segunda-feira, 13 de outubro de 2008

CÍRCULOS

Então você volta. Você volta sempre. Volta com o rabo entre as pernas na esperança de que eu abra as minhas e me desampare inteira agarrada às cordas que me lanças. Tem sido assim desde sempre e sempre é tanto tempo que a impressão que tenho é a de que sempre andamos juntos e que isso tudo entre nós é quase sujo e incestuoso. Fico até com vergonha quando você volta e me convence; depois quando me lavo, sinto que com a água não é você quem escorre, mas eu mesma. Jurei que não aconteceria outra vez, jurei que sua expressão de anjo não me convenceria e que daquela vez não terminaríamos pelos cantos meio nus meio vestidos, cambaleando um sobre o outro e de olho na porta já que nunca se sabe. Daquela vez você voltaria da porta e eu não me envergonharia depois. Daquela vez eu te olharia de longe, tão longe que não conseguiria reconhecê-lo e então talvez eu me apaixonasse por você e você seria alguém totalmente novo, um punhado de segredos que eu não decifraria, pois nunca te conheceria assim. Quando você estivesse distante, bem distante, eu gritaria o teu nome que sequer saberia ao certo, mas gritaria com a agonia de quem vê alguém que talvez fosse sua cara-metade sumindo dentro de uma rua tão imensa quanto as mentiras que nos contamos todos os dias e gritaria para além da sua audição, gritaria para um homem que bem poderia levar-me à loucura escorada nas paredes, dependurada nessa aventura suja, meio despida meio vestida, meio sem saber o que seria certo e errado e em todo caso fazê-lo, porque não fazê-lo me levaria de volta a você.
(Foto: Tuta, veja em olhares)

9 comentários:

Eduardo Aleixo disse...

Relação puramente corporal, mas mesmo esta, sem desinibição total, cheia de desgosto e após a posse, posse sim, mas dá a ideia de que não comunhão, angústia, alienação de seres que não se conhecem ainda na plenitude, a si próprios, mas que têm uma relação que não ajuda a essa ambicionada descoberta, alienação das almas, destroços, porém com sinais de esperança porque consciência há da necessidade de mudar de vida, de forma de amar, procura de outros parâmetros, na fronteira do ser, à beira do desastre, crise, quase batendo no fundo, ainda não, mas quase, hão-de ter ainda uma ou duas ou três ralações amorosas deste tipo, mais não imagino, aproxima-se o momento do teste, do salto, do mergulho, da descoberta, melhor dizendo do encontro, melhor: do regresso à pureza que se sente dentro, mas não existe fora, dois seres estão perto do país do equilíbrio, da plenitude: será que a encontram?

Um abraço

Eduyardo

Cristiana Fonseca disse...

Olá Sérgio,
Não tenho mais palavras pra definir teus contos, são belos.
Digo que tua escrita me leva a mundos viajantes.
Belo texto
Abraços,
Cris

f@ disse...

Olá Sérgio,
Das voltas e + voltas na rotunda… a procurar no mapa das estradas encontrar a saída certa, percorrer de forma acessível o espaço que falta para chegar ao destino……
se esse lugar tiver estrada… porque existem lugares onde só chegamos percorrendo carreiros estreitos, e tantas vezes com alguns obstáculos... – lugares recônditos um tanto inexplorados, por vezes de exuberante beleza… Podemos, no entanto escolher outra saída, -a auto-estrada… rápido fácil …mas controlada, insípida e monótona …
Em tudo na vida tb é assim…sobretudo no amor, talvez porque aspiramos de+ ou somos obstinados ou porque simplesmente é um sentimento que valorizamos demais (por estar “convencionado” e escrito nas estrelas que o amor é o + importante de tudo) …

Mas em circulo repetidas vezes acaba-se por sentir uma tontura, como embriaguês e, há necessidade de parar, quantas vezes até,nos apoiar…
A corda neste caso prende... quer na subida quer na descida -simbólico gesto de se segurar?...

A distância do olhar nem importa… mas o olhar sim.
Ver… normalmente vê-mos o que queremos… o que + gostamos...

Beijinho das nuvens

anjobaldio disse...

Muito bom, a trma está cada vez mais bacana. Grande abraço.

Maria disse...

Amor e a corda-bamba...
Num primeiro momento me veio à mente a imagem do filme Dolls, na cena dos amantes que andavam literalmente amarrados...
sempre adoro aqui !!!
beijo,beijo,beijo

Oliver Pickwick disse...

Do conto de fadas as cordas de malabarismo, o amor nunca morre.
Quanto ao conceito aventura suja, é flutuante, depende do referencial.
Continuo fã deste seu estilo a la Jorge Luís Borges da hora.
Um abraço!

Gabriele Fidalgo disse...

É como estar na beira do penhasco com um album de fotografias nas mãos. Uma mistura de nostalgia e saudade com vontade de esquecer.
ótimo!!

Sr do Vale disse...

Textos contínuos, um completando o outro, a inconformidade dos sentimentos, momentos relatados com paixão.

Van disse...

Lindo! Esse "amor" entregue, inevitável, masoquista, que ama sem medidas, mas ama. Sofre, sangra, escorre, mas ama. Dói, espeta, fere, mas ama. Parte ......... Vai embora.......... MAS AMA!

Beijucas

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