Como em qualquer outra manhã você vai à janela, mas ao contrário do que habitualmente vê, vê que não continuo mais pensando em você, não que eu tenha desistido, é que um cansaço tão denso, tão intenso, acabou por vencer-me, e o que você olha não é mais a mesma cena tão familiar, você vê apenas a luz e o caminhar das pessoas, o farfalhar dos passos sobre o outono, mas não vê a manhã de fato e nem o caminho, não me vê folheando os jornais ou pedindo mais um café até que você apareça e peça o seu com leite e eu te olhe como em todas as outras manhãs como se a visse pela primeira vez, lembra? Vocês discutiam a impermeabilidade de alguns escritos do Cortázar e ouvi aquilo tudo tão atentamente que nem me dei conta de participar depois de um jeito tão ávido; queria impressionar, afinal vocês discutiam com tanto entusiasmo e conhecimento. Você não percebe, mas a manhã sequer está ali, em seu lugar um azul desbotado quase mortificado nas gazes de uma cerração esgarçada, e dentro disso movo-me sem pensar em você e isso é tão estranho quanto acusar a manhã de abandono, pois se não penso é porque estou mais morto que a esperança amanhecida feito pão de ontem, migalha, sem eira nem beira como naquele encontro, falamos de antigos namorados e de como fazíamos amor, te achei tão linda e tão nua vestida de cores calmas, me achei tão calmo dentro do paletó e por detrás da barba mal feita, te achei tão doce falando de bolos, tão culta escrevendo livros, te achei quase tudo e, no entanto, era noite e a noite sempre teima em dizer-nos que até mais, amanhã a gente se vê nem que seja por um minuto, mas o minuto de uma mulher surpreende tanto mais que esta manhã que nem existe mais, mas que você insiste em olhar pela janela como se ela ainda lhe trouxesse o meu jeito de pedir o meu com açúcar e o seu com leite e adoçante. Quem sabe um pintor resolvesse o vazio desenhando em frente à sua janela um banco de jardim no qual eu me sentasse todas as manhãs esperando que você a abrisse. Quando você abrisse a janela eu te acenaria não um adeus, mas um “vem cá”, tenho aqui dois cafés, um com leite, e uma vontade louca de que a janela se abra para sempre.
quinta-feira, 30 de abril de 2009
domingo, 12 de abril de 2009
Crônica de um naufrágio anunciado

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