos, até mesmo prá você caso decida voltar.
(Janela)
Não houve um sequer que não tenha visto tua silhueta em destaque, e depois não me tenha culpado pelo silêncio de todos os outros dias.

8 comentários:

VANUZA PANTALEÃO disse...

Sou a primeira?
Que legal, amigo!

Como poderia dizer-te? Bem, não estou perplexa. Quanto a essa maneira de transformares o cotidiano em "algo Borgeano", te asseguro, eu já contava.

Cada vez melhor, viu, Serginho?!!!
Beijossss

Fabrício Brandão disse...

Linhas intensas por aqui e um certo e velho desejo pulsando nas entrelinhas das esperas. Somos assim mesmo. Por vezes, alimentamo-nos dos vestígios dos matizes vividos.

Abração, querido!

Beatriz Galvão disse...

Fala sério com relação ao café?

f@ disse...

Olá Sérgio…
As tuas palavras sempre únicas… e essa forma imensa de dizer tanto…

Cai o cortinado da janela e o vidro fica embaciado...

despido tb o silêncio grita…

Mto Belo sempre

Imenso beijinhoooooooooo

Obrigada à Lua, Mãe Ancestral que nos ensina a Arte de Curar - Madre Del'Alma disse...

Menino Bacana...
"Eu olho no espelho...Vejo-me, além de mim...Eu preciso de espaço para meus desejos... Tenho que mergulhar em minhas fantasias...Eu sei que assim que chegar...Tudo é possível.. Porque não há ninguém escondido...Além do invisível..."

A ousadia é que nos permite crescer...PARABÉNS!!!!Pela ousadia de viver...
Carinhos ;D

elvira carvalho disse...

Já não olho no espelho, porque se olho fico inquieta e surpresa, por não conhecer a figura... Aquela que eu julgo ser, mantém-se jovem e cheia de sonhos. A que eu vejo no espelho, é uma mulher a caminho da velhice, que carrega nos cabelos brancos as desilusões e nas rugas o sepulcro dos sonhos.
Um abraço.

Beatriz Galvão disse...

Adorei a trama, a (des)ordem dos (des)acontecimentos, tão cotidianos e, ao mesmo tempo, fugidios como o "azul indeciso do céu". Belo texto!

Aguardo contato para café e tramas bacanas em Sampa!

Bjo!

Linda Graal disse...

que maravilha!!! quantas imagens cintilam por aqui...excelente, guapoooooooo!!

beijobeijo

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