domingo, 12 de abril de 2009

Crônica de um naufrágio anunciado

Atrai-me o drama de um adeus no convés; atrai-me mesmo se for às escuras, por sob os cobertores, um adeus contrito, quase prece, soluço de cores piscando na insistência dos olhos abertos dentro da cerração, quase do outro lado quando a manhã violentamente explode com todas as malas prontas e com todas as dúvidas ainda por serem dirimidas, algumas escondidas nas dobras dos lençóis, outras mais robustas afastando os móveis, criando situações desagradáveis, destemperando humores, asfixiando com palavras caladas, apressando os gestos e o elevador. É quando nos esbarrões pelo apartamento descobre-se que não há mais poesia quando nos tocamos, mas uma espécie de pudor epidérmico ressequido em nossos corpos velados, nada mais se revela além da abundância das despedidas em tantas manhãs minimalistas, nas quais um suco de laranja, fatias de pão integral, documentos sobre a peça que você insiste chamar de arca, as chaves do carro sempre no mesmo lugar, tudo exatamente a mão, tão pasteurizado e em comunhão com a mesmice dos sorrisos e dos sabores. Depois, o caos das ruas, o olhar maquinal que atravessa os minutos de um instante até o outro carregando um fotograma desfocado, uma mudez fixa e virtual entre as indecisões de um caminho tão familiar e, no entanto, tão desconhecido. Lembrar ainda, que dali a pouco nos veremos dentro das órbitas alheias transfigurando a mudez em monossílabos aquiescentes e prestações pouco vivas, sim porque tudo voa e se espatifa mais a frente quando nos dizemos adeus assim que nos encontramos nos conveses dessas nossas viagens e desaparições. Tudo me atrai e trai-me tão intensamente que sangro meus sonhos num último beijo antes de deitar, antes que o tempo me converta e eu morra hoje como ontem, acenando do convés de uma embarcação que quando parte já é tão tarde como nunca.

13 comentários:

FERNANDA & POEMAS disse...

OLÁ SÉRGIO, BELO TEXTO... UM BOM DOMINGO DE PÁSCOA... BEIJINHOS DE CARINHO,
FERNANDINHA

Marta disse...

Um texto que retrata a vida, cheia de rotinas, sem sabores e desafios..
O desafio estará em a contrariar, em a desafiar???
Belo Texto...Boa Páscoa
Beijos e abraços
Marta

VeraBasile disse...

Sérgio!
Não é fácil comentar seus textos, não que eu não entenda...não é isso. É que vc toca tão profundamente, nas questões do amor, dos desencontros....que acaba atingindo em cheio, aqueles que ainda acreditam no amor. No caso eu..rs.
É familiar, sangrar meus sonhos e morrer de amor.
Adoro te ler!
BJS

f@ disse...

Olá Sérgio,

Sublime como sempre…

V o a m o s e assim carregamos o céu dos nossos pesadelos rotineiros…. Por isso chove…
dos olhos sempre que a despedida se impõe… o abraço das asas sem penas ilude a “mente” … o sono cala o sonho… com beijos esquecidos da noite anterior… na despedida a n t e r i or…

Descobr i r o tempo que demora a viagem… as saudades que se afundam no baloiçar da embarcação…
rumo incerto…
por certo
água e ar
e um beijinho gigante

GMV disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
GMV disse...

Gosto sempre muito dos teus textos...[ainda bem que me vais buscar para ler :)]

"sangro meus sonhos num último beijo" tem um efeito imagético magnífico. Adorei.

Beijos meus

Fabrício Brandão disse...

Felicidade pra mim voltar sempre aqui, embora, na incessante tarefa de editor, eu faça malabarismos para tentar prestigiar lugares valiosos como o seu, caro Sérgio!

E agora esse sentimento de um adeus. Um, não, vários signos de despedida. Teu texto nos lembra essa coisa que não se consuma, fica, assim, indefinida. Será que os desfechos são realmente certos?


Abração, querido, e obrigado pelo convite!

adelaide amorim disse...

Texto rico, Sérgio, e muito bonito. Um abraço.

susan disse...

"Tudo me atrai e trai-me "... Sérgio... vc sabe o quanto gosto de seus escritos. Acho que deveriam fazer parte de um livro e não somente ficar no virtual. Sua escrita-bisturi revela as entranhas de relacionamentos condicionados à rotina e me faz pensar se todo relacionamento acaba em rotina (espero que não). Coloquei a sua frase no início do meu comentário, para dizer que seus escritos me atraem, mas traem meus sentimentos, justamente porque dissecam e mostram coisas que nem sempre quero ver. Para mim, vc é a "Clarice Lispector de calças"... (tome isso como um elogio!) Beijos meu querido Sérgio!
Susan

VANUZA PANTALEÃO disse...

Serginho,
Eis-me aqui e confessando a minha incapacidade em comentar em breves palavras um texto com tantas leituras...apenas deixo claro o quanto aprecio tua Obra.

Mas temo esse "adeus"...temo lançar velas aos ventos.

Que a tua Páscoa tenha transcorrido bem e uma semana de belas inspirações!!!Bjs

Eduardo Aleixo disse...

Quem passa por isso, sabe, que isso é beco, é naufrágio, é desespero, mesmo debaixo das mantas, é traição ao amor, é, violentamente, impotência, fuga, desnorte, imaturidade, aprendizagem no pó dos caminhos..
Quem passa por isso sabe que só esteticamente se pode dizer que adoramos ver o drama das partidas, sem vontades de acenos, nesta cena onde tudo perde o sentido,onde as palavras ditas perderam o sangue e a alma...
Quem passou por isso sabe que isso é o prólogo do deserto, da solidão na cidade, nas perguntas que o ruido dos carros ouvem: mas porquê? porquê? E os passos que por hábito vão dar a uma casa já não habitada, passos que não têm já passado, nem futuro ainda..., corpo isolado e sem armas...
Só na plateia, vendo a tragédia, se pode escrever: adoro o drama das separações!
E, no erntanto, não é só estética, não. É o poenma da vida. Dos becos. Dos desencontros. Dos apegos. Fragilidades. Longa a caminhada até à compreensão do Amor!
Tenho dito, Sérgio.
Abraço.
Eduardo

Beatriz Galvão disse...

Vim te ler, pois o título me chamou a atenção. Sou viciada em GG Márquez, e acabo de ler "Crônica de uma morte anunciada". Ele tb adora situações-limite, e a dor humana é tecida em textos maravilhosos, como o seu.
Estilos diferentes, claro, mas senti tanta sinceridade aqui como em poucos lugares em que estive!

Por isso, volto sempre. Com sua permissão...

elvira carvalho disse...

Mais um excelente texto de que muito gostei mas que tenho dificuldade em comentar. São tão intensos... Destaco ea parte final, que achei soberba.
Um abraço

À margem, já agora gostava de saber porque é que os seus mais vão sempre parar ao Spam.

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